<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-473026477073219210</id><updated>2011-09-05T05:48:36.319-07:00</updated><title type='text'>grande superfície cultural</title><subtitle type='html'>Grandes prosas, grandes prazeres, grandes leituras, grandes esperanças, grandes pilhagens. GRANDES. Qualquer coisona para o correiozão jpcruz@gmail.com</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>admin</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>7</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-473026477073219210.post-1528440419676947750</id><published>2005-08-18T05:08:00.000-07:00</published><updated>2010-12-08T05:10:31.251-08:00</updated><title type='text'>A Confissão de Lúcio</title><content type='html'>&lt;i&gt;Mário de Sá Carneiro&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;A António Ponce de Leão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;…assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não era ele-próprio, se o incerto outro viveria…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 78%;"&gt;FERNANDO PESSOA&lt;br /&gt;Na Floresta do Alheamento&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cumpridos dez anos de prisão por um crime que não pratiquei e do qual, entanto, nunca me defendi, morto para a vida e para os sonhos… nada podendo já esperar e coisa alguma desejando — eu venho fazer enfim a minha confissão: isto é, demonstrar a minha inocência.&lt;br /&gt;Talvez não me acreditem. Decerto que não me acreditam. Mas pouco importa. O meu interesse hoje em gritar que não assassinei Ricardo de&lt;br /&gt;Loureiro é nulo. Não tenho família; não preciso que me reabilitem. Mesmo, quem esteve dez anos preso, nunca se reabilita. A verdade simples é esta.&lt;br /&gt;E aqueles que, lendo o que fica exposto, me perguntarem: — "Mas por que não fez a sua confissão quando era tempo? Por que não demonstrou a sua inocência ao tribunal?" — a esses responderei: — A minha defesa era impossível. Ninguém me acreditaria. E fora inútil fazer-me passar por um embusteiro ou por um doido… Demais, devo confessar, após os acontecimentos em que me vira envolvido nessa época, ficara tão despedaçado que a prisão se me afigurava uma coisa sorridente. Era o esquecimento, a tranquilidade, o sono. Era um fim como qualquer outro — um termo para a minha vida devastada. Toda a minha ânsia foi pois de ver o processo terminado e começar cumprindo a minha sentença.&lt;br /&gt;De resto, o meu processo foi rápido. Oh! o caso parecia bem claro… Eu nem negava nem confessava. Mas quem cala consente… E todas as simpatias estavam do meu lado.&lt;br /&gt;O crime era, como devem ter dito os jornais do tempo, um "crime passional". Cherchez la femme. Depois, a vítima um poeta — um artista. A mulher romantizara-se desaparecendo. Eu era um herói, no fim de contas. E um herói com seus laivos de mistério, o que mais me aureolava. Por tudo isso, independentemente do belo discurso de defesa, o júri concedeu-me circunstâncias atenuantes. E a minha pena foi curta.&lt;br /&gt;Ah! foi bem curta — sobretudo para mim… Esses dez anos esvoaramse-me como dez meses. É que, em realidade, as horas não podem mais ter acção sobre aqueles que viveram um instante que focou toda a sua vida.&lt;br /&gt;Atingido o sofrimento máximo, nada já nos faz sofrer. Vibradas as sensações máximas, nada já nos fará oscilar. Simplesmente, este momento culminante raras são as criaturas que o vivem. As que o viveram ou são, como eu, os mortos-vivos, ou — apenas — os desencantados que, muita vez, acabam no suicídio.&lt;br /&gt;Contudo, ignoro se é felicidade maior não se existir tamanho instante. Os que o não vivem, têm a paz — pode ser. Entretanto, não sei. E a verdade é que todos esperam esse momento luminoso. Logo, todos são infelizes. Eis pelo que, apesar de tudo, eu me orgulho de o ter vivido.&lt;br /&gt;Mas ponhamos termos aos devaneios. Não estou escrevendo uma novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de fatos. E, para a clareza, vou-me lançando em mau caminho — parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira ser, a minha confissão resultará — estou certo — a mais incoerente, a mais perturbadora, a menos lúcida.&lt;br /&gt;Uma coisa garanto porém: durante ela não deixarei escapar um pormenor, por mínimo que seja, ou aparentemente incaracterístico. Em casos como o que tento explanar, a luz só pode nascer de uma grande soma de factos. E são apenas factos que eu relatarei. Desses factos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim, declaro que nunca experimentei. Endoideceria, seguramente.&lt;br /&gt;Mas o que ainda uma vez, sob minha palavra de honra, afirmo é que só digo a verdade. Não importa que me acreditem, mas só digo a verdade — mesmo quando ela é inverosímil.&lt;br /&gt;A minha confissão é um mero documento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 130%;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por 1895, não sei bem como, achei-me estudando Direito na Faculdade de Paris, ou melhor, não estudando. Vagabundo da minha mocidade, após ter tentado vários fins para a minha vida e de todos igualmente desistido — sedento de Europa, resolvera transportar-me à grande capital. Logo me embrenhei por meios mais ou menos artísticos, e Gervásio Vila-Nova, que eu mal conhecia de Lisboa, volveu-se-me o companheiro de todas as horas. Curiosa personalidade essa de grande artista falido, ou antes, predestinado para a falência.&lt;br /&gt;Perturbava o seu aspecto físico, macerado e esguio, e o seu corpo de&lt;br /&gt;unhas quebradas tinha estilizações inquietantes de feminilismo histérico e opiado, umas vezes — outras, contrariamente, de ascetismo amarelo. Os cabelos compridos, se lhe descobriam a testa ampla e dura, terrível, evocavam cilícios, abstenções roxas; se lhes escondiam a fronte, ondeadamente, eram só ternura, perturbadora ternura de espasmos dourados e beijos subtis. Trajava sempre de preto, fatos largos, onde havia o seu quê de sacerdotal — nota mais frisantemente dada pelo colarinho direito, baixo, fechado. Não era enigmático o seu rosto — muito pelo contrário — se lhe cobriam a testa os cabelos ou o chapéu. Entanto, coisa bizarra, no seu corpo havia mistério — corpo de esfinge, talvez, em noites de luar. Aquela criatura não se nos gravava na memória pelos seus traços fisionómicos, mas sim pelo seu estranho perfil. Em todas as multidões ele se destacava, era olhado, comentado — embora, em realidade, a sua silhueta à primeira vista parecesse&lt;br /&gt;não se dever salientar notavelmente: pois o fato era negro — apenas de um talhe um pouco exagerado —, os cabelos não escandalosos, ainda que longos; e o chapéu, um bonet de fazenda — esquisito, era certo —, mas que em todo o caso muitos artistas usavam, quase idêntico.&lt;br /&gt;Porém, a verdade é que em redor da sua figura havia uma auréola.&lt;br /&gt;Gervásio Vila-Nova era aquele que nós olhamos na rua, dizendo: ali, deve ir alguém.&lt;br /&gt;Todo ele encantava as mulheres. Tanta rapariguinha que o seguia de olhos fascinados quando o artista, sobranceiro e esguio, investigava os cafés…&lt;br /&gt;Mas esse olhar, no fundo, era mais o que as mulheres lançam a uma criatura do seu sexo, formosíssima e luxuosa, cheia de pedrarias…&lt;br /&gt;— Sabe, meu caro Lúcio — dissera-me o escultor, muita vez —, não sou eu nunca que possuo as minhas amantes; elas é que me possuem…&lt;br /&gt;Ao falar-nos, brilhava ainda mais a sua chama. Era um conversador admirável, adorável nos seus erros, nas suas ignorâncias, que sabia defender intensamente, sempre vitorioso; nas suas opiniões revoltantes e belíssimas, nos seus paradoxos, nas suas blagues. Uma criatura superior — ah! Sem dúvida. Uma destas criaturas que se enclavinham na memória — e nos perturbam, nos obcecam. Todo fogo! Todo fogo!&lt;br /&gt;Entretanto, se o examinávamos com a nossa inteligência, e não apenas com a nossa vibratilidade, logo víamos que, infelizmente, tudo se cifrava nessa auréola, que o seu génio — talvez por demasiado luminoso — se consumiria a si próprio, incapaz de se condensar numa obra — disperso, quebrado, ardido. E assim aconteceu, com efeito. Não foi um falhado porque teve a coragem de se despedaçar.&lt;br /&gt;A uma criatura como aquela não se podia ter afecto, embora no fundo ele fosse um excelente rapaz: mas ainda hoje evoco com saudade as nossas palestras, as nossas noites de café — e chego a convencer-me que, sim, realmente, o destino de Gervásio Vila-Nova foi o mais belo: e ele um grande, um genial artista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha muitas relações no meio artístico o meu amigo. Literatos, pintores, músicos, de todos os países. Uma manhã, entrando no meu quarto, desfechou-me:&lt;br /&gt;— Sabe, meu caro Lúcio, apresentaram-me ontem uma americana muito interessante. Calcule, é uma mulher riquíssima que vive num palácio que propositadamente fez construir no local onde existiam dois grandes prédios que ela mandou deitar abaixo — isto, imagine você, em plena Avenida do Bosque de Bolonha! Uma mulher linda. Nem calcula. Quem me apresentou foi aquele pintor americano dos Óculos azuis. Recorda-se? Eu não sei como ele se chama… Podemo-la encontrar todas as tardes no Pavilhão de Armenonville. Costuma ir lá tomar chá. Quero que você a conheça. Vai ver. Interessantíssima!&lt;br /&gt;No dia seguinte — uma esplêndida tarde de Inverno, tépida, cheia de sol e céu azul —, tomando um fiacre, lá nos dirigimos ao grande restaurante.&lt;br /&gt;Sentamo-nos; mandou-se vir chá… Dez minutos não tinham decorrido, quando Gervásio me tocava no braço. Um grupo de oito pessoas entrava no salão — três mulheres, cinco homens. Das mulheres, duas eram loiras, pequeninas, de pele de rosas e leite; de corpos harmoniosos, sensuais — idênticas a tantas inglesas adoráveis. Mas a outra, em verdade, era qualquer coisa de sonhadamente, de misteriosamente belo. Uma criatura alta, magra, de um rosto esguio de pele dourada — e uns cabelos fantásticos, de um ruivo incendiado, alucinante. A sua formosura era uma destas belezas que inspiram receio. Com efeito, mal a vi, a minha impressão foi de medo — de um medo semelhante ao que experimentamos em face do rosto de alguém que praticou uma acção enorme e monstruosa.&lt;br /&gt;Ela sentou-se sem ruído; mas logo, vendo-nos, correu estendendo as mãos para o escultor:&lt;br /&gt;— Meu caro, muito prazer em o encontrar… Falaram-me ontem muito bem de si… Um seu compatriota… um poeta… M. de Loureiro, julgo…&lt;br /&gt;Foi difícil adivinhar o apelido português entre a pronúncia mesclada.&lt;br /&gt;— Ah… Não o sabia em Paris — murmurou Gervásio.&lt;br /&gt;E para mim, depois de me haver apresentado à estrangeira:&lt;br /&gt;— Você conhece? Ricardo de Loureiro, o poeta das Brasas…&lt;br /&gt;Que nunca lhe falara, que apenas o conhecia de vista e, sobretudo, que admirava intensamente a sua obra.&lt;br /&gt;— Sim… não discuto isso… você bem vê, para mim já essa arte passou. Não me pode interessar… Leia-me os selvagens, homem, que diacho!...&lt;br /&gt;Era uma das scies de Gervásio Vila-Nova: elogiar uma pseudo-escola literária da última hora — o Selvagismo, cuja novidade residia em os seus livros serem impressos sobre diversos papéis e com tintas de várias cores, numa estrambótica disposição tipográfica. Também — e eis o que mais entusiasmava o meu amigo — os poetas e prosadores selvagens, abolindo a ideia, "esse escarro", traduziam as suas emoções unicamente em jogo silábico, por onomatopeias rasgadas, bizarras: criando mesmo novas palavras que coisa alguma significavam e cuja beleza, segundo eles, residia justamente em não significarem coisa alguma… De resto, até aí, parece que apenas se publicara um livro dessa escola. Certo poeta russo de nome arrevesado. Livro que Gervásio seguramente não lera, mas que todavia se não cansava de exalçar, gritando-o assombroso, genial…&lt;br /&gt;A mulher estranha chamou-nos para a sua mesa, e apresentou-nos os seus companheiros, que ainda não conhecíamos: o jornalista Jean Lamy, do Fígaro, o pintor holandês Van Derk e o escultor inglês Tomás Westwood. Os dois outros eram o pintor americano dos Óculos azuis e o inquietante viscondezinho de Naudières, louro, diáfano, maquilhado. Quanto às duas raparigas, limitou-se apontando-nos:&lt;br /&gt;— Jenny e Dora.&lt;br /&gt;A conversa logo se entabulou ultracivilizada e banal. Falou-se de modas, discutiu-se teatro e music-hall, com muita arte à mistura. E quem mais se distinguiu, quem em verdade até exclusivamente falou, foi Gervásio.&lt;br /&gt;Nós limitávamo-nos — como acontecia com todos, perante ele, perante a sua intensidade — a ouvir, ou, quando muito, a protestar. Isto é: a dar ensejo para que ele brilhasse…&lt;br /&gt;— Sabe, meu querido Lúcio — uma vez contara-me o escultor —, o&lt;br /&gt;Fonseca diz que é um ofício acompanhar-me. E uma arte difícil, fatigante. É que eu falo sempre; não deixo o meu interlocutor repousar. Obrigo-o a ser intenso, a responder-me… Sim, concordo que a minha companhia seja fatigante. Vocês têm razão.&lt;br /&gt;Vocês — note-se em parêntese — era todo o mundo, menos Gervásio… E o Fonseca, de resto, um pobre pintorzinho da Madeira, "pensionista do Estado", de barbichas, lavallière, cachimbo — sempre calado e oco, olhando nostalgicamente o espaço, à procura talvez da sua ilha perdida…&lt;br /&gt;Um santo rapaz!&lt;br /&gt;Depois de muito se conversar sobre teatro e de Gervásio ter proclamado que os actores — ainda os maiores, como a Sara, o Novelli — não passavam de meros cabotinos, de meros intelectuais que aprendiam os seus papéis, e de garantir — "creiam os meus amigos que é assim" — que a verdadeira arte apenas existia entre os saltimbancos; esses saltimbancos que eram um dos seus estribilhos e sobre os quais, na noite em que nos encontráramos em Paris, logo me narrara, em confidência, uma história tétrica: o seu rapto por uma companhia de pelotiqueiros, quando tinha dois anos e os pais o haviam mandado, barbaramente, para uma ama da serra da Estrela, mulher de um oleiro, do qual, sem dúvida, ele herdara a sua tendência para a escultura e de quem, na verdade, devido a uma troca de berços, era até muito possível que fosse filho — a conversa deslizou, não sei como, para a voluptuosidade na arte.&lt;br /&gt;E então a americana bizarra logo protestou:&lt;br /&gt;— Acho que não devem discutir o papel da voluptuosidade na arte porque, meus amigos, a voluptuosidade é uma arte — e, talvez, a mais bela de todas. Porém, até hoje, raros a cultivaram nesse espírito. Venham cá, digam-me: fremir em espasmos de aurora, em êxtases de chama, ruivos de ânsia — não será um prazer bem mais arrepiado, bem mais intenso do que o vago calafrio de beleza que nos pode proporcionar uma tela genial, um poema de bronze? Sem dúvida, acreditem-me. Entretanto o que é necessário é saber vibrar esses espasmos, saber provocá-los. E eis o que ninguém sabe; eis no que ninguém pensa. Assim, para todos, os prazeres dos sentidos são a luxúria, e se resumem em amplexos brutais, em beijos húmidos, em carícias repugnantes, viscosas. Ah! mas aquele que fosse um grande artista e que, para matéria-prima, tomasse a voluptuosidade, que obras irreais de admiráveis não altearia!… Tinha o fogo, a luz, o ar, a água, e os sons, as cores, os aromas, os narcóticos e as sedas — tantos sensualismos novos ainda não explorados… Como eu me orgulharia de ser esse artista!… E sonho uma grande festa no meu palácio encantado, em que os maravilhasse de volúpia… em que fizesse descer sobre vós os arrepios misteriosos das luzes, dos fogos multicolores — e que a vossa carne, então, sentisse enfim o fogo e a luz, os perfumes e os sons, penetrando-a a dimaná-los, a esvaí-los, a matá-los!… Pois nunca atentaram na estranha voluptuosidade do fogo, na perversidade da água, nos requintes viciosos da luz?.. Eu confesso-lhes que sinto uma verdadeira excitação sexual — mas de desejos espiritualizados de beleza — ao mergulhar as minhas pernas todas nuas na água de um regato, ao contemplar um braseiro incandescente, ao deixar o meu corpo iluminar-se de torrentes eléctricas, luminosas… Meus amigos, creiam-me, não passam de uns bárbaros, por mais requintados, por mais complicados e artistas que presumam aparentar!&lt;br /&gt;Gervásio insurgiu-se: "Não; a voluptuosidade não era uma arte. Falassem-lhe do ascetismo, da renúncia. Isso sim!… A voluptuosidade ser uma arte? Banalidade… Toda a gente o dizia ou, no fundo, mais ou menos o pensava…&lt;br /&gt;E por aqui fora, adoravelmente dando a conhecer que só por se lhe afigurar essa a opinião mais geral, ele a combatia.&lt;br /&gt;Durante toda a conversa, apenas quem nunca arriscara uma palavra tinham sido as duas inglesinhas, Jenny e Dora — sem também despregarem ainda de Gervásio, um só instante, os olhos azuis e louros.&lt;br /&gt;Entretanto as cadeiras haviam-se deslocado e, agora, o escultor sentava-se junto da americana. Que belo grupo! Como os seus dois perfis se casavam bem na mesma sombra esbatidos — duas feras de amor, singulares, perturbadoras, evocando mordoradamente perfumes esfíngicos, luas amarelas, crepúsculos de roxidão. Beleza, perversidade, vício e doença…&lt;br /&gt;Mas a noite descera. Um par de amorosos do grande mundo entrava a refugiar-se no célebre estabelecimento, quase deserto pelo Inverno.&lt;br /&gt;A americana excêntrica deu o sinal de partida; e quando ela se ergueu eu notei, duvidosamente notei, que calçava umas estranhas sandálias, nos pés nus… nos pés nus de unhas douradas…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Porta Maillot, tomamos o tramway para Montparnasse, começando Gervásio:&lt;br /&gt;— Então, Lúcio, que lhe pareceu a minha americana?&lt;br /&gt;— Muito interessante.&lt;br /&gt;— Sim? Mas você não deve gostar daquela gente. Eu compreendo bem. Você é uma natureza simples, e por isso…&lt;br /&gt;— Ao contrário — protestava eu em idiotice —, admiro muito essa gente. Acho-os interessantíssimos. E quanto à minha simplicidade…&lt;br /&gt;— Ah, pelo meu lado, confesso que os adoro… Sou todo ternura por eles. Sinto tantas afinidades com essas criaturas… como também as sinto com os pederastas… com as prostitutas… Oh! é terrível, meu amigo, terrível…&lt;br /&gt;Eu sorria apenas. Estava já acostumado. Sabia bem o que significava tudo aquilo. Isto só: Arte.&lt;br /&gt;Pois Gervásio partia do princípio de que o artista não se revelava pelas suas obras, mas sim, unicamente, pela sua personalidade. Queria dizer: Ao escultor, no fundo, pouco importava a obra de um artista. Exigia-lhe porém que fosse interessante, genial, no seu aspecto físico, na sua maneira de ser — no seu modo exterior, numa palavra:&lt;br /&gt;— Porque isto, meu amigo, de se chamar artista, de se chamar homem de génio, a um patusco obeso como o Balzac, corcovado, aborrecido, e que é vulgar na sua conversa, nas suas opiniões — não está certo; não é justo nem admissível.&lt;br /&gt;— Ora… — protestava eu, citando verdadeiros grandes artistas, bem inferiores no seu aspecto físico.&lt;br /&gt;E então Gervásio Vila-Nova tinha respostas impagáveis.&lt;br /&gt;Se por exemplo — o que raro acontecia — o nome citado era o de um artista que ele já alguma vez me elogiara pelas suas obras, volvia-me:&lt;br /&gt;— O meu amigo desculpe-me, mas é muito pouco lúcido. Esse de quem me fala, embora aparentemente medíocre, era todo chama. Pois não sabe quando ele…&lt;br /&gt;E inventava qualquer anedota interessante, bela, intensa, que atribuía ao seu homem…&lt;br /&gt;E eu calava-me…&lt;br /&gt;De resto, era outro traço característico em Gervásio: construir as individualidades como lhe agradava que fossem, e não as ver como realmente eram. Se lhe apresentavam uma criatura com a qual, por qualquer motivo, simpatizava — logo lhe atribuía opiniões, modos de ser do seu agrado; embora, em verdade, a personagem fosse a antítese disso tudo.&lt;br /&gt;É claro que um dia chegava a desilusão. Entretanto, longo tempo ele tinha a força de sustentar o encanto…&lt;br /&gt;Pelo caminho, não pude deixar de lhe observar:&lt;br /&gt;— Você reparou que ela trazia os pés descalços, em sandálias, e as unhas douradas?&lt;br /&gt;— Você crê? … Não…&lt;br /&gt;A desconhecida estranha impressionara-me vivamente e, antes de adormecer, largo tempo a relembrei e à roda que a acompanhava.&lt;br /&gt;Ah! como Gervásio tinha razão, como eu no fundo abominava essa gente — os artistas. Isto é, os falsos artistas cuja obra se encerra nas suas atitudes; que falam petulantemente, que se mostram complicados de sentidos e apetites, artificiais, irritantes, intoleráveis. Enfim, que são os exploradores da arte apenas no que ela tem de falso e de exterior.&lt;br /&gt;Mas, na minha incoerência de espírito, logo me vinha outra ideia: —&lt;br /&gt;Ora, se os odiava, era só afinal por os invejar e não poder nem saber ser como eles…&lt;br /&gt;Em todo o caso, mesmo abominando-os realmente, o certo é que me atraíam como um vício pernicioso.&lt;br /&gt;Durante uma semana — o que raro acontecia — estive sem ver Gervásio.&lt;br /&gt;Ao fim dela, apareceu-me e contou-me:&lt;br /&gt;— Sabe, tenho estreitado relações com a nossa americana. É na verdade uma criatura interessantíssima. E muito artista… Aquelas duas pequenas são amantes dela. É uma grande sáfica.&lt;br /&gt;— Não…&lt;br /&gt;— Asseguro-lhe.&lt;br /&gt;E não falamos mais da estrangeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passou-se um mês. Eu já me esquecera da mulher fulva, quando uma noite o escultor me participou de súbito:&lt;br /&gt;— É verdade: aquela americana que eu lhe apresentei outro dia dá amanhã uma grande soirée. Você está convidado.&lt;br /&gt;— Eu!?...&lt;br /&gt;— Sim. Ela disse-me que levasse alguns amigos. E falou-me de si.&lt;br /&gt;Aprecia-o muito… Aquilo deve ser curioso. Há uma representação no fim — umas apoteoses, uns bailados ou o quer que é. Entanto se é maçador para você, não venha. Eu creio que estas coisas o aborrecem…&lt;br /&gt;Protestei, idiotamente ainda, como era meu hábito; afirmei que, pelo contrário, tinha até um grande empenho em o acompanhar, e marcámos rendez-vous para a noite seguinte, na Closerie, às dez horas.&lt;br /&gt;No dia da festa, arrependi-me de haver aceitado. Eu era tão avesso à vida mundana… E depois, ter que envergar um smoking, perder uma noite… Enfim… enfim…&lt;br /&gt;Quando cheguei ao café — caso estranho! — já o meu amigo chegara. E disse-me:&lt;br /&gt;- Ah… sabe? Temos que esperar ainda pelo Ricardo de Loureiro. Também está convidado. E ficou de se encontrar aqui comigo. Olhe, aí vem ele…&lt;br /&gt;E apresentou-nos:&lt;br /&gt;— O escritor Lúcio Vaz.&lt;br /&gt;— O poeta Ricardo de Loureiro.&lt;br /&gt;E nós, um ao outro:&lt;br /&gt;— Muito gosto em o conhecer pessoalmente.&lt;br /&gt;Pelo caminho a conversa foi-se entabulando e, ao primeiro contacto, logo experimentei uma viva simpatia por Ricardo de Loureiro. Adivinhava-se naquele rosto árabe de traços decisivos, bem vincados, uma natureza franca, aberta — luminosa por uns olhos geniais, intensamente negros.&lt;br /&gt;Falei-lhe da sua obra, que admirava, e ele contou-me que lera o meu volume de novelas e que, sobretudo, lhe interessara o conto chamado João Tortura. Esta opinião não só me lisonjeou, como mais me fez simpatizar com o poeta, adivinhando nele uma natureza que compreenderia um pouco a minha alma. Efectivamente, essa novela era a que eu preferia, que de muito longe eu preferia, e entretanto a única que nenhum crítico destacara — que os meus amigos mesmo, sem mo dizerem, reputavam a mais inferior.&lt;br /&gt;Brilhantíssima aliás a conversa do artista, além de insinuante, e pela vez primeira eu vi Gervásio calar-se — ouvir, ele que em todos os grupos era o dominador.&lt;br /&gt;Por fim o nosso coupé estacou em face de um magnífico palácio da&lt;br /&gt;Avenida do Bosque, todo iluminado através de cortinas vermelhas, de seda, fantasticamente. Carruagens, muitas, à porta — contudo uma mescla de fiacres mais ou menos avariados, e algumas soberbas equipagens particulares.&lt;br /&gt;Descemos.&lt;br /&gt;À entrada, como no teatro, um lacaio recebeu os nossos cartões de convite, e outro imediatamente nos empurrou para um ascensor que, rápido, nos ascendeu ao primeiro andar. Então, deparou-se-nos um espectáculo assombroso:&lt;br /&gt;Uma grande sala elíptica, cujo teto era uma elevadíssima cúpula rutilante, sustentada por colunas multicolores em mágicas volutas. Ao fundo, um estranho palco erguido sobre esfinges bronzeadas, do qual — por degraus de mármore rosa — se descia a uma larga piscina semicircular, cheia de água translúcida. Três ordens de galerias — de forma que todo o aspecto da grande sala era o de um opulento, fantástico teatro.&lt;br /&gt;Em qualquer parte, ocultamente, uma orquestra moía valsas.&lt;br /&gt;À nossa entrada — foi sabido — todos os olhares se fixaram em&lt;br /&gt;Gervásio Vila-Nova, hierático, belíssimo, na sua casaca negra, bem cintada. E logo a estrangeira se nos precipitou a perguntar a nossa opinião sobre a sala.&lt;br /&gt;Com efeito, os arquitectos apenas há duas semanas a tinham dado por concluída. Aquela festa sumptuosa era a sua inauguração.&lt;br /&gt;Gritamos o nosso pasmo em face à maravilha, e ela, a encantadora, teve um sorriso de mistério:&lt;br /&gt;— Logo, é que eu desejo conhecer o vosso juízo… E, sobretudo, o que pensam das luzes…&lt;br /&gt;Um deslumbramento, o trajo da americana. Envolvia-a uma túnica de um tecido muito singular, impossível de descrever. Era como que uma estreita malha de fios metálicos — mas dos metais mais diversos — a fundirem-se numa cintilação esbraseada, onde todas as cores ora se enclavinhavam ululantes, ora se dimanavam, silvando tumultos astrais de reflexos. Todas as cores enlouqueciam na sua túnica.&lt;br /&gt;Por entre as malhas do tecido, olhando bem, divisava-se a pele nua; e o bico de um seio despontava numa agudeza áurea.&lt;br /&gt;Os cabelos fulvos tinha-os enrolado desordenadamente e entretecido de pedrarias que constelavam aquelas labaredas em raios de luz ultrapassada.&lt;br /&gt;Mordiam-se-lhe nos braços serpentes de esmeraldas. Nem uma jóia sobre o decote profundo… A estátua inquietadora do desejo contorcido, do vício platinado… E de toda a sua carne, em penumbra azul, emanava um aroma denso a crime.&lt;br /&gt;Rápida, após momentos, ela se afastou de nós a receber outros convidados.&lt;br /&gt;A sala enchera-se entretanto de uma multidão bizarrada e esquisita.&lt;br /&gt;Eram estranhas mulheres quase nuas nos seus trajos audaciosos de baile, e rostos suspeitos sobre as uníssonas e negras vestes masculinas de cerimónia.&lt;br /&gt;Havia russos hirsutos e fulvos, escandinavos suavemente louros, meridionais densos, crespos — e um chinês, um índio. Enfim, condensava-se ali bem o Paris cosmopolita — rastaquouère e genial.&lt;br /&gt;Até à meia-noite, dançou-se e conversou-se. Nas galerias jogava-se infernalmente. Mas a essa hora foi anunciada a ceia; e todos passamos ao salão de jantar — outra maravilha.&lt;br /&gt;Pouco antes chegara-se a nós a americana e, confidencialmente, nos dissera:&lt;br /&gt;— Depois da ceia, é o espectáculo — o meu Triunfo! Quis condensar nele as minhas ideias sobre a voluptuosidade-arte. Luzes, corpos, aromas, o fogo e a água — tudo se reunirá numa orgia de carne espiritualizada em outro!&lt;br /&gt;Ao entrarmos novamente na grande sala — por mim, confesso, tive medo… recuei…&lt;br /&gt;Todo o cenário mudara — era como se fosse outro o salão. Inundava-o um perfume denso, arrepiante de êxtases, silvava-o uma brisa misteriosa, uma brisa cinzenta com laivos amarelos — não sei por que, pareceu-me assim, bizarramente —, aragem que nos fustigava a carne em novos arrepios.&lt;br /&gt;Entanto, o mais grandioso, o mais alucinador, era a iluminação. Declaro-me impotente para a descrever. Apenas, num esforço, poderei esboçar onde residia a sua singularidade, o seu quebranto:&lt;br /&gt;Essa luz — evidentemente eléctrica — provinha de uma infinidade de globos, de estranhos globos de várias cores, vários desenhos, de transparências várias — mas, sobretudo, de ondas que projectores ocultos nas galerias golfavam em esplendor. Ora essas torrentes luminosas, todas orientadas para o mesmo ponto quimérico do espaço, convergiam nele em um turbilhão — e, desse turbilhão meteórico, é que elas realmente, em ricochete enclavinhado, se projectavam sobre paredes e colunas, se espalhavam no ambiente da sala, apoteotizando-a.&lt;br /&gt;De forma que a luz total era uma projecção da própria luz — em outra luz, seguramente, mas a verdade é que a maravilha que nos iluminava nos não parecia luz. Afigurava-se-nos qualquer outra coisa — um fluido novo. Não divago; descrevo apenas uma sensação real: essa luz, nós sentíamo-la mais do que a víamos. E não receio avançar muito afirmando que ela não impressionava a nossa vista, mas sim o nosso tacto. Se de súbito nos arrancassem os olhos, nem por isso nós deixaríamos de ver. E depois — eis o mais bizarro, o mais esplêndido — nós respirávamos o estranho fluido. Era certo, juntamente com o ar, com o perfume roxo do ar, sorvíamos essa luz que, num êxtase iriado, numa vertigem de ascensão — se nos engolfava pelos pulmões, nos invadia o sangue, nos volvia todo o corpo sonoro. Sim, essa luz mágica ressoava em nós, ampliando-nos os sentidos, alastrando-nos em vibratilidade, dimanando-nos, aturdindo-nos… Debaixo dela, toda a nossa carne era sensível aos espasmos, aos aromas, às melodias!...&lt;br /&gt;E não foi só a nós, requintados de ultracivilização e arte, que o mistério rutilante fustigou. Pois em breve todos os espectadores evidenciavam, em rostos confundidos e gestos ansiosos, que um ruivo sortilégio os varara sob essa luz de além-Inferno, sob essa luz sexualizada.&lt;br /&gt;Mas de súbito toda a iluminação se transformou divergindo num&lt;br /&gt;resvalamento arqueado: e outro frémito mais brando nos diluiu então, como beijos de esmeraldas sucedendo a mordeduras.&lt;br /&gt;Uma música penetrante tilintava nessa nova aurora, em ritmos desconhecidos — esguia melopeia em que soçobravam gomos de cristal entrechocando-se, onde palmas de espadas refrescavam o ar esbatidamente, onde listas húmidas de sons se vaporizavam subtis…&lt;br /&gt;Enfim: prestes a esvairmo-nos num espasmo derradeiro da alma — tinham-nos sustido para nos alastrarem o prazer.&lt;br /&gt;E, ao fundo, o pano do teatro descerrou-se sobre um cenário aureolal. Extinguiu-se a luz perturbadora, e jorros de electricidade branca nos iluminaram apenas.&lt;br /&gt;No palco surgiram três dançarinas. Vinham de tranças soltas — blusas vermelhas lhes encerravam os troncos, deixando-lhes os seios livres, oscilantes. Ténues gazes rasgadas lhes pendiam das cinturas. Nos ventres, entre as blusas e as gazes, havia um intervalo — um cinto de carne nua onde se desenhavam flores simbólicas.&lt;br /&gt;As bailadeiras começaram as suas danças. Tinham as pernas nuas.&lt;br /&gt;Volteavam, saltavam, reuniam-se num grupo, embaralhavam os seus membros, mordiam-se nas bocas…&lt;br /&gt;Os cabelos da primeira eram pretos, e a sua carne esplêndida de sol.&lt;br /&gt;As pernas, talhadas em aurora loura, esgueiravam-se-lhe em luz radiosa a nimbar-se, junto do sexo, numa carne mordorada que apetecia trincar.&lt;br /&gt;Mas o que as fazia mais excitantes era a saudade límpida que lembravam de um grande lago azul de água cristalina onde, uma noite de luar, elas se mergulhassem descalças e amorosas.&lt;br /&gt;A segunda bailadeira tinha o tipo característico da adolescente pervertida. Magra — porém de seios bem visíveis —, cabelos de um louro sujo, cara provocante, nariz arrebitado. As suas pernas despertavam desejos brutais de as morder, escalavradas de músculos, de durezas — masculinamente.&lt;br /&gt;Enfim, a terceira, a mais perturbadora, era uma rapariga frígida, muito branca e macerada, esguia, evocando misticismos, doença, nas suas pernas de morte — devastadas. Entanto o baile prosseguia. Pouco a pouco os seus movimentos se tornavam mais rápidos até que por último, num espasmo, as suas bocas se uniram e, rasgados todos os véus — seios, ventres e sexos descobertos —, os corpos se lhes emaranharam, agonizando num arqueamento de vício.&lt;br /&gt;E o pano cerrou-se na mesma placidez luminosa…&lt;br /&gt;Houve depois outros quadros admiráveis: dançarinas nuas perseguindo-se na piscina, a mimarem a atracção sexual da água, estranhas bailadeiras que esparziam aromas que mais entenebreciam, em quebranto, a atmosfera fantástica da sala, apoteoses de corpos nus, amontoados — visões luxuriosas de cores intensas, rodopiantes de espasmos, sinfonias de sedas e veludos que sobre corpos nus volteavam…&lt;br /&gt;Mas todas estas maravilhas — incríveis de perversidade, era certo — nos não excitavam fisicamente em desejos lúbricos e bestiais: antes numa ânsia de alma, esbraseada e, ao mesmo tempo, suave: extraordinária, deliciosa.&lt;br /&gt;Escoava-se por nós uma impressão de excesso.&lt;br /&gt;Entanto os delírios que as almas nos fremiam, não os provocavam unicamente as visões lascivas. De maneira alguma. O que oscilávamos, provinha-nos de uma sensação total idêntica à que experimentamos ouvindo uma partitura sublime executada por uma orquestra de mestres. E os quadros sensuais valiam apenas como um instrumento dessa orquestra. Os outros: as luzes, os perfumes, as cores… Sim, todos esses elementos se fundiam num conjunto admirável que, ampliando-a, nos penetrava a alma, e que só nossa alma sentia em febre de longe, em vibração de abismos. Éramos todos alma.&lt;br /&gt;Desciam-nos só da alma os nossos desejos carnais.&lt;br /&gt;Porém nada valeu em face da última visão:&lt;br /&gt;Raiaram mais densas as luzes, mais agudas e penetrantes, caindo agora, em jorros, do alto da cúpula — e o pano rasgou-se sobre um vago tempo asiático… Ao som de uma música pesada, rouca, longínqua — ela surgiu, a mulher fulva…&lt;br /&gt;E começou dançando…&lt;br /&gt;Envolvia-a uma túnica branca, listada de amarelo. Cabelos soltos, loucamente. Jóias fantásticas nas mãos; e os pés descalços, constelados…&lt;br /&gt;Ai, como exprimir os seus passos silenciosos, húmidos, frios de cristal; o marulhar da sua carne ondeando; o álcool dos seus lábios que, num requinte, ela dourara — toda a harmonia esvaecida nos seus gestos; todo o horizonte difuso que o seu rodopiar suscitava, nevoadamente…Entretanto, ao fundo, numa ara misteriosa, o fogo ateara-se…&lt;br /&gt;Vício a vício a túnica lhe ia resvalando, até que, num êxtase abafado, soçobrou a seus pés… Ah! nesse momento, em face à maravilha que nos varou, ninguém pôde conter um grito de assombro…&lt;br /&gt;Quimérico e nu, o seu corpo subtilizado, erguia-se litúrgico entre mil cintilações irreais. Como os lábios, os bicos dos seios e o sexo estavam dourados — num ouro pálido, doentio. E toda ela serpenteava em misticismo escarlate a querer-se dar ao fogo…Mas o fogo repelia-a… Então, numa última perversidade, de novo tomou os véus e se ocultou, deixando apenas nu o sexo áureo — terrível flor de carne a estrebuchar agonias magentas…&lt;br /&gt;Vencedora, tudo foi lume sobre ela…&lt;br /&gt;E, outra vez desvendada — esbraseada e feroz, saltava agora por entre labaredas, rasgando-as: emaranhando, possuindo, todo o fogo bêbado que a cingia.&lt;br /&gt;Mas finalmente, saciada após estranhas epilepsias, num salto prodigioso, como um meteoro — ruivo meteoro — ela veio tombar no lago que mil lâmpadas ocultas esbatiam de azul cendrado.&lt;br /&gt;Então foi apoteose:&lt;br /&gt;Toda a água azul, ao recebê-la, se volveu vermelha de brasas, encapelada, ardida pela sua carne que o fogo penetrara… E numa ânsia de se extinguir, possessa, a fera nua mergulhou… Mas quanto mais se abismava, mais era lume ao seu redor…&lt;br /&gt;…Até que por fim, num mistério, o fogo se apagou em ouro e, morto, o seu corpo flutuou heráldico sobre as águas douradas — tranquilas, mortas também. A luz normal regressara. Era tempo.&lt;br /&gt;Mulheres debatiam-se em ataques de histerismo; homens, de rostos congestionados, tinham gestos incoerentes…&lt;br /&gt;As portas abriram-se e nós mesmos, perdidos, sem chapéus — encontramo-nos na rua, afogueados, perplexos… O ar fresco da noite, vergastando-nos, fez-nos despertar, e como se chegássemos de um sonho que os três houvéssemos sonhado — olhamo-nos inquietos, num espanto mudo. Sim, a impressão fora tão forte, a maravilha tão alucinadora, que não tivemos ânimo para dizer uma palavra.&lt;br /&gt;Esmagados, aturdidos, cada um de nós voltou para sua casa…&lt;br /&gt;Na tarde seguinte — ao acordar de um sono de onze horas — eu não acreditava já na estranha orgia: A Orgia do Fogo, como Ricardo lhe chamou depois. Sai. Jantei.&lt;br /&gt;Quando entrava no Café Riche, alguém me bateu no ombro:&lt;br /&gt;— Então como passa o meu amigo? Vamos, as suas impressões?&lt;br /&gt;Era Ricardo de Loureiro.&lt;br /&gt;Falámos largamente acerca das extraordinárias coisas que presenciáramos. E o poeta concluiu que tudo aquilo mais lhe parecia hoje uma visão de onanista genial do que a simples realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto à americana fulva, não a tornei a ver. O próprio Gervásio deixou de falar nela. E, como se se tratasse de um mistério de Além a que valesse melhor não aludir — nunca mais nos referimos à noite admirável.&lt;br /&gt;Se a sua lembrança me ficou para sempre gravada, não foi por a ter vivido — mas sim porque, dessa noite, se originava a minha amizade com Ricardo de Loureiro.&lt;br /&gt;Assim sucede com efeito. Referimos certos acontecimentos da nossa vida a outros mais fundamentais — e muitas vezes, em torno de um beijo, circula todo um mundo, toda uma humanidade.&lt;br /&gt;De resto, no caso presente, que podia valer a noite fantástica em face do nosso encontro — desse encontro que marcou o princípio da minha vida? Ah! sem dúvida amizade predestinada aquela que começava num cenário tão estranho, tão perturbador, tão dourado…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 130%;"&gt;2&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Decorrido um mês, eu e Ricardo éramos não só dois companheiros inseparáveis, como também dois amigos íntimos, sinceros, entre os quais não havia mal-entendidos, nem quase já segredos.&lt;br /&gt;O meu convívio com Gervásio Vila-Nova cessara por completo.&lt;br /&gt;Mesmo, passado pouco, ele regressou a Portugal.&lt;br /&gt;Ah! como era bem diferente, bem mais espontânea, mais cariciosa, a intimidade com o meu novo amigo! E como estávamos longe do Gervásio Vila-Nova que, a propósito de coisa alguma, fazia declarações como esta:&lt;br /&gt;— Sabe você, Lúcio, não imagina a pena que eu tenho de que não gostem das minhas obras. (As suas obras eram esculturas sem pés nem cabeça, pois ele só esculpia torsos contorcidos, enclavinhados, monstruosos, onde, porém, de quando em quando, por alguns detalhes, se adivinhava um cinzel admirável.) Mas não pense que é por mim. Eu estou certo do que elas valem. É por eles, coitados, que não podem sentir a sua beleza.&lt;br /&gt;Ou então:&lt;br /&gt;— Creia, meu querido amigo, você faz muito mal em colaborar nessas revistecas lá de baixo… em se apressar tanto a imprimir os seus volumes. O verdadeiro artista deve guardar quanto mais possível o seu inédito. Veja se eu já expus alguma vez… Só compreendo que se publique um livro numa tiragem reduzida; e a 100 francos o exemplar, como fez o… (e citava o nome do russo chefe dos selvagens). Ah! eu abomino a publicidade!…&lt;br /&gt;As minhas conversas com Ricardo — pormenor interessante — foram logo, desde o início, bem mais conversas de alma, do que simples conversas de intelectuais.&lt;br /&gt;Pela primeira vez eu encontrara efectivamente alguém que sabia descer um pouco aos recantos ignorados do meu espírito — os mais sensíveis, os mais dolorosos para mim. E com ele o mesmo acontecera — havia de mo contar mais tarde.&lt;br /&gt;Não éramos felizes — oh! não As nossas vidas passavam torturadas de ânsias, e incompreensões, de agonias de sombra…&lt;br /&gt;Subíramos mais alto: delirávamos sobre a vida. Podíamo-nos embriagar de orgulho, se quiséssemos — mas sofríamos tanto… tanto… O nosso único refúgio era nas nossas obras.&lt;br /&gt;Pintando-me a sua angústia, Ricardo de Loureiro fazia perturbadoras confidências, tinha imagens estranhas.&lt;br /&gt;— Ah! meu caro Lúcio, acredite me! Nada me encanta já; tudo me aborrece, me nauseia. Os meus próprios raros entusiasmos, se me lembro deles, logo se me esvaem — pois, ao medi-los, encontro os tão mesquinhos, tão de pacotilha… Quer saber? Outrora, à noite, no meu leito, antes de dormir, eu punha-me a divagar. E era feliz por momentos, entressonhando a glória, o amor, os êxtases… Mas hoje já não sei com que sonhos me robustecer.&lt;br /&gt;Acastelei os maiores… eles próprios me fartaram: são sempre os mesmos — e é impossível achar outros… Depois, não me saciam apenas as coisas que possuo — aborrecem-me também as que não tenho, porque, na vida como nos sonhos, são sempre as mesmas. De resto, se às vezes posso sofrer por não possuir certas coisas que ainda não conheço inteiramente, a verdade é que, descendo-me melhor, logo averiguo isto: Meu Deus, se as tivera, ainda maior seria a minha dor, o meu tédio. De forma que gastar tempo é hoje o único fim da minha existência deserta. Se viajo, se escrevo — se vivo, numa palavra, creia-me: é só para consumir instantes. Mas dentro em pouco — já o pressinto — isto mesmo me saciará. E que fazer então? Não sei… não sei… Ah! Que amargura infinita…&lt;br /&gt;Eu punha-me a animá-lo; a dizer-lhe inferiormente que urgia pôr de parte essas ideias abatidas. Um belo futuro se alastrava em sua face. Era preciso ter coragem!&lt;br /&gt;— Um belo futuro? Olhe, meu amigo, até hoje ainda me não vi no meu futuro. E as coisas em que me não vejo, nunca me sucederam.&lt;br /&gt;Perante tal resposta, esbocei uma interrogação muda, a que o poeta volveu:&lt;br /&gt;— Ah! sim, talvez não compreendesse… Ainda lhe não expliquei.&lt;br /&gt;Ouça: Desde criança que, pensando em certas situações possíveis numa existência, eu, antecipadamente, me vejo ou não vejo nelas. Por exemplo: uma coisa onde nunca me vi, foi na vida — e diga-me se na realidade nos encontramos nela? Mas descendo a pequenos detalhes:&lt;br /&gt;"A minha imaginação infantil sonhava, romanescamente construía mil aventuras amorosas, que aliás todos vivem. Pois bem: nunca me vi ao fantasiá-las, como existindo-as mais tarde. E até hoje eu sou aquele que em nenhum desses episódios gentis se encontrou. Não porque lhes fugisse…&lt;br /&gt;Nunca fugi de coisa alguma.&lt;br /&gt;"Entretanto, na minha vida, houve certa situação esquisita, mesmo um pouco torpe. Ora eu lembrava-me muita vez de que essa triste aventura havia de ter um fim. E sabia de um muito natural. Nesse, contudo, nunca eu me figurava. Mas noutro qualquer. Outro qualquer, porém, só podia dar-se por meu intermédio. E por meu intermédio — era bem claro — não se podia, não se devia dar. Passou-se tempo… Escuso de lhe dizer que foi justamente a "impossibilidade" que se realizou…&lt;br /&gt;"Era um estudante distinto, e nunca me antevisionava com o meu curso concluído. Efectivamente um belo dia, de súbito, sem razão, deixei a universidade. Fugi para Paris…&lt;br /&gt;"Dentro da vida prática também nunca me figurei. Até hoje, aos vinte e sete anos, não consegui ainda ganhar dinheiro pelo meu trabalho.&lt;br /&gt;Felizmente não preciso… E nem mesmo cheguei a entrar nunca na vida, na simples Vida com V grande — na vida social, se prefere. É curioso: sou um isolado que conhece meio mundo, um desclassificado que não tem uma dúvida, uma nódoa — que todos consideram, e que entretanto em parte alguma é admitido… Está certo. Com efeito, nunca me vi "admitido” em parte alguma. Nos próprios meios onde me tenho embrenhado, não sei por que senti me sempre um estranho…&lt;br /&gt;"E é terrível: martiriza-me por vezes este meu condão. Assim, se eu não vejo erguida certa obra cujo plano me entusiasma, é seguro que a não consigo lançar, e que depressa me desencanto da sua ideia — embora, no fundo, a considere admirável.&lt;br /&gt;"Enfim, para me entender melhor: esta sensação é semelhante, ainda que de sentido contrário, a uma outra em que provavelmente ouviu falar&lt;br /&gt;— que talvez mesmo conheça —, a do já visto. Nunca lhe sucedeu ter visitado pela primeira vez uma terra, um cenário, e — numa reminiscência longínqua, vaga, perturbante — chegar-lhe a lembrança de que, não sabe quando nem onde, já esteve naquela terra, já contemplou aquele cenário?&lt;br /&gt;"É possível que o meu amigo não atinja o que há de comum entre estas duas ideias. Não lhe sei explicar — contudo pressinto, tenho a certeza, que essa relação existe.&lt;br /&gt;Respondi divagando, e o poeta acrescentou:&lt;br /&gt;— Mas ainda lhe não disse o mais estranho. Sabe? É que de maneira alguma me concebo na minha velhice, bem como de nenhuma forma me vejo doente, agonizante. Nem sequer suicidado — segundo às vezes me procuro iludir. E creia, é tão grande a minha confiança nesta superstição que — juro-lhe — se não fosse haver a certeza absoluta de que todos morremos, eu, não me “vendo" morto, não acreditaria na minha morte…&lt;br /&gt;Sorri da boutade.&lt;br /&gt;Vagos conhecidos entravam no café onde tínhamos abancado.&lt;br /&gt;Sentaram-se junto de nós e, banal e fácil, a conversa deslizou noutro plano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras vezes também, Ricardo surgia-me com revelações estrambóticas que lembravam um pouco os snobismos de Vila-Nova. Porém, nele, eu sabia que tudo isso era verdadeiro, sentido. Quando muito, sentido já como literatura. Efectivamente o poeta explicara-me, Uma noite:&lt;br /&gt;— Garanto-lhe, meu amigo, todas as ideias que lhe surjam nas minhas obras, por mais bizarras, mais impossíveis — são, pelo menos em parte, sinceras. Isto é: traduzem emoções que na realidade senti; pensamentos que na realidade me ocorreram sobre quaisquer detalhes da minha psicologia. Apenas o que pode suceder é que, quando elas nascem, já venham literalizadas…&lt;br /&gt;Mas voltando às suas revelações estrambóticas:&lt;br /&gt;Como gostássemos, em muitas horas, de nos embrenhar pela vida normal e nos esquecer a nós próprios — frequentávamos bastante os teatros e os music-halls, numa ânsia também de sermos agitados por esses meios intensamente contemporâneos, europeus e luxuosos.&lt;br /&gt;Assim uma vez, no Olímpia, assistíamos a umas danças de girls inglesas misturadas numa revista, quando Ricardo me perguntou:&lt;br /&gt;— Diga-me, Lúcio, você não é sujeito a certos medos inexplicáveis, destrambelhados?&lt;br /&gt;Que não, só se muito vagamente — volvi.&lt;br /&gt;— Pois comigo — tornou o artista — não acontece o mesmo. Enfim, quer saber? Tenho medo destas dançarinas.&lt;br /&gt;Soltei uma gargalhada.&lt;br /&gt;Ricardo prosseguiu:&lt;br /&gt;— É que, não sei se reparou, em todos os music-halls tornaram-se agora moda estes bailados por ranchos de raparigas inglesas. Ora essas criaturinhas são todas iguais, sempre — vestidas dos mesmos fatos, com as mesmas pernas nuas, as mesmas feições ténues, o mesmo ar gentil. De maneira que eu em vão me esforço por considerar cada uma delas como uma individualidade. Não lhes sei atribuir uma vida — um amante, um passado; certos hábitos, certas maneiras de ser. Não as posso destrinçar do seu conjunto daí, o meu pavor. Não estou pousando, meu amigo, asseguro-lhe.&lt;br /&gt;"Mas não são estes só os meus medos Tenho muitos outros. Por exemplo o horror dos arcos — de alguns arcos triunfais e, sobretudo, de alguns velhos arcos de ruas. Não propriamente dos arcos — antes do espaço aéreo que eles enquadram. E lembro-me de haver experimentado uma sensação misteriosa de pavor, ao descobrir no fim de uma rua solitária de não sei que capital um pequeno arco ou, melhor, uma porta aberta sobre o infinito. Digo bem — sobre o infinito. Com efeito a rua subia e para lá do monumento começava, sem dúvida, a descer. De modo que, de longe, só se via horizonte através desse arco. Confesso-lhe que me detive alguns minutos olhando-o fascinado. Assaltou-me um forte desejo de subir a rua até ao fim e averiguar para onde ele deitava. Mas a coragem faltou-me. Fugi apavorado. E veja, a sensação foi tão violenta, que nem sei já em que triste cidade a oscilei…&lt;br /&gt;"Quando era pequeno — ora, ainda hoje! — apavoravam-me as ogivas das catedrais, as abóbadas, as sombras de altas colunas, os obeliscos, as grandes escadarias de mármore… De resto, toda a minha vida psicológica tem sido até agora a projecção dos meus pensamentos infantis — ampliados, modificados; mas sempre no mesmo sentido, na mesma ordem: apenas em outros planos.&lt;br /&gt;"E por último, ainda a respeito de medos: Assim como me assustam alguns espaços vazios emoldurados por arcos — também me inquieta o céu das ruas, estreitas e de prédios altos, que de súbito se partem em curvas apertadas.&lt;br /&gt;O seu espírito estava seguramente predisposto para a bizarria, essa noite, pois ainda me fez estas esquisitas declarações à saída do teatro:&lt;br /&gt;— Meu caro Lúcio, vai ficar muito admirado, mas garanto-lhe que não foi tempo perdido o que passei ouvindo essa revista chocha. Achei a razão fundamental do meu sofrimento. Você recorda-se de uma capoeira de galinhas que apareceu em cena? As pobres aves queriam dormir. Metiam os bicos debaixo das asas, mas logo acordavam assustadas pelos jorros dos projectores que iluminavam as “estrelas”, pelos saltos do compadre… Pois como esses pobres bichos, também a minha alma anda estremunhada — descobri em frente deles. Sim, a minha alma quer dormir e, minuto a minuto, a vêm despertar jorros de luz, estrepitosas vozearias: grandes ânsias, ideias abrasadas, tumultos de aspirações — áureos sonhos, cinzentas realidades…&lt;br /&gt;Sofreria menos se ela nunca pudesse adormecer. Com efeito, o que mais me exacerba esta tortura infernal é que, em verdade, a minha alma chega muitas vezes a pegar no sono, a fechar os olhos — perdoe a frase estrambótica. Mal os cerra, porém, logo a zurzem — e de novo acorda perdida numa agonia estonteada…&lt;br /&gt;Mais tarde, relembrando-me esta constatação, ajuntara:&lt;br /&gt;— O meu sofrimento mora, ainda que sem razões, tem aumentado tanto, tanto, estes últimos dias, que eu hoje sinto a minha alma fisicamente. Ah! é horrível! A minha alma não se angustia apenas, a minha alma sangra. As dores morais transformam-se-me em verdadeiras dores físicas, em dores horríveis, que eu sinto materialmente não no meu corpo, mas no meu espírito.&lt;br /&gt;É muito difícil, concordo, fazer compreender isto a alguém. Entretanto, acredite-me; juro lhe que é assim. Eis pelo que eu lhe dizia a outra noite que tinha a minha alma estremunhada. Sim, a minha pobre alma anda morta de sono, e não a deixam dormir — tem frio, e não sei aquecer! Endureceu-me toda, toda! secou, anquilosou-se-me; de forma que movê-la — isto é pensar — me faz hoje sofrer terríveis dores. E quanto mais a alma me endurece, mais eu tenho ânsia de pensar! Um turbilhão de ideias — loucas ideias! — me silva a desconjuntá-la, a arrepanhá-la, a rasgá-la, num martírio alucinante! Até que um dia — oh! é fatal — ela se me partirá — voará em estilhaços. A minha pobre alma! a minha pobre alma!…&lt;br /&gt;Em tais ocasiões os olhos de Ricardo cobriam-se de um véu de luz.&lt;br /&gt;Não brilhavam: cobriam-se de um véu de luz. Era muito estranho, mas era assim.&lt;br /&gt;Divagando ainda sobre as dores físicas do seu espírito; num tom de blague que raramente tomava, o poeta desfechou-me uma tarde, de súbito:&lt;br /&gt;— Tenho às vezes tanta inveja das minhas pernas… Porque uma perna não sofre. Não tem alma, meu amigo, não tem alma!&lt;br /&gt;Largas horas, solitário, eu meditava nas singularidades do artista, a querer concluir alguma coisa. Mas o certo é que nunca soube descer uma psicologia, de maneira que chegava só a esta conclusão: ele era uma criatura superior — genial, perturbante. Hoje mesmo, volvidos longos anos, é essa a minha única certeza, e eis pelo que eu me limito a contar, sem ordem — à medida que me vão recordando — os detalhes mais característicos da sua psicologia, como meros documentos na minha justificação.&lt;br /&gt;Factos, apenas factos — avisei logo de princípio.&lt;br /&gt;Compreendiam-se perfeitamente as nossas almas — tanto quanto duas almas se podem compreender. E, todavia, éramos duas criaturas muito diversas. Raros traços comuns entre os nossos caracteres. Mesmo, a bem dizer, só numa coisa iguais: no nosso amor por Paris.&lt;br /&gt;— Paris! Paris! — exclamava o poeta — Por que o amo eu tanto? Não&lt;br /&gt;Sei. Basta lembrar-me que existo na capital latina, para uma onda de orgulho, de júbilo e ascensão se encapelar dentro de mim. É o único ópio louro para a minha dor — Paris!&lt;br /&gt;"Como eu amo as suas ruas, as suas praças, as suas avenidas! Ao recordá-las longe delas — em miragem nimbada, todas me surgem num&lt;br /&gt;resvalamento arqueado que me traspassa em luz. E o meu próprio corpo, que elas vararam, as acompanha no seu rodopio.&lt;br /&gt;"De Paris, amo tudo com igual amor: os seus monumentos, os seus teatros, os seus boulevares, os seus jardins, as suas árvores… Tudo nele me é heráldico, me é litúrgico.&lt;br /&gt;"Ah, o que eu sofri um ano que passei longe da minha Cidade, sem esperanças de me tornar a envolver nela tão cedo… E a minha saudade foi então a mesma que se tem pelo corpo de uma amante perdida…&lt;br /&gt;"As ruas tristonhas da Lisboa do sul, descia-as às tardes magoadas rezando o seu nome: O meu Paris… o meu Paris…&lt;br /&gt;"E à noite, num grande leito deserto, antes de adormecer, eu recordava-o — sim, recordava-o — como se recorda a carne nua de uma amante dourada!&lt;br /&gt;"Quando depois regressei à capital assombrosa, a minha ânsia foi logo de a percorrer em todas as avenidas, em todos os bairros, para melhor a entrelaçar comigo, para melhor a delirar… O meu Paris! o meu Paris!…&lt;br /&gt;"Entretanto, Lúcio, não creia que eu ame esta grande terra pelos seus bulevares, pelos seus cafés, pelas suas actrizes, pelos seus monumentos.&lt;br /&gt;Não! Não! Seria mesquinho. Amo-a por qualquer outra coisa: por uma auréola, talvez, que a envolve e a constitui em alma — mas que eu não vejo; que eu sinto, que eu realmente sinto, e lhe não sei explicar!&lt;br /&gt;"Só posso viver nos grandes meios. Quero tanto ao progresso, à civilização, ao movimento citadino, à actividade febril contemporânea!", Porque, no fundo, eu amo muito a vida. Sou todo de incoerências. Vivo desolado, abatido, parado de energia, e admiro a vida, entanto como nunca ninguém a admirou!&lt;br /&gt;"Europa! Europa! Encapela-te dentro de mim, alastra-me da tua vibração, unge-me da minha época!&lt;br /&gt;"Lançar pontes! lançar pontes! silvar estradas férreas! erguer torres de aço!...&lt;br /&gt;E o seu delírio prosseguia através de imagens bizarras, destrambelhadas ideias. — Sim! Sim! Todo eu sou uma incoerência! O meu próprio corpo é uma incoerência. Julga-me magro, corcovado? Sou-o; porém muito menos do que pareço. Admirar-se-ia se me visse nu…"Mas há mais.&lt;br /&gt;Toda a gente me crê um homem misterioso. Pois eu não vivo, não tenho amantes… desapareço… ninguém sabe de mim… Engano! Engano! A minha vida é pelo contrário uma vida sem segredo. Ou melhor, o seu segredo consiste justamente em não o ter.&lt;br /&gt;"E a minha vida, livre de estranhezas, é no entanto uma vida bizarra&lt;br /&gt;— mas de uma bizarria às avessas. Com efeito a sua singularidade encerra-se, não em conter elementos que se não encontram nas vidas normais — mas sim em não conter nenhum dos elementos comuns a todas as vidas. Eis pelo que nunca me sucedeu coisa alguma. Nem mesmo o que sucede a toda a gente.&lt;br /&gt;Compreende-me?&lt;br /&gt;Eu compreendia sempre. E ele fazia-me essa justiça. Por isso as nossas conversas de alma se prolongavam em geral até de manhã; passeando nas ruas desertas, sem sentirmos frio nem cansaço, numa intoxicação mútua e arruivada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em horas mais tranquilas, Ricardo punha-se-me a falar da suavidade da vida normal. E confessava-me:&lt;br /&gt;— Ah, quantas vezes isolado em grupos de conhecidos banais, eu não invejei os meus camaradas… Lembro-me tanto de certo jantar no Leão de Ouro… numa noite chuvosa de Dezembro… Acompanhavam-me dois actores e um dramaturgo. Sabe? O Roberto Dávila, o Carlos Mota, o Álvares Sesimbra…&lt;br /&gt;Eu diligenciara, num esforço, descer até eles. Por último, consegui iludir-me.&lt;br /&gt;Fui feliz, instantes, creia… E o Carlos Mota pedia a minha colaboração para uma das suas operetas… Carlos Mota, o autor da Videirinha, o grande sucesso da Trindade… Bons rapazes! bons rapazes… Ai, não ser como eles…&lt;br /&gt;"Porque afinal essa sua vida — 'a vida de todos os dias' — é a única que eu amo. Simplesmente não a posso existir… E orgulho-me tanto de não a poder viver... orgulho-me tanto de não ser feliz… Cá estamos: a maldita literatura…&lt;br /&gt;E, depois de uma breve pausa:&lt;br /&gt;— Noutros tempos, em Lisboa, um meu companheiro íntimo, hoje já morto, alma ampla e intensa de artista requintado — admirava-se de me ver acamaradar com certas criaturas inferiores. É que essas andavam na vida, e eu aprazia-me com elas numa ilusão. As minhas eternas incoerências! Vocês, os verdadeiros artistas, as verdadeiras grandes almas — eu sei — nunca saem, nem pretendem sair, do vosso círculo de ouro — nunca lhes vêm desejos de baixar à vida. É essa a vossa dignidade. E fazem bem. São muito mais felizes… Pois eu sofro duplamente, porque vivo no mesmo círculo dourado e, entretanto, sei-me agitar cá em baixo…&lt;br /&gt;— Ao contrário, eis pelo que você é maior — comentava eu, — Esses a quem se refere, se não ousam descer, é por adivinharem que, se se misturassem à existência quotidiana, ela os absorveria, soçobrando o seu génio de envolta com a banalidade. São fracos. E esse pressentimento instintivamente os salva. Enquanto que o meu amigo pode arriscar o seu génio por entre medíocres. É tão grande que nada o sujará.&lt;br /&gt;— Quimera! Quimera! — volvia o poeta. — Sei lá o que sou… Em todo o caso, olhe que é lamentável a banalidade dos outros… Como a "maioria" se contenta com poucas ânsias, poucos desejos espirituais, pouca alma… Oh! é desolador!… Um drama de Jorge Ohnet, um romance de Bourget, uma ópera de Verdi, uns versos de João de Deus ou um poema de Tomás Ribeiro — chegam bem para encher o seu ideal. Que digo? Isto mesmo são já requintes de almas superiores. As outras — as verdadeiramente normais — ora… ora… deixemo-nos de devaneios, contentam-se com as obscenidades lantejouladas de qualquer baixo-revisteiro sem gramática…&lt;br /&gt;"A maioria, meu caro, a maioria… os felizes… E daí, quem sabe se eles é que têm razão… se tudo o mais será frioleira…&lt;br /&gt;"Em suma… em suma…&lt;br /&gt;Correram meses, seguindo sempre entre nós o mesmo afecto, a mesma camaradagem.&lt;br /&gt;Uma tarde de domingo — recordo-me tão bem — íamos em banalidade Avenida dos Campos Elísios acima, misturados na multidão, quando a sua conversa resvalou para um campo, que até aí o poeta nunca atacara, positivamente:&lt;br /&gt;— Ah! como se respira vida, vida intensa e sadia, nestes domingos de Paris, nestes maravilhosos domingos!… É a vida simples, a vida útil, que se escoa em nossa face. Horas que nos não pertencem — etéreos sonhadores de beleza, roçados de Além, ungidos de Vago… Orgulho! Orgulho! E entanto como valera mais se fôssemos da gente média que nos rodeia. Teríamos, pelo menos de espírito, a suavidade e a paz. Assim temos só a luz. Mas a luz cega os olhos… Somos todos álcool, todos álcool! — álcool que nos esvai em lume que nos arde!&lt;br /&gt;"E é pela agitação desta cidade imensa, por esta vida actual, quotidiana, que eu amo o meu Paris numa ternura loura. Sim! Sim! Digo bem, numa ternura — uma ternura ilimitada. Eu não sei ter afectos. Os meus amores foram sempre ternuras… Nunca poderia amar uma mulher pela alma — isto é: por ela própria. Só a adoraria pelos enternecimentos que a sua gentileza me despertasse: pelos seus dedos trigueiros a apertarem os meus numa tarde de sol, pelo timbre subtil da sua voz, pelos seus rubores — e as suas gargalhadas… as suas correrias…&lt;br /&gt;"Para mim, o que pode haver de sensível no amor é uma saia branca a sacudir o ar, um laço de cetim que mãos esguias enastram, uma cintura que se verga, uma madeixa perdida que o vento desfez, uma canção ciciada em lábios de ouro e de vinte anos, a flor que a boca de uma mulher trincou…&lt;br /&gt;"Não, nem é sequer a formosura que me impressiona. É outra coisa mais vaga — imponderável, translúcida: a gentileza. Ai, e como eu a vou descobrir em tudo, em tudo — a gentileza… Daí, uma ânsia estonteada, uma ânsia sexual de possuir vozes, gestos, sorrisos, aromas e cores!...&lt;br /&gt;"…Lume doido! Lume doido!… Devastação! Devastação!…&lt;br /&gt;Mas logo, serenando:&lt;br /&gt;— A boa gente que aí vai, meu querido amigo, nunca teve destas complicações. Vive. Nem pensa… Só eu não deixo de pensar… O meu mundo interior ampliou-se — volveu-se infinito, e hora a hora se excede! É horrível.&lt;br /&gt;Ah! Lúcio, Lúcio! tenho medo — medo de soçobrar, de me extinguir no meu mundo interior, de desaparecer da vida, perdido nele…&lt;br /&gt;"…E aí tem o assunto para uma das suas novelas: um homem que, à força de se concentrar, desaparecesse da vida — imigrado no seu mundo interior…&lt;br /&gt;"Não lhe digo eu? A maldita literatura…&lt;br /&gt;Sem motivos nenhuns, livre de todas as preocupações, sentia-me entanto esquisitamente disposto, essa tarde. Um calafrio me arrepiava toda a carne — o calafrio que sempre me varara nas horas culminantes da minha vida.&lt;br /&gt;E Ricardo, de novo, apontando-me uma soberba vitória que dois esplêndidos cavalos negros tiravam:&lt;br /&gt;— Ah! como eu me trocaria pela mulher linda que ali vai… Ser belo! ser belo!… ir na vida fulvamente… ser pajem na vida… Haverá triunfo mais alto?…&lt;br /&gt;"A maior glória da minha existência não foi — ah! Não julgue que foi — qualquer elogio sobre os meus poemas, sobre o meu génio. Não. Foi isto só: eu lhe conto:&lt;br /&gt;"Uma tarde de Abril, há três anos, caminhava nos grandes boulevares, solitário como sempre. De súbito, uma gargalhada soou perto de mim…&lt;br /&gt;Tocaram-me no ombro… Não dei atenção… Mas logo a seguir me puxaram por um braço, garotamente, com o cabo de uma sombrinha… Voltei-me… Eram duas raparigas… duas raparigas gentis, risonhas… Àquela hora, duas costureiras — decerto — saídas dos ateliers da Rua da Paz. Tinham embrulhos nas mãos…&lt;br /&gt;"E uma delas, a mais audaciosa:&lt;br /&gt;"— Sabe que é um lindo rapaz?&lt;br /&gt;"Protestei… E fomos andando juntos, trocando palavras banais…&lt;br /&gt;(Acredite que meço muito bem todo o ridículo desta confidência.)&lt;br /&gt;"À esquina do Faubourg Poissonnière, despedi-me: devia-me encontrar com um amigo — garanti. Efectivamente. Num desejo de perversidade, eu resolvera pôr termo à aventura. Talvez receoso de que, se ela se prolongasse, me desiludisse. Não sei…&lt;br /&gt;"Separamo-nos…&lt;br /&gt;"Essa tarde foi a mais bela recordação da minha vida!…&lt;br /&gt;"Meu Deus! Meu Deus! Como em vez deste corpo dobrado, este rosto contorcido — eu quisera ser belo, esplendidamente belo! E, nessa tarde, fui-o por instantes, acredito… É que vinha de escrever alguns dos meus melhores versos.&lt;br /&gt;"Sentia-me orgulhoso, admirável… E a tarde era azul, o boulevar ia lindíssimo… Depois, tinha um chapéu petulante… ondeava-se-me na testa uma madeixa juvenil…&lt;br /&gt;"Ah! como vivi semanas, semanas, da pobre saudade… que ternura infinita me desceu para essa rapariguinha que nunca mais encontrei — que nunca mais poderia encontrar porque, na minha alegria envaidecida, nem sequer me lembrara de ver o seu rosto… Como lhe quero… Como lhe quero… Como a abençoo… Meu amor! meu amor!…&lt;br /&gt;E, numa transfiguração — todo aureolado pelo brilho intenso, melodioso, dos seus olhos portugueses —, Ricardo de Loureiro erguia-se realmente belo, esse instante…&lt;br /&gt;Aliás, ainda hoje ignoro se o meu amigo era ou não era formoso.&lt;br /&gt;Todo de incoerências, também a sua fisionomia era uma incoerência: Por vezes o seu rosto esguio, macerado — se o víamos de frente, parecia-nos radioso. Mas de perfil já não sucedia o mesmo… Contudo, nem sempre: o seu perfil, por vezes, também era agradável… sob certas luzes… em certos espelhos…&lt;br /&gt;Entretanto, o que mais o prejudicava era sem dúvida o seu corpo que ele desprezava, deixando-o "cair de si", segundo a frase extravagante, mas muito própria, de Gervásio Vila-Nova.&lt;br /&gt;Os retratos que existem hoje do poeta, mostram-no belíssimo, numa auréola de génio. Simplesmente, não era essa a expressão do seu rosto.&lt;br /&gt;Sabendo tratar-se de um grande artista, os fotógrafos e os pintores ungiram-lhe a fronte de uma expressão nimbada que lhe não pertencia. Convém desconfiar sempre dos retratos dos grandes homens…&lt;br /&gt;— Ah! meu querido Lúcio — tornou ainda o poeta —, como eu sinto a vitória de uma mulher admirável, estiraçada sobre um leito de rendas, olhando a sua carne toda nua… esplêndida… loura de álcool! A carne feminina — que apoteose! Se eu fosse mulher, nunca me deixaria possuir pela carne dos homens — tristonha, seca, amarela: sem brilho e sem luz… Sim! Num entusiasmo espasmódico, sou todo admiração, todo ternura, pelas grandes debochadas que só emaranham os corpos de mármore com outros iguais aos seus — femininos também; arruivados, sumptuosos. E lembra-me então um desejo perdido de ser mulher — ao menos, para isto: para que, num encantamento, pudesse olhar as minhas pernas nuas, muito brancas, a escoarem-se, frias, sob um lençol de linho…&lt;br /&gt;Entanto, eu admirava-me do rumo que a conversa tomara. Com efeito, se a obra de Ricardo de Loureiro era cheia de sensualismo, de loucas perversidades — nas suas conversas nada disso surgia. Pelo contrário. Às suas palavras nunca se misturava uma nota sensual — ou simplesmente amorosa — e detinham-no logo súbitos pudores se, por acaso, de longe se referia a qualquer detalhe dessa natureza.&lt;br /&gt;Quanto à vida sexual do meu amigo, ignorava-a por completo. Sob esse ponto de vista, Ricardo afigurava-se-me, porém, uma criatura tranquila.&lt;br /&gt;Talvez me enganasse… Enganava-me com certeza. E a prova — ai, a prova! — tive-a essa noite pela mais estranha confissão — a mais perturbadora, a mais densa…&lt;br /&gt;Eram sete e meia. Havíamos subido todos os Campos Elísios e a&lt;br /&gt;Avenida do Bosque até à Porta Maillot. O artista decidiu que jantássemos no Pavilhão de Armenonville — ideia que eu aplaudi do melhor grado.&lt;br /&gt;Tive sempre muito afecto ao célebre restaurante. Não sei… O seu cenário literário (porque o lemos em novelas), a grande sala de tapete vermelho e, ao fundo, a escadaria; as árvores românticas que exteriormente o ensombram, o pequeno lago — tudo isso, naquela atmosfera de grande vida, me evocava por uma saudade longínqua, subtil, bruxuleante, a recordação astral de certa aventura amorosa que eu nunca vivera. Luar de Outono, folhas secas, beijos e champanhe…&lt;br /&gt;Correu simples a nossa conversa durante a refeição. Foi só ao café que Ricardo principiou:&lt;br /&gt;— Não pode imaginar, Lúcio, como a sua intimidade me encanta, como eu bendigo a hora em que nos encontramos. Antes de o conhecer, não lidara senão com indiferentes — criaturas vulgares que nunca me compreenderam, muito pouco que fosse. Meus pais adoravam-me. Mas, por isso exactamente, ainda menos me compreendiam, Enquanto que o meu amigo é uma alma rasgada, ampla, que tem a lucidez necessária para entrever a minha. É já muito. Desejaria que fosse mais; mas é já muito. Por isso hoje eu vou ter a coragem de confessar, pela primeira vez a alguém, a maior estranheza do meu espírito, a maior dor da minha vida…&lt;br /&gt;Deteve-se um instante e, de súbito, em outro tom:&lt;br /&gt;— É isto só: — disse — não posso ser amigo de ninguém… Não proteste… Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afectos — já lhe contei —, apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um desejo de beijar… de estreitar… Enfim: de possuir! Ora eu, só depois de satisfazer os meus desejos, posso realmente sentir aquilo que os provocou. A verdade, por consequência, é que as minhas próprias ternuras, nunca as senti, apenas as adivinhei. Para as sentir, isto é, para ser amigo de alguém (visto que em mim a ternura equivale à amizade) forçoso me seria antes possuir quem eu estimasse, ou mulher ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo, não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.&lt;br /&gt;"Ah! a minha dor é enorme: Todos podem ter amizades, que são o amparo de uma vida, a "razão" de uma existência inteira — amizades que nos dedicam; amizades que, sinceramente, nós retribuímos. Enquanto que eu, por mais que me esforce, nunca poderei retribuir nenhum afecto: os afectos não se materializam dentro de mim! É como se me faltasse um sentido — se fosse cego, se fosse surdo. Para mim, cerrou-se um mundo de alma. Há qualquer coisa que eu vejo, e não posso abranger; qualquer coisa que eu apalpo, e não posso sentir… Sou um desgraçado… um grande desgraçado, acredite!&lt;br /&gt;"Em certos momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrível! Em face de todas as pessoas que eu sei que deveria estimar — em face de todas as pessoas por quem adivinho ternuras — assalta-me sempre um desejo violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ânsia de beijar os lábios de minha mãe…&lt;br /&gt;"Entretanto estes desejos materiais — ainda lhe não disse tudo — não julgue que os sinto na minha carne; sinto-os na minha alma. Só com a minha alma poderia matar as minhas ânsias enternecidas. Só com a minha alma eu lograria possuir as criaturas que adivinho estimar — e assim satisfazer, isto é, retribuir sentindo as minhas amizades.&lt;br /&gt;"Eis tudo…&lt;br /&gt;"Não me diga nada… não me diga nada!… Tenha dó de mim… muita&lt;br /&gt;dó…&lt;br /&gt;Calei-me. Pelo meu cérebro ia um vendaval desfeito. Eu era alguém a cujos pés, sobre uma estrada lisa, cheia de sol e árvores, se cavasse de súbito um abismo de fogo.&lt;br /&gt;Mas, após instantes, muito naturalmente, o poeta exclamou:&lt;br /&gt;— Bem… Já vai sendo tempo de nos irmos embora.&lt;br /&gt;E pediu a conta.&lt;br /&gt;Tomamos um fiacre.&lt;br /&gt;Pelo caminho, ao atravessarmos não sei que praça, chegaram-nos ao ouvido os sons de um violino de cego, estropiando uma linda ária. E Ricardo comentou:&lt;br /&gt;— Ouve esta música? É a expressão da minha vida: uma partitura admirável, estragada por um horrível, por um infame executante…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 130%;"&gt;3&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia seguinte, de novo nos encontramos, como sempre, mas não aludimos à estranha conversa da véspera. Nem no dia seguinte, nem nunca mais… até ao desenlace da minha vida…&lt;br /&gt;Entretanto, a perturbadora confidência do artista não se me varrera da memória. Pelo contrário — dia algum eu deixava de a relembrar, inquieto, quase numa obsessão.&lt;br /&gt;Sem incidentes notáveis — na mesma harmonia, no mesmo convívio de alma — a nossa amizade foi prosseguindo, foi-se estreitando. Após dez meses, nos fins de 1896, embora o seu grande amor por Paris, Ricardo resolveu regressar a Portugal — a Lisboa, onde em realidade coisa alguma o devia chamar.&lt;br /&gt;Estivemos um ano separados.&lt;br /&gt;Durante ele, a nossa correspondência foi nula: três cartas minhas; duas do poeta — quando muito.&lt;br /&gt;Circunstâncias materiais e as saudades do meu amigo levaram-me a sair de Paris, definitivamente, por meu turno. E em Dezembro de noventa e sete chegava a Lisboa.&lt;br /&gt;Ricardo esperava-me na estação.&lt;br /&gt;Mas como o seu aspecto físico mudara nesse ano que estivéramos sem nos ver!&lt;br /&gt;As suas feições bruscas haviam-se amenizado, acetinado — feminilizado, eis a verdade — e, detalhe que mais me impressionou, a cor dos seus cabelos esbatera-se também. Era mesmo talvez desta última alteração que provinha, fundamentalmente, a diferença que eu notava na fisionomia do meu amigo — fisionomia que se tinha difundido, Sim, porque fora esta a minha impressão total: os seus traços fisionómicos haviam-se dispersado — eram hoje menores.&lt;br /&gt;E o tom da sua voz alterara-se identicamente, e os seus gestos: todo ele, enfim, se esbatera.&lt;br /&gt;Eu sabia já, é claro, que o poeta se casara há pouco, durante a minha ausência. Ele escrevera-mo na sua primeira carta; mas sem juntar pormenores, muito brumosamente — como se se tratasse de uma irrealidade.&lt;br /&gt;Pelo meu lado, respondera com vagos cumprimentos, sem pedir detalhes, sem estranhar muito o facto — também como se se tratasse de uma irrealidade; de qualquer coisa que eu já soubesse, que fosse um desenlace.&lt;br /&gt;Abraçamo-nos com efusão. O artista acompanhou-me ao hotel, ficando assente que nessa mesma tarde eu jantaria em sua casa.&lt;br /&gt;De sua mulher, nem uma palavra… Lembro-me bem da minha perturbação quando, ao chegarmos ao meu hotel, reparei que ainda lhe não perguntara por ela. E essa perturbação foi tão forte, que ainda menos ousei balbuciar uma palavra a seu respeito, num enleio em verdade inexplicável…&lt;br /&gt;Cheguei. Um criado estilizado conduziu-me a uma grande sala escura, pesada, ainda que jorros de luz a iluminassem. Ao entrar, com efeito, nessa sala resplandecente, eu tive a mesma sensação que sofremos se, vindos do sol, penetramos numa casa imersa em penumbra.&lt;br /&gt;Fui pouco a pouco distinguindo os objectos… E, de súbito, sem saber como, num rodopio nevoento, encontrei-me sentado em um sofá, conversando com o poeta e a sua companheira…&lt;br /&gt;Sim. Ainda hoje me é impossível dizer se, quando entrei no salão, já lá estava alguém, ou se foi só após instantes que os dois apareceram. Da mesma forma, nunca pude lembrar-me das primeiras palavras que troquei com Marta — era este o nome da esposa de Ricardo.&lt;br /&gt;Enfim, eu entrara naquela sala tal como se, ao transpor o seu limiar, tivesse regressado a um mundo de sonhos.&lt;br /&gt;Eis pelo que as minhas reminiscências de toda essa noite são as mais ténues. Entretanto, durante ela, creio que nada de singular aconteceu. Jantou-se; conversou-se largamente, por certo…&lt;br /&gt;À meia-noite despedi-me.&lt;br /&gt;Mal cheguei ao meu quarto, deitei-me, adormeci… E foi só então que me tornaram os sentidos. Efectivamente, ao adormecer, tive a sensação estonteante de acordar de um longo desmaio, regressando agora à vida… Não posso descrever melhor esta incoerência, mas foi assim.&lt;br /&gt;(E, entre parênteses, convém-me acentuar que meço muito bem a estranheza de quanto deixo escrito. Logo no princípio referi que a minha coragem seria a de dizer toda a verdade, ainda quando ela não fosse verosímil.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí, comecei frequentando amiudadas noites a casa de Ricardo. As sensações bizarras tinham-me desaparecido por completo, e eu via agora nitidamente a sua esposa.&lt;br /&gt;Era uma linda mulher loira, muito loira, alta, escultural — e a carne mordorada, dura, fugitiva. O seu olhar azul perdia-se de infinito, nostalgicamente. Tinha gestos nimbados e caminhava nuns passos leves, silenciosos — indecisos, mas rápidos. Um rosto formosíssimo, de uma beleza vigorosa, talhado em ouro. Mãos inquietantes de esguias e pálidas.&lt;br /&gt;Sempre triste — numa tristeza maceradamente vaga — mas tão gentil, tão suave e amorável, que era sem dúvida a companheira propícia, ideal, de um poeta.&lt;br /&gt;Cheguei a invejar o meu amigo…&lt;br /&gt;Durante seis meses a nossa existência foi a mais simples, a mais serena. Ah! esses seis meses constituíram em verdade a única época feliz, em névoas, da minha vida…&lt;br /&gt;Raros dias se passavam em que não estivesse com Ricardo e Marta.&lt;br /&gt;Quase todas as noites nos reuníamos em sua casa, um pequeno grupo de artistas: eu, Luís de Monforte, o dramaturgo da Glória; Aniceto Sarzedas, o verrinoso crítico; dois poetas de vinte anos cujos nomes olvidei e — sobretudo — o conde Sérgio Warginsky, adido da legação da Rússia, que nós conhecêramos vagamente em Paris e que eu me admirava de encontrar agora assíduo frequentador da casa do poeta. Às vezes, com menor frequência, apareciam também Raul Vilar e um seu amigo — triste personagem tarado que hoje escreve novelas torpes desvendando as vidas íntimas dos seus companheiros, no intuito (justifica-se) de apresentar casos de psicologias estranhas e assim fazer uma arte perturbadora, intensa e original: no fundo apenas falsa e obscena.&lt;br /&gt;Os serões corriam lisonjeiros entre conversas intelectuais — vincadamente literárias — onde a nota humorística era dada em abundância por Aniceto Sarzedas, nos seus terríveis ereintements contra todos os contemporâneos.&lt;br /&gt;Marta misturava-se por vezes nas nossas discussões, e evidenciava-se de uma larga cultura, de uma finíssima inteligência. Curioso que a sua maneira de pensar nunca divergia da do poeta. Ao contrário: integrava-se sempre com a dele reforçando, aumentando em pequenos detalhes as suas teorias, as suas opiniões.&lt;br /&gt;O russo, esse exprimia a sensualidade naquele grupo de artistas — não sei por que eu tinha esta impressão.&lt;br /&gt;Era um belo rapaz de vinte e cinco anos, Sérgio Warginsky. Alto e elançado, o seu corpo evocava o de Gervásio Vila-Nova, que, há pouco, brutalmente se suicidara, arremessando-se para debaixo de um comboio. Os seus lábios vermelhos, petulantes, amorosos, guardavam uns dentes que as mulheres deveriam querer beijar — os cabelos de um loiro arruivado caíam-lhe sobre a testa em duas madeixas longas, arqueadas. Os seus olhos de penumbra áurea, nunca os despregava de Marta — devia-me lembrar mais tarde. Enfim, se alguma mulher havia entre nós, parecia-me mais ser ele do que Marta. (Esta sensação bizarra, aliás, só depois é que eu reconheci que a tivera. Durante este período, pensamentos alguns destrambelhados me vararam o espírito.)&lt;br /&gt;Sérgio tinha uma voz formosíssima — sonora, vibrante, esbraseada.&lt;br /&gt;Com a predisposição dos russos para as línguas estrangeiras, fazendo um pequeno esforço, pronunciava o português sem o mais ligeiro acento. Por isso Ricardo se aprazia muito em lhe mandar ler os seus poemas que, vibrados por aquela garganta adamantina, se sonorizavam em auréola.&lt;br /&gt;De resto era evidente que o poeta dedicava uma grande simpatia ao russo. A mim, pelo contrário, Warginsky só me irritava — sobretudo talvez pela sua beleza excessiva —, chegando eu a não poder retrair certas impaciências quando ele se me dirigia.&lt;br /&gt;Entretanto bem mais agradáveis me eram ainda as noites que passava apenas na companhia de Ricardo e de Marta — mesmo quase só na companhia de Marta pois, nessas noites, muitas vezes o poeta se ausentava para o seu gabinete de trabalho.&lt;br /&gt;Longas horas me esquecia então conversando com a esposa do meu amigo. Experimentávamos um pelo outro uma viva simpatia — era indubitável.&lt;br /&gt;E nessas ocasiões é que eu melhor podia avaliar toda a intensidade do seu espírito.&lt;br /&gt;Enfim, a minha vida desensombrara-se. Certas circunstâncias materiais muito enervantes tinham-se-me modificado lisonjeiramente. Ao meu último volume, recém-saído do prelo, estava-o acolhendo um magnífico sucesso. O próprio Sarzedas lhe dedicara um grande artigo elogioso e lúcido!...&lt;br /&gt;Por sua parte, Ricardo só me parecia feliz no seu lar.&lt;br /&gt;Em suma, tínhamos aportado. Agora sim: vivíamos.&lt;br /&gt;Decorreram meses. Chegara o verão. Haviam cessado as reuniões nocturnas em casa do artista. Luís de Monforte retirara-se para a sua quinta; Warginsky partira com três meses de licença para S. Petersburgo. Os dois poetazinhos tinham-se perdido em Trás-os-Montes. Só, de vez em quando — com o seu monóculo e o seu eterno sobretudo —, surgia Aniceto Sarzedas, queixando-se do reumático e do último volume que aparecera.&lt;br /&gt;Depois de projectar uma viagem à Noruega, Ricardo decidiu ficar por&lt;br /&gt;Lisboa. Queria trabalhar muito esse verão, concluir o seu volume Diadema, que devia ser a sua obra-prima. E, francamente, o melhor para isso era permanecer na capital. Marta estando de acordo, assim sucedeu.&lt;br /&gt;Foi neste tempo que a intimidade com a mulher do meu amigo mais se estreitou — intimidade onde nunca a sombra de um desejo se viera misturar, embora passássemos largo tempo juntos. Com efeito, numa ânsia de trabalho, Ricardo, após o jantar, logo nos deixava, encerrando-se no seu gabinete até às onze horas, meia-noite…&lt;br /&gt;As nossas palavras, de resto, apesar da nossa intimidade, somavam-se apenas numa conversa longínqua em que não apareciam as nossas almas.&lt;br /&gt;Eu expunha-lhe os enredos de futuras novelas, sobre as quais Marta dava a sua opinião — lia-lhe as minhas páginas recém-escritas, sempre numa camaradagem puramente intelectual.&lt;br /&gt;Até aí nunca me ocorrera qualquer ideia misteriosa sobre a companheira do poeta. Ao contrário: ela parecia-me bem real, bem simples, bem certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas aí, de súbito, uma estranha obsessão começou no meu espírito…&lt;br /&gt;Como que acordado bruscamente de um sonho, uma noite achei-me perguntando a mim próprio:&lt;br /&gt;— Mas no fim de contas quem é esta mulher?...&lt;br /&gt;Pois eu ignorava tudo a seu respeito. Donde surgira? Quando a encontrara o poeta? Mistério… Em face de mim nunca ela fizera a mínima alusão ao seu passado. Nunca falara de um parente, de uma sua amiga. E, por parte de Ricardo, o mesmo silêncio, o mesmo inexplicável silêncio…&lt;br /&gt;Sim, em verdade, tudo aquilo era muito singular. Como a conhecera o artista — ele, que não tinha relações algumas, que nem mesmo frequentava as casas dos seus raros amigos — e como aceitara a ideia do matrimónio, que tanto lhe repugnava?… O matrimónio? Mas seriam eles casados?... Nem sequer disso eu podia estar seguro. Lembrava-me numa reminiscência vaga: na sua carta o meu amigo não me escrevera propriamente que se tinha casado. Isto é: dizia-mo talvez, mas sem empregar nunca uma palavra decisiva… Aludindo a sua mulher, dizia sempre Marta — reparava agora também.&lt;br /&gt;E foi então que me ocorreu outra circunstância ainda mais estranha, a qual me acabou de perturbar: essa mulher não tinha recordações; essa mulher nunca se referira a uma saudade da sua vida. Sim; nunca me falara de um sítio onde estivera, de alguém que conhecera, de uma sensação que sentira — em suma, da mais pequena coisa: um laço, uma flor, um véu…&lt;br /&gt;De maneira que a realidade inquietante era esta: aquela mulher erguia-se aos meus olhos como se não tivesse passado — como se tivesse apenas um presente!&lt;br /&gt;Em vão tentei expulsar do espírito as ideias afogueadas. Mais e mais cada noite elas se me enclavinhavam, focando-se hoje toda a minha agonia em desvendar o mistério.&lt;br /&gt;Nas minhas conversas com Marta esforçava- me por obrigá-la a descer no seu passado. Assim lhe perguntava naturalmente se conhecia tal cidade, se conservava muitas reminiscências da sua infância, se tinha saudades desta ou doutras épocas da sua vida… Mas ela — naturalmente também, suponho — respondia iludindo as minhas perguntas; mais: como se não me percebesse… E, pela minha parte, num enleio injustificado, faltava-me sempre a coragem para insistir — perturbava-me como se viesse de cometer uma indelicadeza.&lt;br /&gt;Para a minha ignorância ser total, eu nem mesmo sabia que sentimentos ligavam os dois esposos. Amava-a realmente o artista? Sem dúvida. Entanto nunca mo dissera, nunca se me referira a esse amor, que devia existir com certeza. E, pelo lado de Marta, igual procedimento — como se tivessem pejo de aludir ao seu amor.&lt;br /&gt;Um dia, não me podendo conter — vendo que da sua companheira detalhe algum obtinha —, decidi-me a interrogar o próprio Ricardo.&lt;br /&gt;E, num esforço, de súbito:&lt;br /&gt;— É verdade — ousei —, você nunca me contou o seu romance…&lt;br /&gt;No mesmo momento me arrependi. Ricardo empalideceu; murmurou quaisquer palavras e, logo, mudando de assunto, se pôs a esboçar-me o plano de um drama em verso que queria compor.&lt;br /&gt;Entretanto a minha ideia fixa volvera-se-me num perfeito martírio, e assim — quer junto de Marta, quer junto do poeta — eu tentei por mais de uma vez ainda suscitar alguma luz, Mas sempre debalde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo o mais singular da minha obsessão, ia-me esquecendo de o dizer.&lt;br /&gt;Não era com efeito o mistério que encerrava a mulher do meu amigo que, no fundo, mais me torturava. Era antes esta incerteza: a minha obsessão seria uma realidade, existiria realmente no meu espírito; ou seria apenas um sonho que eu tivera e não lograra esquecer, confundindo-o com a realidade?&lt;br /&gt;Todo eu agora era dúvidas. Em coisa alguma acreditava. Nem sequer na minha obsessão. Caminhava na vida entre vestígios, chegando mesmo a recear enlouquecer nos meus momentos mais lúcidos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltara o Inverno, e, com ele, os serões artísticos em casa do poeta, sucedendo aos dois vates, perdidos definitivamente em Trás-os-Montes, um vago jornalista com pretensões a dramaturgo e Narciso do Amaral, o grande compositor. Sérgio Warginsky, loiro como nunca, sempre o mais assíduo e o mais irritante.&lt;br /&gt;A prova de que o meu espírito andava doente, muito doente, tive-a uma noite dessas — uma noite chuvosa de Dezembro…&lt;br /&gt;Narciso do Amaral decidira-se enfim a executar-nos o seu concertante Além, que terminara há muitas semanas e que até hoje só ele conhecia.&lt;br /&gt;Sentou-se ao piano. Os seus dedos feriram as teclas…&lt;br /&gt;Automaticamente os meus olhos se tinham fixado na esposa de Ricardo, que se assentara num fauteuil ao fundo da casa, em um recanto, de maneira que só eu a podia ver olhando ao mesmo tempo para o pianista.&lt;br /&gt;Longe dela, em pé, na outra extremidade da sala, permanecia o poeta.&lt;br /&gt;E então, pouco a pouco, à medida que a música aumentava de maravilha, eu vi — sim, na realidade vi! — a figura de Marta dissipar-se, esbater-se, som a som, lentamente, até que desapareceu por completo. Em face dos meus olhos abismados eu só tinha agora o "fauteuil" vazio…&lt;br /&gt;Fui de súbito acordado da miragem pelos aplausos dos auditores que a música genial transportara, fizera fremir, quase delirar…&lt;br /&gt;E, velada, a voz de Ricardo alteou-se:&lt;br /&gt;— Nunca vibrei sensações mais intensas do que perante esta música admirável. Não se pode exceder a emoção angustiante, perturbadora, que ela suscita. São véus rasgados sobre o Além — o que a sua harmonia soçobra…&lt;br /&gt;Tive a impressão de que tudo quanto me constitui em alma, se precisou condensar para a estremecer — se reuniu dentro de mim, ansiosamente, em um globo de luz…&lt;br /&gt;Calou-se. Olhei…&lt;br /&gt;Marta regressara. Erguia-se do fauteuil nesse instante…&lt;br /&gt;Ao dirigir-me para minha casa debaixo de uma chuva miudinha, impertinente — sentia-me silvado por um turbilhão de garras de ouro e chama.&lt;br /&gt;Tudo resvalava ao meu redor numa bebedeira de mistério, até que — num esforço de lucidez — consegui atribuir a visão fantástica à partitura imortal.&lt;br /&gt;De resto eu apenas sabia que se tratara de uma alucinação, porque era impossível explicar o estranho desaparecimento por qualquer outra forma.&lt;br /&gt;Ainda que na realidade o seu corpo se dissolvesse devido aos lugares que ocupávamos na sala — presumivelmente só eu o teria notado. Com efeito, bem pouco natural seria que, em face de música tão sugestionadora, alguém pudesse desviar os olhos do seu admirável executante…&lt;br /&gt;A partir dessa noite, a minha obsessão ainda mais se acentuou.&lt;br /&gt;Parecia-me, em verdade, enlouquecer.&lt;br /&gt;Quem era, mas quem era afinal essa mulher enigmática, essa mulher de sombra? De onde provinha, onde existia?... Falava-lhe há um ano, e era como se nunca lhe houvesse falado… Coisa alguma sabia dela — a ponto que às vezes chegava a duvidar da sua existência. E então, numa ânsia, corria a casa do artista, a vê-la, a certificar-me da sua realidade — a certificar-me de que nem tudo era loucura: pelo menos ela existia.&lt;br /&gt;Em mais de uma ocasião já Ricardo pressentira em mim decerto alguma coisa extraordinária. A prova foi que uma tarde, solícito, se informou da minha saúde. Eu respondi-lhe brutalmente — lembro-me — afirmando com impaciência que nada tinha; perguntando-lhe que ideia estrambótica era essa.&lt;br /&gt;E ele, admirado perante o meu furor inexplicável:&lt;br /&gt;— Meu querido Lúcio — apenas comentara —, é preciso tomarmos conta com esses nervos…&lt;br /&gt;Não podendo mais resistir à ideia fixa; adivinhando que o meu espírito soçobraria se não vencesse lançar enfim alguma luz sobre o mistério — sabendo que, nesse sentido, nada me esperava junto de Ricardo ou de&lt;br /&gt;Marta —, decidi valer-me de qualquer outro meio, fosse ele qual fosse.&lt;br /&gt;E eis como principiou uma série de baixezas, de interrogações mal dissimuladas, junto de todos os conhecidos do poeta — dos que deviam ter estado em Lisboa quando do seu casamento.&lt;br /&gt;Para as minhas primeiras diligências escolhi Luís de Monforte.&lt;br /&gt;Dirigi-me a sua casa, no pretexto de o consultar sobre se deveria conceder a minha autorização a certo dramaturgo que pensava em extrair um drama de uma das minhas mais célebres novelas. Mas logo de começo não tive mãos em mim, e, interrompendo-me, me pus a fazer-lhe perguntas directas, ainda que um tanto vagas, sobre a mulher do meu amigo. Luís de Monforte ouviu-as como se as estranhasse — mas não por elas próprias, só por virem da minha parte; e respondeu-me chocado, iludindo-as, como se as minhas perguntas fossem indiscrições a que seria pouco correcto responder.&lt;br /&gt;O mesmo — coisa curiosa — me sucedeu junto de todos quantos interroguei. Apenas Aniceto Sarzedas foi um pouco mais explícito, volvendo-me com uma infâmia e uma obscenidade — segundo o seu costume, de resto.&lt;br /&gt;Ah! como me senti humilhado, sujo, nesse instante — que difícil me foi suster a minha raiva e não o esbofetear, estender-lhe amavelmente a mão, na noite seguinte, ao encontrá-lo em casa do poeta…&lt;br /&gt;Estas diligências torpes, porém, foram vantajosas para mim. Com efeito se, durante elas, não averiguara coisa alguma — concluíra pelo menos isto: que ninguém se admirava do que eu me admirava; que ninguém notara o que eu tinha notado. Pois todos me ouviram como se nada de propriamente estranho, de misterioso, houvesse no assunto sobre o qual as minhas perguntas recaíam — apenas como se fosse indelicado, como se fosse estranho da minha parte tocar nesse assunto. Isto é: ninguém me compreendera… E assim me cheguei a convencer de que eu próprio não teria razão…&lt;br /&gt;De novo, por algum tempo, as ideias se me desanuviaram; de novo, serenamente, me pude sentar junto de Marta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ai, foi bem curto este período tranquilo.&lt;br /&gt;De todos os conhecidos do artista, só um eu não ousara abordar, tamanha antipatia ele me inspirava — Sérgio Warginsky.&lt;br /&gt;Ora uma noite, por acaso, encontramo-nos no Tavares. Não houve pretexto para que não jantássemos à mesma mesa…&lt;br /&gt;… E de súbito, no meio da conversa, muito naturalmente, o russo exclamou, aludindo a Ricardo e à sua companheira:&lt;br /&gt;— Encantadores aqueles nossos amigos, não é verdade? E que amáveis… Já conhecia o poeta em Paris. Mas, a bem dizer, as nossas relações datam de há dois anos, quando fomos companheiros de jornada… Eu tomara em Biarritz o sud-express para Lisboa. Eles faziam viagem no mesmo trem, e desde então…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 130%;"&gt;4&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atordoaram-me, positivamente me atordoaram, as palavras do russo.&lt;br /&gt;Pois seria possível? Ricardo trouxera-a de Paris? Mas como não a conhecera eu, sendo assim? Acaso não o teria acompanhado à gare do Quai d'Orsay? Fora verdade, fora, não o acompanhara — lembrei-me de súbito.&lt;br /&gt;Estava doente, com um fortíssimo ataque de gripe… E ele… Não; era impossível… não podia ser…&lt;br /&gt;Mas logo, procurando melhor nas minhas reminiscências, me ocorreram pela primeira vez, nitidamente me ocorreram, certos detalhes obscuros que se prendiam com o regresso do artista a Portugal.&lt;br /&gt;Ele amava tanto Paris… e decidira regressar a Portugal… Declarara-mo, e eu não me tinha admirado — não tinha admirado como se houvesse uma razão que justificasse, que exigisse esse regresso.&lt;br /&gt;Ai, como me arrependia hoje de, com efeito, o não ter acompanhado à estação, embora o meu incómodo, e talvez ainda outro motivo, que eu depois esquecera. Entretanto recordava-me de que, apesar da minha febre, das minhas violentas dores de garganta, estivera prestes a erguer-me e a ir despedir-me do meu amigo… Porém, em face do um torpor físico que me invadira tudo, deixara-me ficar estendido no leito, imerso numa profunda modorra, numa estranha modorra de penumbra…&lt;br /&gt;Aquela mulher, ah! aquela mulher…&lt;br /&gt;Quem seria… quem seria?... Como sucedera tudo aquilo?…&lt;br /&gt;E só então me lembrei distintamente da carta do poeta pela qual se me afigurava ter sabido do seu enlace: a verdade era que, de forma alguma, ele me participava um casamento nessa carta; nem sequer de longe aludia a esse acto — falava-me apenas das "transformações da sua vida", do seu lar, e tinha frases como esta que me bailava em letras de fogo diante dos olhos: "agora, que vive alguém a meu lado; que enfim de tudo quanto derroquei sempre se ergueu alguma coisa…"&lt;br /&gt;E, facto extraordinário, notava eu hoje: ele referia-se a tudo isso como se se tratasse de episódios que eu já conhecesse, sendo por conseguinte inútil narrá-los, só comentados…&lt;br /&gt;Mas havia outra circunstância, ainda mais bizarra: é que, pela minha parte, eu não me admirara, como se efectivamente já tivesse conhecido tudo isso, que, porém, olvidara por completo, e que a sua carta agora, vagamente, me vinha recordar.&lt;br /&gt;Sim, sim: nem me admirara, nem lhe falara do meu esquecimento, nem lhe fizera perguntas — não pensara sequer em lhas fazer, não pensara em coisa alguma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais do que nunca o mistério subsistia pois: entretanto divergido para outra direcção. Isto é: a ideia fixa que ele me enclavinhava no espírito alterara-se essencialmente.&lt;br /&gt;Outrora o mistério apenas me obcecava como mistério: evidenciando-se, também, a minha alma se desensombraria. Era ele só a minha angústia. E hoje — meu Deus! — a tortura volvera-se em quebranto; o segredo que velava a minha desconhecida só me atraía hoje, só me embriagava de champanhe — era a beleza única da minha existência.&lt;br /&gt;Daí por diante seria eu próprio a esforçar-me por que ele permanecesse, impedindo que luz alguma o viesse iluminar. E quando desabasse, a minha dor seria infinita. Mais: se ele soçobrasse, apesar de tudo, numa ilusão, talvez eu ainda o fizesse prosseguir!&lt;br /&gt;O meu espírito adaptara-se ao mistério — e esse mistério ia ser a armadura, a chama e o rastro de ouro da minha vida…&lt;br /&gt;Isso, entretanto, não o avistei imediatamente; levou-me muitas semanas o aprendê-lo — e, ao descobri-lo, recuei horrorizado. Tive medo; um grande medo… O mistério era essa mulher. Eu só amava o mistério…&lt;br /&gt;… Eu amava essa mulher! Eu queria-a! eu queria-a!&lt;br /&gt;Meu Deus, como sangrei…&lt;br /&gt;O espírito fendera-se-me numa oscilação temível; um arrepio contínuo me varava a carne ziguezagueantemente. Não dormia, nem sequer sonhava. Tudo eram linhas quebradas em meu redor, manchas de luz podre, ruídos dissonantes…&lt;br /&gt;Foi então que num ímpeto de vontade, bem decidido, comecei a procurar com toda a lucidez a força de salvar o precipício que estava já bem perto, na minha carreira… Logo a encontrei. O que me impelia para essa mulher fazendo-ma ansiar esbraseadamente, não era a sua alma, não era a sua beleza — era só isto: o seu mistério. Derrubado o segredo, esvair-se-ia o encantamento: eu poderia caminhar bem seguro.&lt;br /&gt;Assim determinei abrir-me inteiramente com Ricardo, dizer-lhe as minhas angústias, e suplicar-lhe que me contasse tudo, tudo, que pusesse termo ao mistério, que preenchesse os espaços vazios da minha memória.&lt;br /&gt;Mas foi-me impossível levar a cabo tal resolução. Desfaleci adivinhando que sofreria muito mais, muito mais fanadamente, extinto o sortilégio, de que enquanto ele me diluísse.&lt;br /&gt;Quis ter porém outra coragem: a de fugir.&lt;br /&gt;Desapareci durante uma semana fechado em minha casa, sem fazer coisa alguma, passeando todo o dia à roda do meu quarto. Os bilhetes do meu amigo principiaram chovendo, e como nunca lhe respondesse, uma tarde ele próprio me veio procurar. Disseram-lhe que eu não estava, mas Ricardo, sem ouvir, precipitou-se no meu quarto a gritar-me:&lt;br /&gt;— Homem! que diabo significa isto? Pousas ao neurastênico, à última hora? Vamos, faz-me o favor de te vestir e de me acompanhares imediatamente a minha casa.&lt;br /&gt;Não soube articular uma razão, uma escusa, Apenas sorri volvendo:&lt;br /&gt;— Não faças caso. São as minhas esquisitices…&lt;br /&gt;E, no mesmo instante, decidi não fugir mais do precipício; entregar-me à corrente — deixar-me ir até onde ela me levasse. Com esta resolução voltou-me toda a lucidez.&lt;br /&gt;Acompanhei Ricardo. Ao jantar falou-se só da minha "madureza" e o primeiro a blagueá-la fui eu próprio.&lt;br /&gt;Marta estava linda essa noite. Vestia uma blusa negra de crepe-da-china, amplamente decotada. A saia, muito cingida, deixava pressentir a linha escultural das pernas, que uns sapatos muito abertos mostravam quase nuas, revestidas por meias de fios metálicos, entrecruzados em largos losangos por onde a carne surgia…&lt;br /&gt;E pela primeira vez, ao jantar, me sentei a seu lado, pois o artista recusou o seu lugar do costume pretextando uma corrente de ar…&lt;br /&gt;O que foram as duas semanas que sucederam a esta noite, não sei.&lt;br /&gt;Entanto a minha lucidez continuava. Nenhuma ideia estranha feria o meu espírito, nenhuma hesitação, nenhum remorso… E contudo sabia-me arrastado, deliciosamente arrastado, em uma nuvem de luz que me encerrava todo e me aturdia os sentidos — mas não deixava ver, embora eu tivesse a certeza de que eles me existiam bem lúcidos. Era como se houvesse guardado o meu espírito numa gaveta…&lt;br /&gt;Foi duas noites após o meu regresso que as suas mãos, naturalmente, pela primeira vez, encontraram as minhas…&lt;br /&gt;Ah! como as horas que passávamos solitários eram hoje magentas…&lt;br /&gt;As nossas palavras tinham-se volvido — pelo menos julgo que se tinham volvido — frases sem nexo, sob as quais ocultávamos aquilo que sentíamos e não queríamos ainda desvendar, não por qualquer receio, mas sim, unicamente, num desejo perverso de sensualidade.&lt;br /&gt;Tanto que uma noite, sem me dizer coisa alguma, ela pegou nos meus dedos e com eles acariciou as pontas dos seios — a acerá-las, para que&lt;br /&gt;enfolassem agrestemente o tecido ruivo do quimono de seda.&lt;br /&gt;E cada noite era uma nova voluptuosidade silenciosa.&lt;br /&gt;Assim, ora nos beijávamos os dentes, ora ela me estendia os pés descalços para que lhos roesse — me soltava os cabelos: me dava a trincar o seu sexo maquilado, o seu ventre obsceno de tatuagens roxas…&lt;br /&gt;E só depois de tantos requintes de brasa, de tantos êxtases perdidos — sem forças para prolongarmos mais as nossas perversões — nos possuímos realmente.&lt;br /&gt;Foi uma tarde triste, chuvosa e negra de Fevereiro. Eram quatro horas. Eu sonhava dela quando, de súbito, a encantadora surgiu na minha frente…&lt;br /&gt;Tive um grito de surpresa. Marta, porém, logo me fez calar com um beijo mordido… Era a primeira vez que vinha a minha casa, e eu admirava-me, receoso da sua audácia. Mas não lho podia dizer: ela mordia-me sempre…&lt;br /&gt;Por fim os nossos corpos embaralharam-se, oscilaram perdidos numa ânsia ruiva…&lt;br /&gt;… E em verdade não fui eu que a possuí — ela, toda nua, ela sim, é que me possuiu…&lt;br /&gt;À noite, como de costume, jantei em casa de Ricardo.&lt;br /&gt;Muito curiosa a disposição do meu espírito: nem o mínimo remorso, o mínimo constrangimento — nuvem alguma. Pelo contrário, há muito me não via tão bem disposto. O próprio meu amigo o observou.&lt;br /&gt;Falamos os dois largamente essa noite, coisa que há bastante não acontecia. Ricardo terminara enfim nessa tarde o seu volume. Por isso nos não deixou…&lt;br /&gt;… E no meio da sua conversa íntima, eu esquecera até o episódio dourado. Olhando em redor de mim nem mesmo me ocorria que Marta estava seguramente perto de nós…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na manhã seguinte, ao acordar, lembrei-me de que o poeta me dissera esta estranha coisa:&lt;br /&gt;— Sabe você, Lúcio, que tive hoje uma bizarra alucinação? Foi à tarde. Deviam ser quatro horas… Escrevera o meu último verso. Saí do escritório. Dirigi-me para o meu quarto… Por acaso olhei para o espelho do guarda-vestidos e não me vi reflectido nele! Era verdade! Via tudo em redor de mim, via tudo quanto me cercava projectado no espelho. Só não via a minha imagem… Ah! não calcula o meu espanto… a sensação misteriosa que me varou… Mas quer saber? Não foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.&lt;br /&gt;Porém, reflectindo melhor, descobri que em realidade o meu amigo me não dissera nada disto. Apenas eu — numa reminiscência muito complicada e muito estranha — me lembrava, não de que verdadeiramente ele mo tivesse dito, mas de que, entretanto, mo devera ter dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 130%;"&gt;5&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nossa ligação, sem uma sombra, foi prosseguindo.&lt;br /&gt;Ah! como eu, ascendido, me orgulhava do meu amor… Vivia em sortilégio, no contínuo deslumbramento de uma apoteose branca de carne…&lt;br /&gt;Que delírios estrebuchavam os nossos corpos doidos… como eu me sentia pouca coisa quando ela se atravessava sobre mim, iriada e sombria, toda nua e litúrgica…&lt;br /&gt;Caminhava sempre aturdido do seu encanto — do meu triunfo. Eu tinha-a! Eu tinha-a!… E erguia-se tão longe o meu entusiasmo, era tamanha a minha ânsia que às vezes — como os amorosos baratos escrevem nas suas cartas romanescas e patetas — eu não podia crer na minha glória, chegava a recear que tudo aquilo fosse apenas um sonho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha convivência com Ricardo seguia sempre a mesma, e o meu afecto. Nem me arrependia, nem me condenava. De resto, antevendo-me em todas as situações, já anteriormente me supusera nas minhas circunstâncias actuais, adquirindo a certeza de que seria assim.&lt;br /&gt;Com efeito, segundo o meu sentir, eu não prejudicava o meu amigo em coisa alguma, não lhe fazia doer — ele não descera coisa alguma na minha estima.&lt;br /&gt;Nunca tive a noção convencional de certas ofensas, de certos escrúpulos. De nenhum modo procedia pois contra ele; transpondo-me, não me sabia indignar com o que lhe tinha feito.&lt;br /&gt;Aliás, ainda que o meu procedimento fosse na verdade um crime, eu não praticava esse crime por mal, criminosamente. Eis pelo que me era impossível ter remorsos.&lt;br /&gt;Se lhe mentia — estimava-o entretanto com o mesmo afecto. Mentir não é menos querer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porém — coisa estranha — este amor pleno, este amor sem remorsos, eu vibrava-o insatisfeito, dolorosamente. Fazia-me sofrer muito, muito. Mas por que, meu Deus? Cruel enigma…&lt;br /&gt;Amava-a, e ela queria-me também, decerto… dava-se-me toda em luz… Que me faltava?&lt;br /&gt;Não tinha súbitos caprichos, recusas súbitas, como as outras amantes. Nem me fugia, nem me torturava. Que me doía então?&lt;br /&gt;Mistério…&lt;br /&gt;O certo é que ao possuí-la eu era todo medo — medo inquieto e agonia: agonia de ascensão, medo raiado de azul; entanto morte e pavor.&lt;br /&gt;Longe dela, recordando os nossos espasmos, vinham-me de súbito incompreensíveis náuseas. Longe dela? Mesmo até no momento dourado da posse essas repugnâncias me nasciam a alastrarem-se, não a resumirem-se, a enclavinharem-me os êxtases arfados: e — cúmulo da singularidade — essas repugnâncias eu não sabia, mas adivinhava, serem apenas repugnâncias físicas.&lt;br /&gt;Sim, ao esvaí-la, ao lembrar-me de a ter esvaído, subia-me sempre um além-gosto a doença, a monstruosidade, como se possuíra uma criança, um ser de outra espécie ou um cadáver…&lt;br /&gt;Ah! e o seu corpo era um triunfo; o seu corpo glorioso… o seu corpo bêbado de carne — aromático e lustral, evidente… salutar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As lutas em que eu hoje tinha de me debater para que ela não suspeitasse as minhas repugnâncias, repugnâncias que — já disse e acentuo — apenas vinham contorcer os meus desejos, aumentá-los…&lt;br /&gt;Enlaçava-me agora sobre o seu corpo nu, como quem se arremessasse a um abismo encapelado de sombras, tilintante de fogo e gumes de punhais — ou como quem bebesse um veneno subtil de maldição eterna, por uma taça de ouro, heráldica, ancestral…&lt;br /&gt;Cheguei a recear-me, não a fosse um dia estrangular — e o meu cérebro, por vezes de misticismos incoerentes, logo pensou, num rodopio, se essa mulher fantástica não seria apenas um demónio: o demónio da minha expiação, noutra vida a que eu já houvesse baixado.&lt;br /&gt;E as tardes iam passando…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que diligenciasse referir toda a minha tortura à nossa mentira, ao nosso crime — não me lograva enganar. Coisa alguma eu lastimava; não podia ter remorsos… Tudo aquilo era quimera!&lt;br /&gt;Volvido tempo, porém, à força de as querer descer, de tanto meditar nestas estranhezas, como que enfim me adaptei a elas. E a tranquilidade regressou-me.&lt;br /&gt;Mas este novo período de calma bem pouco durou. Em face do mistério não se pode ser calmo — e eu depressa me lembrei de que ainda não sabia coisa alguma dessa mulher que todas as tardes emaranhava.&lt;br /&gt;Nas suas conversas mais íntimas, nos seus amplexos mais doidos, ela era sempre a mesma esfinge. Nem uma vez se abrira comigo numa confidência — e continuava a ser a que não tinha uma recordação.&lt;br /&gt;Depois, olhando melhor, nem era só do seu passado que eu ignorava tudo — também duvidava do seu presente. Que faria Marta durante as horas que não vivíamos juntos? Era extraordinário! Nunca me falara delas; nem para me contar o mais pequenino episódio — qualquer desses episódios fúteis que todas as mulheres, que todos nós nos apressamos a narrar, narramos maquinalmente, ainda os mais reservados… Sim, em verdade, era como se não vivesse quando estava longe de mim.&lt;br /&gt;Passou-me esta ideia pelo espírito, e logo encontrei outro facto muito estranho: Marta parecia não viver quando estava longe de mim. Pois bem, pela minha parte, quando a não tinha ao meu lado, coisa alguma me restava que, materialmente, me pudesse provar a sua existência: nem uma carta, um véu, uma flor seca — nem retratos, nem madeixas. Apenas o seu perfume, que ela deixava penetrante no meu leito, que bailava subtil em minha volta. Mas um perfume é uma irrealidade. Por isso, como outrora, descia-me a mesma ânsia de a ver, de a ter junto de mim para estar bem certo de que, pelo menos, ela existia.&lt;br /&gt;Evocando-a, nunca a lograra entrever. As suas feições escapavam-me como nos fogem as das personagens dos sonhos. E, às vezes, querendo-as recordar por força, as únicas que conseguia suscitar em imagem eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista quem vivia mais perto dela.&lt;br /&gt;Ah! bem forte, sem dúvida, o meu espírito, para resistir ao turbilhão que o silvava…&lt;br /&gt;(Entre parênteses observe-se, porém, que estas obsessões reais que descrevo nunca foram contínuas no meu espírito. Durante semanas desapareciam por completo e, mesmo nos períodos em que me varavam, tinham fluxos e refluxos.)&lt;br /&gt;Juntamente com o que deixo exposto, e era o mais frisante das minhas torturas, outras pequeninas coisas, traiçoeiras ninharias, me vinham fustigar. Coloca-se até aqui um episódio curioso que, embora sem grande importância, é conveniente referir:&lt;br /&gt;Apesar de grandes amigos e de íntimos amigos, eu e Ricardo não nos tratávamos por tu, devido com certeza à nossa intimidade ter principiado relativamente tarde — não sermos companheiros de infância. De resto, nunca sequer atentáramos no fato.&lt;br /&gt;Ora, por esta época, eu encontrei-me por vezes de súbito a tratar o meu amigo por tu. E quando o fazia, logo me emendava, corando como se viesse de praticar uma imprudência. E isto repetia-se tão amiudadamente que o poeta uma noite me observou com a maior naturalidade:&lt;br /&gt;— Homem, escusas de ficar todo atrapalhado, titubeante, vermelho como uma malagueta, quando te enganas e me tratas por tu. Isso é ridículo entre nós. E olha, fica combinado: de hoje em diante acabou-se o "você". Viva o "tu"! É muito mais natural…&lt;br /&gt;E assim se fez. Contudo, nos primeiros dias, eu não soube retrair um certo embaraço ao empregar o novo tratamento — tratamento que me fora permitido.&lt;br /&gt;Ricardo, virando-se para Marta, mais de uma vez me troçou, dizendo-lhe:&lt;br /&gt;— Este Lúcio sempre tem cada esquisitice… Não vês? Parece uma noiva lirial… uma pombinha sem fel… Que marocas!…&lt;br /&gt;Entretanto este meu embaraço tinha um motivo — complicado esse, por sinal:&lt;br /&gt;Nas nossas entrevistas íntimas, nos nossos amplexos, eu e Marta tratávamo-nos por tu.&lt;br /&gt;Ora, sabendo-me muito distraído, eu receava que alguma vez, em frente de Ricardo, me enganasse e a fosse tratar assim.&lt;br /&gt;Este receio converteu-se por último numa ideia fixa, e por isso mesmo, por esse excesso de atenção, comecei um dia a ter súbitos descuidos.&lt;br /&gt;Porém, dessas vezes, eu encontrava-me sempre a tratar por tu, não Marta, mas Ricardo.&lt;br /&gt;E embora depois tivéssemos assentado usar esse tratamento, o meu embaraço continuou durante alguns dias como se ingenuamente, confiadamente, Ricardo houvesse exigido que eu e a sua companheira nos tratássemos por tu.&lt;br /&gt;As minhas entrevistas amorosas com Marta realizavam-se sempre em minha casa, à tarde. Com efeito ela nunca se me quisera entregar em sua casa. Em sua casa apenas me dava os lábios a morder e consentia vícios prateados.&lt;br /&gt;Eu admirava-me até muito da facilidade evidente que ela tinha em se encontrar comigo todas as tardes à mesma hora, em se demorar largo tempo.&lt;br /&gt;Uma vez recomendei-lhe prudência. Ela riu. Pedi-lhe explicações: como não eram estranhadas as suas longas ausências, como me chegava sempre tranquila, caminhando pelas ruas desassombradamente, nunca se preocupando com as horas… E ela então soltou uma gargalhada, mordeu-me a boca… fugiu…&lt;br /&gt;Nunca mais a interroguei sobre tal assunto. Seria mau gosto insistir.&lt;br /&gt;Entretanto fora mais um segredo que se viera juntar à minha obsessão, a excitá-la…&lt;br /&gt;De resto, as imprudências de Marta não conheciam limites.&lt;br /&gt;Em sua casa beijava-me com as portas todas abertas, sem se lembrar de que qualquer criado nos poderia descobrir — ou mesmo o próprio&lt;br /&gt;Ricardo, que muitas vezes, de súbito, saía do seu gabinete de trabalho. Sim, ela nunca tinha desses receios. Era como se tal nos não pudesse acontecer — tal como se nós nos não beijássemos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, se havia alguém bem confiante, era o poeta. Bastava olhá-lo para logo se ver que nenhuma preocupação o torturava. Nunca o vira tão satisfeito, tão bem disposto.&lt;br /&gt;Um vago ar de tristeza, de amargura, que após o seu casamento ainda de vez em quando o anuviava, esse mesmo desaparecera hoje por completo — como se, com o decorrer dos dias, ele já tivesse esquecido o acontecimento cuja lembrança lhe suscitava aquela ligeira nuvem.&lt;br /&gt;As suas antigas complicações de alma, essas, mal eu chegara a&lt;br /&gt;Lisboa logo ele me disse que já não o desolavam — pois que, nesse sentido, a sua vida se limpara.&lt;br /&gt;E — facto curioso — justamente depois de Marta ser minha amante é que tinham cessado todas as nuvens, é que eu via melhor a sua boa disposição — o seu orgulho, o seu júbilo, o seu triunfo…&lt;br /&gt;As imprudências de Marta aumentavam agora dia a dia.&lt;br /&gt;Numa audácia louca, nem retinha já certos gestos de ternura a mim dirigidos, na presença do próprio Ricardo!&lt;br /&gt;Todo eu tremia, mas o poeta nunca os estranhava — nunca os via; ou, se os via, era só para se rir, para os acompanhar.&lt;br /&gt;Assim, uma tarde de verão, lanchávamos no terraço, quando Marta de súbito — num gesto que, em verdade, se poderia tomar por uma simples brincadeira agarotada — me mandou beijá-la na fronte, em castigo de qualquer coisa que eu lhe dissera.&lt;br /&gt;Hesitei, fiz-me muito vermelho; mas como Ricardo insistisse, curvei-me trémulo de medo, estendi os lábios mal os pousando na pele…&lt;br /&gt;E Marta:&lt;br /&gt;— Que beijo tão desengraçado! Parece impossível que ainda não saiba dar um beijo… Não tem vergonha? Anda, Ricardo, ensina-o tu…&lt;br /&gt;Rindo, o meu amigo ergueu-se, avançou para mim… tomou-me o rosto… beijou-me…&lt;br /&gt;O beijo de Ricardo fora igual, exactamente igual, tivera a mesma cor, a mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma maneira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 130%;"&gt;6&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Mais e mais a minha tortura se exacerbava cada noite. E embora visse claramente que todo o meu sofrimento, todos os meus receios provinham só de obsessões destrambelhadas e que, portanto, motivo algum havia para eu os ter — o certo é que, pelo menos, uma certeza lúcida me restava pressentida fosse como fosse, havia em todo o caso um motivo real no arrepio de medo que me varava a todo o instante. Seriam destrambelhadas as minhas obsessões — ah! mas eram justos, no fundo, os meus receios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os nossos encontros prosseguiam sempre todas as tardes em minha casa, e eu hoje esperava, tremendo, a hora dos nossos amplexos. Tremendo e, ao mesmo tempo, a ansiar numa agonia aquilo que me fazia tremer.&lt;br /&gt;Esquecera as minhas repugnâncias; o que me oscilava agora era outra dúvida: apesar de os nossos corpos se emaranharem, se incrustarem, de ela ter sido minha, toda minha — começou a parecer-me, não sei por que, que nunca a possuíra inteiramente: mesmo que não era possível possuir aquele corpo inteiramente por uma impossibilidade física qualquer: assim como se ela fosse do meu sexo!&lt;br /&gt;E ao penetrar-me esta ideia alucinadora, eu lembrava-me sempre de que o beijo de Ricardo, esse beijo masculino, me soubera às mordeduras de Marta; tivera a mesma cor, a mesma perturbação.&lt;br /&gt;Passaram-se alguns meses.&lt;br /&gt;Entre períodos mais ou menos tranquilos, o tempo ia agora seguindo.&lt;br /&gt;Eu olvidava a minha inquietação, o meu mistério, elaborando um novo volume de novelas — o último que devia escrever…&lt;br /&gt;Meus tristes sonhos, meus grandes cadernos de projectos — acumulei-vos… acumulei-vos numa ascensão, e por fim tudo ruiu em destroços… Etéreo construtor de torres que nunca se erguem, de catedrais que nunca se sagraram… Pobres torres de luar… pobres catedrais de neblina…&lt;br /&gt;Por este tempo, houve também uma época muito interessante na minha crise que não quero deixar de mencionar: durante ela eu pensava muito no meu caso, mas sem de forma alguma me atribular — friamente, desinteressadamente, como se esse caso se não desse comigo.&lt;br /&gt;E punha-me sobretudo a percorrer o começo da nossa ligação. De que modo se iniciara ela? Mistério… Sim, por muito estranho que pareça, a verdade é que eu me esquecera de todos os pequenos episódios que a deviam forçosamente ter antecedido. Pois decerto não começáramos logo por beijos, por carícias viciosas — houvera sem dúvida qualquer coisa antes, que hoje não me podia recordar.&lt;br /&gt;E o meu esquecimento era tão grande que, a bem dizer, eu não tinha a sensação de haver esquecido esses episódios: parecia me impossível recordá-los, como impossível é recordarmo-nos de coisas que nunca sucederam.&lt;br /&gt;Mas estas bizarrias não me dilaceravam, repito: durante esta época eu examinei-me sempre de fora, num deslumbramento — num deslumbramento lúcido, donde provinha o meu alívio actual.&lt;br /&gt;E só me lembrava — conforme narrei — do primeiro encontro das nossas mãos, do nosso primeiro beijo… Nem de tanto, sequer. A verdade simples era esta: eu sabia apenas que devera ter havido seguramente um primeiro encontro de mãos, uma primeira mordedura nas bocas… como em todos os romances…&lt;br /&gt;Quando a saudade desse primeiro beijo me acudia mais nítida — ele surgia-me sempre como se fora a coisa mais natural, a menos criminosa, ainda que dado na boca… Na boca? Mas é que eu nem mesmo disso estava seguro. Pelo contrário: era até muito possível que esse beijo mo tivessem dado na face — como o beijo de Ricardo, o beijo semelhante aos de Marta…&lt;br /&gt;Meu Deus, meu Deus quem me diria entretanto que estava ainda a meio do meu calvário, que tudo o que eu já sofrera nada valeria em face de uma nova tortura — ai, desta vez, tortura bem real, não simples obsessão…&lt;br /&gt;Com efeito um dia comecei observando uma certa mudança na atitude de Marta — nos seus gestos, no seu rosto: um vago constrangimento, um alheamento singular, devidos sem dúvida a qualquer preocupação. Ao mesmo tempo reparei que já não se me entregava com a mesma intensidade.&lt;br /&gt;Demorava-se agora menos em minha casa e uma tarde, pela primeira vez faltou.&lt;br /&gt;No dia seguinte não aludiu à sua ausência, nem eu tampouco me atrevi a perguntar-lhe coisa alguma.&lt;br /&gt;Entretanto notei que a expressão do seu rosto mudara ainda: voltara a serenidade melancólica do seu rosto — mas essa serenidade era hoje diferente: mais loira, mais sensual, mais esbatida…&lt;br /&gt;E, desde aí, principiou a não me aparecer amiudadas vezes — ou chegando fora das horas habituais, entrando e logo saindo, sem se me entregar.&lt;br /&gt;De maneira que eu vivia agora num martírio incessante. Cada dia que se levantava, era cheio de medo de que ela me faltasse. E desde a manhã a esperava, fechado em casa, numa excitação indomável que me quebrava, que me ardia.&lt;br /&gt;Por seu lado, Marta nunca tinha pensado em justificar-me as suas ausências, as suas recusas. E eu, embora o quisesse, ardentemente o quisesse, não lhe ousava fazer a mais ligeira pergunta.&lt;br /&gt;De resto, devo explicar que, desde o início da nossa ligação, terminara a nossa intimidade. Com efeito, desde que Marta fora minha — eu olhava-a como se olha alguém que nos é muito superior e a quem tudo devemos. Recebera o seu amor como uma esmola de rainha — como aquilo que menos poderia esperar, como uma impossibilidade.&lt;br /&gt;Eis pelo que não arriscava uma palavra.&lt;br /&gt;Eu era apenas o seu escravo — um escravo a quem se prostituíra a patrícia debochada… Mas, por ser assim, tanto mais contorcida se enclavinhava a minha angústia.&lt;br /&gt;Uma tarde decidi-me.&lt;br /&gt;Passara há muito a hora depois da qual Marta nunca vinha.&lt;br /&gt;— Ah! que faria nesse instante! Por que não viera!?…&lt;br /&gt;Fosse como fosse, era preciso saber alguma coisa!&lt;br /&gt;Já mais de uma vez, quando ela me faltava, eu estivera prestes a ir procurá-la. Mas nunca ousara sair do meu quarto, no receio pueril de que — embora muito tarde — ainda aparecesse.&lt;br /&gt;Nesse dia, porém, pude-me vencer. Decidi-me…&lt;br /&gt;Corri à casa do meu amigo numa ânsia esbraseada…&lt;br /&gt;Fui encontrá-lo no seu gabinete de trabalho, entre uma avalancha de papéis, fazendo uma escolha dos seus versos inéditos para uma distribuição em dois volumes — distribuição que há mais de um ano o torturava.&lt;br /&gt;— Ainda bem que apareceste! — gritou-me. — Vais-me ajudar nesta horrível tarefa!…&lt;br /&gt;Volvi-lhe balbuciando, sem me atrever a perguntar pela sua companheira, motivo único da minha inesperada visita… Estaria em casa? Era pouco provável. Entanto podia ser…&lt;br /&gt;Só a vi ao jantar. Tinha um vestido-tailleur, de passeio…&lt;br /&gt;Agora todas as minhas obsessões se haviam dissipado, convertidas em ciúme — ciúme que eu ocultava à minha amante como uma vergonha, que fazia por ocultar a mim próprio, tentando substituí-lo pelos meus antigos desvarios. Mas sempre debalde.&lt;br /&gt;Contudo nunca passavam três dias seguidos sem que Marta me pertencesse.&lt;br /&gt;O horror físico que o seu corpo já me suscitara tinha voltado de novo. Esse horror, porém, e o ciúme mais me faziam desejá-la, mais alastravam em cores fulvas os meus espasmos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas vezes repeti a experiência de correr a sua casa nas tardes em que ela não vinha. Mas sempre encontrava Ricardo. Marta não aparecia senão ao jantar… E eu, na minha incrível timidez, nunca perguntava por ela — esquecia-me mesmo de o fazer, como se não fosse para isso só que viera procurar o meu amigo àquela hora…&lt;br /&gt;Porém, um dia o poeta admirou-se das minhas visitas intempestivas, do ar febril com que eu chegava e, desde então, nunca mais ousei repetir essas experiências, aliás inúteis.&lt;br /&gt;Decidi espioná-la.&lt;br /&gt;Uma tarde tomei um coupé e, descidas as cortinas, mandei-o parar perto de sua casa… Esperei algum tempo. Por fim ela saiu. Ordenei ao cocheiro que a seguisse a distância…&lt;br /&gt;Marta tomou por uma rua transversal, dobrou à esquerda, enveredou por uma avenida paralela àquela em que habitava e onde as construções eram ainda raras. Dirigiu-se a um pequeno prédio de azulejos verdes. Entrou sem bater…&lt;br /&gt;Ah! como eu sofria! como eu sofria!… Fora buscar a prova evidente de que ela tinha outro amante… Louco que eu era em a ter ido procurar…&lt;br /&gt;Hoje, nem mesmo que quisesse, me poderia já iludir…&lt;br /&gt;E como eu me enganara outrora pensando que não seria sensível à traição carnal de uma minha amante, que pouco me faria que ela pertencesse a outros…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou então a última tortura…&lt;br /&gt;Num grande esforço baldado, procurei ainda olvidar-me do que descobrira — esconder a cabeça debaixo dos lençóis como as crianças, com medo dos ladrões, nas noites de Inverno.&lt;br /&gt;Ao entrelaçá-la, hoje, debatia-me em êxtases tão profundos, mordia-a tão sofregamente, que ela uma vez se me queixou.&lt;br /&gt;Com efeito, sabê-la possuída por outro amante — se me fazia sofrer na alma, só me excitava, só me contorcia nos desejos…&lt;br /&gt;Sim! sim! — laivos de roxidão! — aquele corpo esplêndido, triunfal, dava-se a três homens — três machos se estiraçavam sobre ele, a poluí-lo, a sugá-lo!… Três? Quem sabia se uma multidão?… E ao mesmo tempo que esta ideia me despedaçava, vinha-me um desejo perverso de que assim fosse…&lt;br /&gt;Ao estrebuchá-la agora, em verdade, era como se, em beijos monstruosos, eu possuísse também todos os corpos masculinos que resvalavam pelo seu.&lt;br /&gt;A minha ânsia convertera-se em achar na sua carne uma mordedura, uma escoriação de amor, qualquer rastro de outro amante…&lt;br /&gt;E um dia de triunfo, finalmente, descobri-lhe no seio esquerdo uma grande nódoa negra… Num ímpeto, numa fúria, colei a minha boca a essa mancha — chupando-a, trincando-a, dilacerando-a…&lt;br /&gt;Marta, porém, não gritou. Era muito natural que gritasse com a minha violência, pois a boca ficara-me até sabendo a sangue. Mas o certo é que não teve um queixume. Nem mesmo parecera notar essa carícia brutal…&lt;br /&gt;De modo que, depois de ela sair, eu não pude recordar-me do meu beijo de fogo — foi-me impossível relembrá-lo numa estranha dúvida…&lt;br /&gt;Ai, quanto eu não daria por conhecer o seu outro amante… os seus outros amantes…&lt;br /&gt;Se ela me contasse os seus amores livremente, sinceramente, se eu não ignorasse as suas horas - todo o meu ciúme desapareceria, não teria razão de existir.&lt;br /&gt;Com efeito, se ela não se ocultasse de mim, se apenas se ocultasse dos outros, eu seria o primeiro. Logo, só me poderia envaidecer; de forma alguma me poderia revoltar em orgulho. Porque a verdade era essa, atingira: todo o meu sofrimento provinha apenas do meu orgulho ferido.&lt;br /&gt;Não, não me enganara outrora, ao pensar que nada me angustiaria por a minha amante se entregar a outros. Unicamente era necessário que ela me contasse os seus amores, os seus espasmos até.&lt;br /&gt;O meu orgulho só não admitia segredos. E em Marta era tudo mistério. Daí a minha angústia — daí o meu ciúme.&lt;br /&gt;Muita vez, julgo, diligenciei fazer-lhe compreender isto mesmo, evidenciar-lhe a minha forma de sentir, a ver se provocava uma confissão inteira da sua parte, cessando assim o meu martírio. Ela, porém, ou nunca me percebeu, ou era resumido o seu afecto para tamanha prova de amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se em face do meu ciúme todas as outras obsessões haviam soçobrado, restavam-me ainda - como já disse - as minhas repugnâncias incompreensíveis.&lt;br /&gt;E procurando de novo aclará-las a mim próprio, assaltou-me de súbito este receio: seriam elas originadas pelo outro amante?&lt;br /&gt;Eu me explico:&lt;br /&gt;Tive sempre grandes antipatias físicas, meramente exteriores.&lt;br /&gt;Lembro-me por exemplo de que, em Paris, a um restaurante onde todas as noites jantava com Gervásio Vila-Nova ia algumas vezes uma rapariga italiana, deveras graciosa - modelo sem dúvida —, que muito me enternecia, que eu cheguei quase a desejar.&lt;br /&gt;Mas em breve tudo isso passou.&lt;br /&gt;É que a vira um domingo caminhando de mãos dadas com certo indivíduo que eu abominava com o maior dos tédios, e que já conhecia de o encontrar todas as tardes jogando as cartas num café burguês da Praça S. Michel. Era escarradamente o que as damas de quarenta anos e as criadas de servir chamam um lindo rapaz. Muito branco, rosadinho e loiro, bigodito bem frisado, o cabelo encaracolado; uns olhos pestanudos, uma boca pequenina - meiguinho, todo esculpido em manteiga; oleoso nos seus modos, nos seus gestos. Caixeiro de loja de modas - ah! não podia deixar de ser!…&lt;br /&gt;Embirrava de tal forma com semelhante criatura açucarada, que nunca mais tinha voltado ao café provinciano da Praça S. Michel. Com efeito era-me impossível sofrer a sua presença. Dava-me sempre vontade de vomitar em face dele, na mesma náusea que me provocaria uma mistura de toucinho rançoso, enxúndia de galinha, mel, leite e erva-doce…&lt;br /&gt;Ao encontrá-lo - o que não era raro - eu não sabia nunca evitar um gesto de impaciência. Uma manhã por sinal nem almocei, pois, abancando num restaurante que não frequentava habitualmente, o alambicado personagem tivera a desfaçatez de se vir sentar diante de mim, na mesma mesa… Ah! que desejo enorme me afogueou de o esbofetear, de lhe esmurrar o narizinho num chuveiro de murros… Mas contive-me. Paguei e fugi.&lt;br /&gt;Ora encontrar essa pequena galante de mãos dadas com tamanho imbecil - fora o mesmo do que a ver tombar morta a meus pés. Ela não deixara de ser um amor - é claro - mas eu é que nunca mais a poderia sequer aproximar. Sujara-a para sempre o homenzinho loiro, engordurara-a. E se eu a beijasse, logo me ocorreria a sua lembrança amanteigada, vir-me-ia um gosto húmido a saliva, a coisas peganhentas e viscosas. Possuí-la, então, seria o mesmo que banhar-me num mar sujo, de espumas amarelas, onde boiassem palhas, pedaços de cortiça e cascas de melões…&lt;br /&gt;Pois bem: e se as minhas repugnâncias em face do corpo admirável de Marta tivessem a mesma origem? Se esse amante que eu ignorava fosse alguém que me inspirasse um grande nojo? … Podia muito bem ser assim, num pressentimento, tanto mais que - já o confessei —, ao possuí-la, eu tinha a sensação monstruosa de possuir também o corpo masculino desse amante.&lt;br /&gt;Mas a verdade é que, no fundo, eu estava quase certo de que me enganava ainda; de que era homem bem diferente, bem mais complicada a razão das minhas repugnâncias misteriosas. Ou melhor: que mesmo que eu, se o conhecesse, antipatizasse com o seu amante, não seria esse o motivo das minhas náuseas.&lt;br /&gt;Com efeito a sua carne de forma alguma me repugnava numa sensação de enjoo - a sua carne só me repugnava numa sensação de monstruosidade, de desconhecido: eu tinha nojo do seu corpo como sempre tive nojo dos epilépticos, dos loucos, dos feiticeiros, dos iluminados, dos reis, dos papas - da gente que o mistério grifou…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa derradeira vontade tentei ainda provocar uma explicação com&lt;br /&gt;Marta - descrever-lhe sinceramente todo o meu martírio, ou, pelo menos, insultá-la. Enfim, pôr um termo qualquer à minha situação infernal.&lt;br /&gt;Mas não o consegui nunca. Quando ia a dizer-lhe a primeira palavra, via os seus olhos de infinito… o seu olhar fascinava-me. E como um médium no estado hipnótico eram outras as frases que eu proferia - talvez só as que ela me obrigava a pronunciar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então resolvi, pelo menos, saber de qualquer forma quem era o habitante do prediozinho verde. Repugnavam-me muito as diligências suspeitas, mas não descera eu já a seguir Marta?&lt;br /&gt;Assim, enchi-me de arrojo e determinei ir perguntar pelas cercanias informações sobre o que eu desejava averiguar, mesmo em último caso ao porteiro - se é que o prédio tinha guarda-portão.&lt;br /&gt;Escolhi a manhã de um domingo para as minhas investigações, dia em que eu e Marta só nos encontrávamos em casa do poeta, que todas as tardes de domingo nos levava a passear no seu automóvel, o qual então - estávamos em 1899 - fazia grande sucesso em Lisboa.&lt;br /&gt;Porém, ao dobrar a rua transversal que levava à avenida onde era o prédio misterioso, tive um gesto de despeito: Ricardo caminhava na minha frente. Não me pude esconder. Ele vira-me já, não sei como:&lt;br /&gt;— Hem? Tu por aqui a estas horas?… — gritou admirado.&lt;br /&gt;Reuni as minhas forças para balbuciar:&lt;br /&gt;— É verdade… Ia a tua casa… Mas lembrei-me de ver estas ruas novas… Ando tão aborrecido…&lt;br /&gt;— Do calor?&lt;br /&gt;— Não… E tu próprio… diz-me… Nunca costumas sair de manhã… sobretudo aos domingos…&lt;br /&gt;— Ah! uma madureza como outra qualquer. Concluí agora mesmo uns versos E na ânsia de os ler a alguém, ia a casa do Sérgio Warginsky para lhos mostrar… É aqui perto… Anda comigo… Fazemos horas para o almoço.&lt;br /&gt;A estas palavras todo eu tremi num arrepio. Silencioso, pus-me a acompanhá-lo, maquinalmente.&lt;br /&gt;O artista quebrou o silêncio:&lt;br /&gt;— Então, e a tua peça?&lt;br /&gt;— Terminei-a a semana passada.&lt;br /&gt;— O quê!? Mas ainda não me tinhas dito coisa alguma!…&lt;br /&gt;Desculpei-me, murmurando:&lt;br /&gt;— É que me esqueci, talvez…&lt;br /&gt;— Homem! tens cada resposta que não lembra ao diabo!… - recordo-me perfeitamente de que ele exclamara, rindo. E prosseguiu:&lt;br /&gt;— Mas conta-me depressa… Estás satisfeito com a tua obra?… Como resolveste afinal aquela dificuldade do segundo ato? O escultor sempre morre?… E eu:&lt;br /&gt;— Resolve-se tudo muito bem. O escultor…&lt;br /&gt;Chegáramos defronte do prédiozinho verde. Interrompi-me de súbito…&lt;br /&gt;Não! não era ilusão: em face de nós, no outro passeio, Marta sempre nos seus passos leves, indecisos mas rápidos, silenciosos - sem nos ver, sem reparar em redor de si, dirigia-se ao prédio misterioso, batia à porta desta vez, entrava…&lt;br /&gt;E, ao mesmo tempo, apertando-me o braço bruscamente, dizia-me o poeta:&lt;br /&gt;— No fim de contas é um disparate irmos incomodar o russo. O que eu estou é ansioso por conhecer o teu drama. Vamos buscá-lo os dois a tua casa. Quero ouvi-lo esta tarde. Tanto mais que o automóvel precisa conserto. Aquilo, dia sim dia não, é uma peça que se parte…&lt;br /&gt;Vivi todo o resto desse dia como que envolto num denso véu de bruma. Entanto pude ler o meu drama a Ricardo e a Marta. Sim, quando voltámos ao palacete, após termos passado por minha casa, já Marta regressara, e notei mesmo que já tinha mudado de vestido - embora contra o seu costume, não vestisse um traje de interior, mas sim uma toilette de passeio.&lt;br /&gt;Lembro-me também de que durante toda a leitura da minha peça só tive esta sensação lúcida: que era bizarro como eu, no meu estado de espírito, podia entretanto trabalhar.&lt;br /&gt;De resto, conforme observei, as minhas dores, as minhas angústias, as minhas obsessões eram intermitentes, tinham fluxos e refluxos: como nos dias de revolta social, entre os tiros de canhão e o tiroteio nas praças, a vida diária prossegue - também, no meio da minha tortura, seguia a minha vida intelectual. Por isso mesmo lograra esconder de todos, até hoje, a atribulação do meu espírito.&lt;br /&gt;Mas, juntamente com a ideia lúcida que descrevi, sugerira-se-me durante a leitura outra ideia muito estrambólica. Fora isto: pareceu-me vagamente que eu era o meu drama - a coisa artificial - e o meu drama a realidade.&lt;br /&gt;Um parêntese: Quem me tiver seguido deve, pelo menos, reconhecer a minha imparcialidade, a minha inteira franqueza. Com efeito, nesta simples exposição da minha inocência, não me poupo nunca a descrever as minhas ideias fixas, os meus aparentes desvairos que, interpretados com estreiteza, poderiam levar a concluir, não pela minha culpabilidade, mas pela minha embustice ou - critério mais estreito - pela minha loucura. Sim, pela minha loucura; não receio escrevê-lo. Que isto fique bem frisado, porquanto eu necessito de todo o crédito para o final da minha exposição, tão misterioso e alucinador ele é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ricardo e Marta felicitaram-me muito pela minha obra - creio. Mas não o posso afirmar, em virtude do denso véu de bruma cinzenta que me envolvera, e que só me deixou nítidas as lembranças que já referi.&lt;br /&gt;Jantei com os meus amigos. Despedi-me cedo pretextando um ligeiro&lt;br /&gt;incómodo.&lt;br /&gt;Corri para minha casa. Deitei-me logo… Mas antes de adormecer, revendo a cena culminante do dia, observei esta estranha coisa:&lt;br /&gt;Ao pararmos em face do prédio verde, de súbito eu vira Marta avançar distraída até bater à porta… Ora, segundo a direcção em que ela me aparecera, era fatal que tinha vindo sempre atrás de nós. Logo, ela devia-me ter visto: logo eu devia-a ter visto quando - lembrava-me muito bem – olhara para trás, por sinal em frente de um grande prédio em construção… E ao mesmo tempo - ignoro por que motivo — lembrei-me de que o meu amigo, quando decidira de repente não ir a casa de Warginsky, terminara a sua frase com estas palavras:&lt;br /&gt;— …o automóvel precisa conserto. Aquilo, dia sim, dia não, é uma&lt;br /&gt;peça que se parte…&lt;br /&gt;E eram as únicas palavras de que me lembrava frisantemente - mesmo as únicas que eu estava certo de lhe ter ouvido. Entretanto as únicas que eu não podia admitir que ele tivesse pronunciado…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demorei-me ainda largas horas a rever o meu estranho dia. Mas por fim adormeci, levado num sono até alta manhã…&lt;br /&gt;Dois dias depois, sem prevenir ninguém, sem escrever uma palavra a&lt;br /&gt;Ricardo, eu tive finalmente a coragem de partir…&lt;br /&gt;Ah! a sensação de alívio que experimentei ao descer enfim na gare do Quai d'Orsay: respirava, desenastrara-se-me a alma!…&lt;br /&gt;Com efeito eu sofri sempre as dores morais na minha alma, fisicamente. E a impressão horrível que há muito me debelava era esta: que a minha alma se havia dobrado, contorcido, confundido…&lt;br /&gt;Mas agora, ao ver-me longe de tudo quanto me misturara, essa dor estranha diluíra-se: o meu espírito, sentia-o destrinçado como outrora.&lt;br /&gt;Durante a viagem, pelo contrário, numa ânsia de chegar a Paris, as minhas torturas tinham-se enrubescido. Eu pensava que nunca chegaria a Paris, que era impossível haver triunfado, que sonhava com certeza - ou então que me prenderiam no caminho por engano: que me obrigariam a tornar a Lisboa, que vinham no meu encalço Marta, Ricardo, todos os meus amigos, todos os meus conhecidos…&lt;br /&gt;E um calafrio de horror me ziguezagueara ao ver entrar em Biarritz um homem alto e louro, no qual, de súbito, eu julguei reconhecer Sérgio Warginsky. Mas olhando-o melhor - olhando-o pela primeira vez realmente - sorri para mim próprio: o desconhecido apenas tinha do conde russo o ser alto e louro…&lt;br /&gt;Entanto agora já não podia duvidar: vencera. Atravessara a Praça da&lt;br /&gt;Concórdia, monumental e aristocrática, tilintante de luzes…&lt;br /&gt;De novo, ungindo-me de Europa, alastrando-me da sua vibração, se encapelava dentro de mim Paris - o meu Paris, o Paris dos meus vinte e três anos…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foram então os últimos seis meses da minha vida… Vivi-os de existência diária, em banalidade, frequentando os cafés, os teatros, os grandes restaurantes…&lt;br /&gt;Nas primeiras semanas - e mesmo depois, numa ou noutra hora - ainda pensei no meu caso, mas nunca embrenhadamente.&lt;br /&gt;Afinal - pressentia - tudo aquilo, no fundo, era talvez bem mais simples do que se me afigurava. O mistério de Marta? Ora… ora… Fazem-se tantas loucuras… há tantas aventureiras…&lt;br /&gt;E parecia-me até que, se eu quisesse, num grande esforço, numa grande concentração, poderia explicar coisa alguma, esquecer tudo. Esquecer é não ter sido. Se eu lograsse abolir o triste episódio da minha recordação, era exactamente como se nunca o existira. E foi pelo que me esforcei.&lt;br /&gt;Entretanto nunca podia deixar de pensar numa circunstância: a complacência inaudita de Ricardo - a sua infâmia. E então as coisas haviam chegado a ponto de a sua mulher ir atrás dele, quase com ele, a casa de um amante? Pois se nós a não víramos, ela, por mais distraída que caminhasse, tinha-nos visto com certeza. Mas nem por isso retrocedera!&lt;br /&gt;E um turbilhão de pequeninas coisas me ocorria juntamente, mil factos sem importância ao primeiro exame, mil pormenores insignificantes em que eu só agora atentava.&lt;br /&gt;Há muito que o meu amigo descobrira tudo decerto; por força que há muito soubera das nossas relações… Nem podia deixar de ser assim… Só se fosse cego… Era pasmoso!…&lt;br /&gt;E ele que me queria sempre ao lado da sua companheira? Mudara de lugar à mesa, pretextando uma corrente de ar que nunca existira, só para que eu me sentasse junto de Marta e as nossas pernas se pudessem entrelaçar…&lt;br /&gt;Se saíamos os três, eu ia ao lado dela… E nos nossos passeios de automóvel, Ricardo tomando sempre o volante, sentávamo-nos os dois sozinhos no interior da carruagem… bem chegados um ao outro… de mãos dadas. Sim; pois logo os nossos dedos se nos enastravam - maquinalmente, instintivamente… Ah! e era impossível que ele o não observasse quando, muita vez, se voltava para nos dizer qualquer coisa…&lt;br /&gt;Mas - facto estranho - a verdade é que, nesses momentos, eu nunca receara que ele visse as nossas mãos; nunca me perturbara, nem sequer esboçara nunca um gesto de as desenlear… Era como se as nossas mãos fossem soltas, e nós sentados muito longe um do outro…&lt;br /&gt;E dar-se-ia o mesmo com Sérgio? Oh, sem dúvida… Ricardo estimava-o tanto…&lt;br /&gt;O mais infame, o mais inacreditável, porém, era que sabendo ele, a sua amizade, as suas atenções, por mim e pelo russo aumentassem cada dia…&lt;br /&gt;Que ele soubesse e entanto se calasse, por muito amar a sua companheira e, acima de tudo, não a querer perder - ainda se admitia. Mas então, ao menos, que mostrasse uma atitude nobre - que nos não adulasse, que não nos acariciasse…&lt;br /&gt;Ah! como tudo isto me revoltava! Não propriamente pela sua atitude; antes pela sua falta de orgulho. Eu não soube nunca desculpar uma falta de orgulho. E sentia que toda a minha amizade por Ricardo de Loureiro soçobrara hoje em face da sua baixeza. A sua baixeza! Ele que tanto me gritara ser o orgulho a única qualidade cuja ausência não perdoava em um carácter…&lt;br /&gt;Mas devo esclarecer, ao pensar no extraordinário procedimento do meu amigo, nunca me confrangiam as reminiscências das minhas antigas obsessões. Esquecera-as por completo. Mesmo que as recordasse, importância alguma já daria ao mistério - seguramente mistério de pacotilha —, ao meu ciúme, a tudo mais…&lt;br /&gt;Apenas às vezes, quando muito, me assaltava uma saudade vaga, esvaída em melancolia, por tudo o que outrora me torturara.&lt;br /&gt;Somos sempre assim: O tempo vai passando, e tudo se nos volve saudoso - sofrimentos, dores até, desilusões…&lt;br /&gt;Com efeito, ainda hoje, às tardes maceradas, eu não sei evitar numa reminiscência longínqua a saudade violenta de certa criaturinha indecisa que nunca tive, e mal roçou pela minha vida. Por isto só: porque ela me beijou os dedos: e um dia, a sorrir, defronte dos nossos amigos, me colocou em segredo o braço nu, mordorado, sobre a mão…&lt;br /&gt;E depois logo fugiu da minha vida, esguiamente, embora eu, por piedade - doido que fui! —, ainda a quisesse dourar de mim, num enternecimento azul pelas suas carícias…&lt;br /&gt;E sofri… ela era tão pouca coisa, mas a verdade é que sofri… sofri de ternura… uma ternura muito suave… penetrante… aquática…&lt;br /&gt;Os meus afectos, mesmo, foram sempre ternuras…&lt;br /&gt;Porém, quando me acordava essa saudade branda do meu antigo sofrimento - isto é: do corpo nu de Marta no mesmo instante ela se me diluía, ao lembrar-me da atitude infame de Ricardo.&lt;br /&gt;E a minha revolta era cada vez maior.&lt;br /&gt;Por felicidade, até aí, ainda não recebera uma carta do artista. Que nem a teria aberto, se a recebera…&lt;br /&gt;Pessoa alguma conhecia o meu endereço. Saber-se-ia talvez que eu estava em Paris, devido a encontros fortuitos com vagos conhecidos.&lt;br /&gt;Não comprava jornais portugueses. Se vinha no Matin qualquer telegrama de Lisboa, não o lia: e assim, em verdade quase triunfara esquecer-me de quem era… Entre a multidão cosmopolita, criava-me alguém sem pátria, sem amarras, sem raízes em todo o mundo.&lt;br /&gt;— Ah! que venturoso eu fora se não tivesse nascido em parte nenhuma e entretanto existisse… - lembrei-me muita vez estranhamente, nos meus passeios solitários pelos boulevares, pelas avenidas, pelas grandes&lt;br /&gt;praças…&lt;br /&gt;Uma tarde, como de costume, folheava as últimas novidades literárias nas galerias do Odéon, quando deparei com um volume de capa amarela, recém-aparecido, segundo a clássica tira vermelha… E diante dos meus olhos, em letras de brasa, o nome de Ricardo de Loureiro fulgurou…&lt;br /&gt;Era com efeito a tradução francesa do Diadema que um editor arrojado acabara de lançar, revelando ao mundo uma literatura nova…&lt;br /&gt;Nessa tarde, pela primeira vez desde que cheguei a Paris, tive algumas horas realmente alucinadas.&lt;br /&gt;Durante elas embrenhei-me a pensar em Ricardo, no seu procedimento inqualificável, na sua inadmissível falta de orgulho.&lt;br /&gt;Meditei em todos os pequenos episódios que atrás referi, descortinei outros ainda mais significativos, perdendo-me a querer descobrir todos os amantes possíveis de Marta… E numa alucinação, não podia conceber que nenhum dos homens que eu vira um dia junto dela não tivesse passado pelo seu corpo - e sabendo-o o marido: Luís de Monforte, Narciso do Amaral, Raul Vilar… todos, enfim, todos…&lt;br /&gt;Entretanto, no meio disto, ainda havia qualquer coisa mais bizarra: era que nesta revolta, neste asco, neste ódio sim, neste ódio! - por Ricardo, misturava-se como que um vago despeito, um ciúme, um verdadeiro ciúme dele próprio.&lt;br /&gt;Invejava-o! Invejava-o por ela me haver pertencido… a mim, ao conde russo, a todos mais!…&lt;br /&gt;E esta sensação descera-me tão forte, essa tarde, que num relâmpago me voou pelo cérebro a ideia rubra de o assassinar – para satisfazer a minha inveja, o meu ciúme: para me vingar dele!…&lt;br /&gt;Mas voltei por fim à minha calma, e, perante o meu antigo amigo, só me restou o meu nojo, o meu tédio, e um desejo ardente de lhe escarrar na cara todo a sua indignidade, toda a sua baixeza, clamando-lhe:&lt;br /&gt;— Olha que fomos amantes dela… eu e todos nós, ouves? E todos sabemos que tu já o sabes!…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, antes de adormecer, veio-me ainda esta ideia perturbadora, num atordoamento luminoso:&lt;br /&gt;— A sua baixeza… a sua falta de orgulho… Ah! mas se eu me engano… se eu me engano… se é Marta quem lhe conta tudo… se ele conhece tudo só porque ela lho diz… se ela tem segredos para todos, menos para ele… como eu queria… como eu a queria para mim… Nesse caso… nesse caso…&lt;br /&gt;E ao mesmo tempo - arrepiadamente, desarrazoadamente – acudiu-me à lembrança a estranha confissão que Ricardo me fizera uma noite, há tantos anos… no fim de um jantar… para o Bosque de Bolonha… no Pavilhão… no Pavilhão d'Armenonville…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 130%;"&gt;7&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outubro de novecentos principiara.&lt;br /&gt;Uma tarde, no Boulevar des Capucines, alguém de súbito me gritou, batendo-me no ombro:&lt;br /&gt;— Ora até que enfim! Andava exactamente à sua procura…&lt;br /&gt;Era Santa-Cruz de Vilalva, o grande empresário.&lt;br /&gt;Tomou-me por um braço, fez-me à viva força sentar junto dele no terraço do La Paix, e pôs-se a barafustar-me o espanto que a minha falta de notícias lhe causara, tanto mais que, poucos dias antes de desaparecer, eu lhe falara da minha nova peça. Disse-me que em Lisboa muita gente perguntava por mim, que apenas vagamente se sabia que eu estava em Paris por alguns portugueses que tinham vindo à Exposição. Em suma: "Que demónio era isso, homem? neurasténico pelo último correio?…"&lt;br /&gt;Como sucedia sempre quando alguém me fazia perguntas sobre a minha forma de viver, fiquei todo perturbado — corei e titubeei quaisquer razões.&lt;br /&gt;O grande empresário atalhou, exclamando-me:&lt;br /&gt;— Bom. Mas antes de mais nada, vamos ao importante: Dê-me a sua peça.&lt;br /&gt;Que não a concluíra ainda, que não me satisfazia…&lt;br /&gt;E ele:&lt;br /&gt;— Espero-o esta noite no meu hotel… ali, no Scribe… Traga-me a obra. Quero ouvi-la hoje… Que título?&lt;br /&gt;— A Chama.&lt;br /&gt;— Óptimo. Até logo… Primeira em Abril. Última récita de assinatura.&lt;br /&gt;Preciso fechar a minha estação com chave de ouro…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora-me muito desagradável o encontro que viera pôr termo ao meu isolamento de há seis meses. Porém, ao mesmo tempo, no fundo, a verdade é que eu não o lastimava. Sempre a literatura…&lt;br /&gt;Desde que chegara a Paris, não escrevera uma linha nem sequer já me lembrava de que era um escritor… E agora, de súbito, vinham-me recordá-lo - evidenciando o apreço em que se tinha o meu nome; e precisamente alguém que eu sabia tão pouco lisonjeiro, tão brusco, tão homem de negócios…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À noite, como se combinara, li o meu drama. Santa-Cruz de Vilalva exultou: "Trinta seguras!" punha as mãos no fogo; "a minha melhor obra" - garantiu.&lt;br /&gt;Entreguei-lhe o manuscrito, mas com estas condições: Que não iria assistir aos ensaios nem me ocuparia da distribuição, de pormenores alguns da mise-en-scène. Da mais ligeira coisa, enfim. Deixava tudo ao seu cuidado. Ah! e principalmente que não me escrevesse nem uma palavra sobre o assunto…&lt;br /&gt;O grande empresário anuiu a tudo. Falamos ainda alguns instantes.&lt;br /&gt;E ao despedirmo-nos:&lt;br /&gt;— É verdade - disse - sabe quem me perguntou várias vezes por si? se eu sabia de você… o seu endereço?… O Ricardo de Loureiro… Que o meu amigo nunca mais lhe tinha escrito… Também represento um ato dele… em verso… Boa noite…&lt;br /&gt;Esquecera já o meu encontro com o empresário, a minha peça, tudo - enfim tornara a mergulhar no meu antigo alheamento, quando de súbito me ocorreu uma ideia nova, inteiramente diversa da primeira, para o último ato da Chama: uma ideia belíssima, grande, que me entusiasmou.&lt;br /&gt;Não descansei enquanto não escrevi o novo ato. E um dia não pude resistir; parti com ele para Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando cheguei, tinham começado os ensaios pouco antes.&lt;br /&gt;Todos os meus intérpretes me abraçaram efusivamente. E Santa-&lt;br /&gt;Cruz de Vilalva:&lt;br /&gt;— Ora… se eu não sabia já que ele havia de aparecer!… Quem não os&lt;br /&gt;conhecesse… São todos a mesma…&lt;br /&gt;Os ensaios marchavam optimamente. Roberto Dávila, no papel de escultor, ia ter decerto uma das suas mais belas criações.&lt;br /&gt;Passaram-se dois dias.&lt;br /&gt;Coisa espantosa: ainda não falara do novo acto da minha peça, razão única por que decidira regressar a Lisboa contra todos os meus projectos, contra toda a minha vontade.&lt;br /&gt;Entanto ao terceiro dia, enchendo-me de coragem (foi certo: precisei&lt;br /&gt;encher-me de coragem) disse ao empresário o motivo que me trouxera de Paris.&lt;br /&gt;Santa-Cruz de Vilalva pediu-me o manuscrito, sem consentir, porém, que eu lho lesse.&lt;br /&gt;E na manhã seguinte:&lt;br /&gt;— Homem! - gritou-me - Você está maluco! O antigo é uma obra-prima.&lt;br /&gt;Este, perdoe-me.. Posso dizer-lhe a minha opinião franca?…&lt;br /&gt;— Sem dúvida… - volvi, já perturbado.&lt;br /&gt;— Um disparate!…&lt;br /&gt;Uma raiva excessiva me afogueou perante a boçalidade do empresário, a sua pouca clarividência. Pois se algumas vezes eu adivinhara nas minhas obras lampejos de génio, era nessas páginas. Mas tive a força de me conter.&lt;br /&gt;Não sei bem o que depois se seguiu. O certo é que tudo acabou por o drama ser retirado de ensaios, visto eu não consentir que o representassem com o primitivo acto, e a empresa se negar terminantemente a montá-lo, conforme o parecer do director e dos principais intérpretes.&lt;br /&gt;Quebrei as relações com um e com outros, e exigi que me entregassem todas as cópias do manuscrito e os papéis. A minha exigência foi estranhada - lembro-me bem - sobretudo pelo modo violento como a fiz.&lt;br /&gt;Ao chegar a minha casa - juntamente com o manuscrito original, lancei tudo ao fogo.&lt;br /&gt;Tal foi o destino da minha última obra…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Decorreram algumas semanas.&lt;br /&gt;As dores físicas do meu espírito tinham regressado; mas agora dores injustificadas - dores pelo menos cuja razão eu desconhecia.&lt;br /&gt;Desde que chegara a Lisboa - era claro - não procurara ainda nenhum dos meus companheiros. Às vezes parecia-me até que gente, que em tempos eu conhecera, me evitava. Eram literatos, dramaturgos, jornalistas, que decerto pretendiam lisonjear assim o grande empresário de quem todos mais ou menos dependiam, hoje ou amanhã.&lt;br /&gt;Só uma coisa me admirava: Ricardo, pela sua parte, não me tinha procurado nunca. O que, de resto, ao mesmo tempo se me afigurava bem explicável; o mais natural até: ele percebera sem dúvida os motivos do meu afastamento, e por isso se retraíra, sensatamente.&lt;br /&gt;Estimava bastante que tivesse procedido assim. Caso contrário ter-se-ia dado entre nós uma cena muito desagradável. Em face dele, eu não saberia reprimir os meus insultos.&lt;br /&gt;O caso da Chama aborrecera-me deveras. Uma grande náusea me subira por tudo quanto tocava à arte no seu aspecto mercantil. Pois só o comércio condenara a versão nova da minha peça: com efeito, em vez de ser um acto meramente teatral, de acção intensa mais lisa, como o primitivo - o acto novo era profundo e inquietador; rasgava véus sobre o Além.&lt;br /&gt;Num último tédio comecei vagabundeando dias inteiros pelas ruas da cidade, à toa, por bairros afastados de preferência…&lt;br /&gt;Lembro-me de que seguia por avenidas, dobrava por travessas, ansioso, quase a correr: como alguém, enfim, que debalde procurasse uma pessoa que muito desejasse encontrar - não sei por que, fiz esta comparação às vezes.&lt;br /&gt;Em geral à noite, febril, cheio de cansaço, aturdido, recolhia cedo a casa, dormindo de um sono estagnado até de manhã… para recomeçar o meu devaneio…&lt;br /&gt;Facto curioso: nunca me lembrei durante este período de regressar a Paris, e volver-me ao meu tranquilo isolamento de alma. Não porque me desagradasse hoje essa maneira de viver. Apenas tal recurso nunca me passou pela ideia…&lt;br /&gt;Uma manhã vi de súbito alguém atravessar a rua, dirigindo-se ao meu encontro…&lt;br /&gt;Quis fugir. Mas os pés enclavinharam-se no solo. Ricardo, ele próprio, estava em minha frente…&lt;br /&gt;Não me podem lembrar - de banais que foram, por certo – as primeiras palavras que trocamos. Seguramente o poeta me disse o espanto que a minha desaparição lhe causara, que lhe causara o meu procedimento actual.&lt;br /&gt;Fosse como fosse, falara-me num tom de grande tristeza, e em toda a sua figura havia a expressão de um sincero desgosto. É possível que ao expor-me tudo isso, os seus olhos estivessem húmidos de lágrimas.&lt;br /&gt;Pelo meu lado, desde que o tinha em face de mim, ainda não pudera reflectir; aturdia-me um denso véu de bruma - tal como na última tarde que passara com o meu amigo.&lt;br /&gt;Escutei em silêncio os seus queixumes, até que, de repente - desenvencilhado, desperto - me não soube conter, como receara, e lhe comecei gritando todo o meu ódio: a minha revolta, o meu nojo…&lt;br /&gt;A sua expressão dolorosa não se transformou com as minhas palavras - o artista pareceu mesmo não as estranhar, como se eu lhe desse a resposta mais natural ao que me contara. Apenas só agora, indubitavelmente, as lágrimas lhe desciam pelo rosto; mas não era diversa da primeira dor que as provocava.&lt;br /&gt;E eu acabei:&lt;br /&gt;— … Tinha-me atascado na lama… Por isso fugi… por essa ignomínia… Ouves? ouves!?…&lt;br /&gt;Todo ele tremeu então. Velou-lhe o rosto uma sombra…&lt;br /&gt;Deteve-se um instante e, por fim, numa voz muito estranha, sumida,&lt;br /&gt;húmida - tão singular que nem parecia vir da sua garganta, começou:&lt;br /&gt;— Ah! como te enganas… Meu pobre amigo! Meu pobre amigo!…&lt;br /&gt;Doido que eu era no meu triunfo… Nunca me lembrei de que os mais o não entenderiam… Escuta-me! Escuta-me!… Oh! tu hás-de me escutar!…&lt;br /&gt;Sem vontade própria, esvaído, em silêncio, eu acompanhava-o como que arrastado por fios de ouro e lume, enquanto ele se me justificava:&lt;br /&gt;— Sim! Marta foi tua amante, e não foi só tua amante… Mas eu não soube nunca quem eram os seus amantes. Ela é que mo dizia sempre… Eu é que lhos mostrava sempre!&lt;br /&gt;"Sim! Sim! Triunfei encontrando-a!… Pois não te lembras já, Lúcio, do martírio da minha vida? Esqueceste-o?… Eu não podia ser amigo de ninguém… não podia experimentar afectos… Tudo em mim ecoava em ternura… eu só adivinhava ternuras… E, em face de quem as pressentia, só me vinham desejos de carícias, desejos de posse - para satisfazer os meus enternecimentos, sintetizar as minhas amizades…&lt;br /&gt;Um relâmpago de luz ruiva me cegou a alma.&lt;br /&gt;O artista prosseguiu:&lt;br /&gt;— Ai, como eu sofri… como eu sofri!… Dedicavas-me um grande afecto; eu queria vibrar esse teu afecto - isto é: retribuir-to; e era-me impossível!… Só se te beijasse, se te enlaçasse, se te possuísse… Ah! Mas como possuir uma criatura do nosso sexo?…&lt;br /&gt;"Devastação! Devastação! Eu via a tua amizade, nitidamente a via, e não a lograva sentir!… Era toda de ouro falso…&lt;br /&gt;"Uma noite, porém, finalmente, uma noite fantástica de branca, triunfei! Achei-A… sim, criei-A!… criei-A… Ela é só minha - entendes? - é só minha!… Compreendemo-nos tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma. Pensamos da mesma maneira; igualmente sentimos. Somos nós-dois…&lt;br /&gt;Ah! e desde essa noite eu soube, em glória soube, vibrar dentro de mim o teu afecto - retribuir-to: mandei-A ser tua! Mas, estreitando-te ela, era eu próprio quem te estreitava… Satisfiz a minha ternura: Venci! E ao possui-la, eu sentia, tinha nela, a amizade que te devera dedicar - como os outros sentem na alma as suas afeições. Na hora em que a achei - tu ouves? - foi como se a minha alma, sendo sexualizada, se tivesse materializado. E só com o espírito te possuí materialmente! Eis o meu triunfo… Triunfo inigualável! Grandioso segredo!…&lt;br /&gt;"Oh! mas como eu hoje sofro… como sofre outra vez despedaçadoramente…&lt;br /&gt;"Julgaste-me tão mal… Enojaste-te… gritaste à infâmia, à baixeza… e o meu orgulho ascendia cada aurora mais alto!… Fugiste… E, em verdade, fugiste de ciúme… Tu não eras o meu único amigo - eras o primeiro, o maior - mas também por um outro eu oscilava ternuras… Assim a mandei beijar esse outro… Warginsky, tens razão, Warginsky… Julgava-o tão meu amigo… parecia-me tão espontâneo… tão leal… tão digno de um afecto… E enganou-me… enganou-me…&lt;br /&gt;Atónito, eu ouvia o poeta como que hipnotizado - mudo de espanto, sem poder articular uma palavra…&lt;br /&gt;A sua dor era bem real, bem sincero o seu arrependimento; e observei que o tom da sua voz se modificara, aclarando-se ao referir-se ao conde russo - para logo de novo se velar, dizendo:&lt;br /&gt;— Que valem os outros, entanto, em face da tua amizade? Coisa alguma! Coisa alguma!… Não me acreditas?… Ah! mas é preciso que me acredites… que me compreendas… Vem!… Ela é só minha! Pelo teu afecto eu trocaria tudo — mesmo o meu segredo. Vem!&lt;br /&gt;Depois, foi uma vertigem…&lt;br /&gt;Agarrou-me violentamente por um braço… obrigou-me a correr com ele…&lt;br /&gt;Chegamos por fim diante da sua casa. Entramos… galgámos a escada de um salto…&lt;br /&gt;Ao atravessarmos o vestíbulo do primeiro andar, houve um pormenor insignificante, o qual, não sei por que, nunca olvidei: em cima de um móvel onde os criados, habitualmente, punham a correspondência, estava uma carta… Era um grande sobrescrito timbrado com um brasão a ouro…&lt;br /&gt;É estranho que, num minuto culminante como este, eu pudesse reparar em tais ninharias. Mas o certo foi que o brasão dourado me bailou alucinador em frente dos olhos. Entretanto não pude ver o seu desenho - vi só que era um brasão dourado e, ao mesmo tempo - coisa mais estranha —, pareceu-me que eu próprio já recebera um sobrescrito igual àquele.&lt;br /&gt;O meu amigo - ainda que preso de uma grande excitação - abriu a carta, leu-a rapidamente, e logo a amarfanhou arremessando-a para o sobrado…&lt;br /&gt;Depois, torceu-me o braço com maior violência.&lt;br /&gt;Em redor de mim tudo oscilou… Sentia-me disperso de alma e corpo entre o rodopio que me silvava… tinha receio de haver caído nas mãos de um louco…&lt;br /&gt;E numa voz ainda mais velada, mais singular, mais falsa - isto é: melhor do que nunca parecendo vir doutra garganta —, Ricardo gritava-me num delírio:&lt;br /&gt;— Vamos ver! Vamos ver!… Chegou a hora de dissipar os fantasmas… Ela é só tua! e só tua… hás-de me acreditar!… Repito-te: Foi como se a minha alma, sendo sexualizada, se materializasse para te possuir… Ela é só minha! É só minha! Só para ti a procurei… Mas não consinto que nos separe… Verás… Verás!…&lt;br /&gt;E no meio destas frases incoerentes, impossíveis, arrastava-me correndo numa fúria para os aposentos da sua esposa, que ficavam no segundo andar.&lt;br /&gt;(Pormenor curioso: nesse momento eu não tinha a sensação de que eram impossíveis as palavras que ele me dizia; apenas as julgava cheias da maior angústia…)&lt;br /&gt;Tínhamos chegado. Ricardo empurrou a porta brutalmente…&lt;br /&gt;Em pé, ao fundo da casa, diante de uma janela, Marta folheava um livro…&lt;br /&gt;A desventurada mal teve tempo para se voltar… Ricardo puxou de um revólver que trazia escondido no bolso do casaco e, antes que eu pudesse esboçar um gesto, fazer um movimento, desfechou-lho à queima-roupa…&lt;br /&gt;Marta tombou inanimada no solo… Eu não arredara pé do limiar…&lt;br /&gt;E então foi o mistério… o fantástico mistério da minha vida…&lt;br /&gt;Ó assombro! ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela, não era Marta - não! —, era o meu amigo, era Ricardo… E aos meus pés - sim, aos meus pés! - caíra o seu revólver ainda fumegante!…&lt;br /&gt;Marta, essa desaparecera, evolara-se em silêncio, como se extingue uma chama…&lt;br /&gt;Aterrado, soltei um grande grito - um grito estridente, despedaçador - e, possesso de medo, de olhos fora das órbitas e cabelos erguidos, precipitei-me numa carreira louca… por entre corredores e salões… por escadarias…&lt;br /&gt;Mas os criados acudiram.&lt;br /&gt;… Quando pude raciocinar, juntar duas ideias, em suma: quando despertei deste pesadelo alucinante, infernal, que fora só a realidade, a realidade inverosímil - achei-me preso num calabouço do governo civil, guardado à vista por uma sentinela…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 130%;"&gt;8&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Pouco mais me resta a dizer. Pudera mesmo deter-se aqui a minha confissão. Entretanto ainda algumas palavras juntarei.&lt;br /&gt;Convém passar rapidamente sobre o processo. Ele nada apresentou que valha a pena referir. Pela minha parte, nem por sombras tentei desculpar-me do crime de que era acusado. Com o inverosímil, ninguém se justifica. Por isso me calei.&lt;br /&gt;O apelo do meu advogado, brilhantíssimo. Deve ter dito que, no fundo, a verdadeira culpada do meu crime fora Marta, a qual desaparecera e que a polícia, segundo creio, procurou em vão.&lt;br /&gt;No meu crime subentenderam-se causas passionais, seguramente. A minha atitude era romanesca de esfíngica. Assim pairou sobre tudo um vago ar de mistério. Daí, a benevolência do júri.&lt;br /&gt;Entanto devo acentuar que sobre o meu julgamento conservo reminiscências muito indecisas. A minha vida ruíra toda no instante em que o revólver de Ricardo tombara aos meus pés. Em face a tão fantástico segredo, eu abismara-me. Que me fazia pois o que volteava à superfície?… Hoje, a prisão surgia-me como um descanso, um termo…&lt;br /&gt;Por isso, as longas horas fastidiosas passadas no tribunal, eu só as vi em bruma - como sobrepostas, a desenrolarem-se num cenário que não fosse precisamente aquele em que tais horas se deveriam consumar…&lt;br /&gt;Os meus "amigos" como sempre acontece, abstiveram-se: nem Luís de Monforte - que tanta vez me protestara a sua amizade - nem Narciso de&lt;br /&gt;Amaral, em cujo afecto eu também crera. Nenhum deles, numa palavra, me veio visitar durante o decorrer do meu processo, animar-me. Que a mim, de resto, coisa alguma me animaria.&lt;br /&gt;Porém, no meu advogado de defesa fui achar um verdadeiro amigo.&lt;br /&gt;Esqueceu-me o seu nome: apenas me recordo de que era ainda novo e de que a sua fisionomia apresentava uma semelhança notável com a de Luís de Monforte.&lt;br /&gt;Mais tarde, nas audiências, havia de observar igualmente que o juiz que me interrogava se parecia um pouco com o médico que me tinha tratado, havia oito anos, de uma febre cerebral que me levara às portas da morte.&lt;br /&gt;Curioso que o nosso espírito, sabendo abstrair de tudo numa ocasião decisiva, não deixe entanto de frisar pequenos detalhes como estes…&lt;br /&gt;Passaram velozes os meus dez anos de cárcere, já o disse.&lt;br /&gt;De resto, a vida na prisão onde cumpri a minha sentença não era das mais duras. Os meses corriam serenamente iguais.&lt;br /&gt;Tínhamos uma larga cerca onde, a certas horas, podíamos passear, sempre sob a vigilância dos guardas, que nos vigiavam misturados connosco e que às vezes até nos dirigiam a palavra.&lt;br /&gt;A cerca terminava num grande muro, um grande paredão sobre uma rua larga - melhor: sobre uma espécie de largo onde se cruzavam várias ruas.&lt;br /&gt;Em frente - pormenor que se me gravou na memória - havia um quartel amarelo (ou talvez outra prisão).&lt;br /&gt;O prazer maior de certos detidos era de se debruçarem do alto do grande muro, e olharem para a rua; isto é: para a vida. Mas os carcereiros, mal os descobriam, logo brutalmente os mandavam retirar.&lt;br /&gt;Eu poucas vezes me acercava do muro; apenas quando algum dos outros prisioneiros me chamava com insistência, por grandes gestos misteriosos, pois nada me podia interessar do que havia para lá dele.&lt;br /&gt;Mesmo, nunca soubera evitar um arrepio árido de pavor ao debruçar-me a esse paredão e ao vê-lo esgueirar-se, de uma grande altura - enegrecido, lezardento, escalavrado - sobre raros indícios de uma velha pintura amarela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca tive que me queixar dos guardas, como alguns dos meus companheiros que, em voz baixa, me contavam os maus tratos de que eram vítimas.&lt;br /&gt;E o certo é que, às vezes, se ouviam de súbito, ao longe, uns gritos estranhos - ora roucos, ora estridentes. E um dia um prisioneiro mulato - decerto um mistificador — disse-me que o tinham vergastado sem dó nem piedade com umas vergastas horríveis - frias como água gelada, acrescentara na sua língua de trapos…&lt;br /&gt;Aliás, eu com raros dos outros prisioneiros me misturava. Eram – via-se bem - criaturas pouco recomendáveis, sem ilustração nem cultura, vindas por certo dos bas-fonds do vício e do crime.&lt;br /&gt;Apenas me aprazia durante as horas de passeio na grande cerca, falando com um rapaz louro, muito distinto, alto e elançado. Confessou-me que expiava igualmente um crime de assassínio. Matara a sua amante: uma cantora francesa, célebre, que trouxera para Lisboa.&lt;br /&gt;Para ele como para mim, também a vida parara - ele vivera também o momento culminante a que aludi na minha advertência. Falávamos por sinal muita vez desses instantes grandiosos, e ele então referia-se à possibilidade de fixar, de guardar, as horas mais belas da nossa vida - fulvas de amor ou de angústia - e assim poder vê-las, ressenti-las. Contara-me que fora essa a sua maior preocupação na vida - a arte da sua vida…&lt;br /&gt;Escutando-o, o novelista acordava dentro de mim. Que belas páginas se escreveriam sobre tão perturbador assunto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* * *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, mas não quero insistir mais sobre a minha vida no cárcere, que nada tem de interessante para os outros, nem mesmo para mim.&lt;br /&gt;Os anos voaram. Devido à minha serenidade, à minha resignação, todos me tratavam com a maior simpatia e me olhavam carinhosamente. Os próprios directores, que muitas vezes nos chamavam aos seus gabinetes ou eles próprios nos visitavam, a conversar connosco, a fazerem-nos perguntas tinham por mim as maiores atenções.&lt;br /&gt;… Até que um dia chegou o termo da minha pena e as portas do cárcere se me abriram…&lt;br /&gt;Morto, sem olhar um instante em redor de mim, logo me afastei para esta vivenda rural, isolada e perdida, donde nunca mais arredarei pé.&lt;br /&gt;Acho-me tranquilo - sem desejos, sem esperanças. Não me preocupa o futuro. O meu passado, ao revê-lo, surge-me como o passado de um outro.&lt;br /&gt;Permaneci, mas já não me sou. E até à morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em minha face… A morte real - apenas um sono mais denso…&lt;br /&gt;Antes, não quis porém deixar de escrever sinceramente, com a maior simplicidade, a minha estranha aventura. Ela prova como factos que se nos afiguram bem claros são muitas vezes os mais emaranhados; ela prova como um inocente, muita vez, se não pode justificar, porque a sua justificação é inverosímil - embora verdadeira.&lt;br /&gt;Assim eu, para que lograsse ser acreditado, tive primeiro que expiar, em silêncio, durante dez anos, um crime que não cometi…&lt;br /&gt;A vida…&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 85%;"&gt;27 Setembro 1913 — Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIM&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/473026477073219210-1528440419676947750?l=grandesuperficiecultural.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/feeds/1528440419676947750/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2005/08/confissao-de-lucio.html#comment-form' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/1528440419676947750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/1528440419676947750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2005/08/confissao-de-lucio.html' title='A Confissão de Lúcio'/><author><name>admin</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-473026477073219210.post-8473074041962679163</id><published>2005-04-19T05:18:00.000-07:00</published><updated>2010-12-08T05:19:09.105-08:00</updated><title type='text'>Porque não sou cristão</title><content type='html'>&lt;i&gt;Bertrand Russell&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Como afirmou o vosso Presidente, o tema que irei versar esta noite é ― Porque não sou cristão[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN1"&gt;1&lt;/a&gt;]. Convém, de início, procurar estabelecer o que se entende pela palavra cristão. Ela é usada nos nossos dias num sentido vago por um grande número de pessoas. Alguns aplicam-na a todo aquele que procura levar uma vida virtuosa. Nesse sentido, suponho que se encontrariam cristãos em todas as seitas e em todas as crenças, razão por que penso que não constitua o melhor significado para essa palavra, pois implicaria que todas as pessoas que não são cristãs ― budistas, maometanas, confucionistas e outras ― não pudessem levar uma vida virtuosa.&lt;br /&gt;Não entendo por cristão quem procura viver de modo convincente e de harmonia com a razão. Penso que é necessária uma certa dose de determinada crença antes de ter o direito de se intitular cristão. De qualquer modo, a palavra não tem o rico sentido que possuía no tempo de Santo Agostinho e de S. Tomás de Aquino. Nessas épocas, se alguém se confessava cristão sabia-se o que isso significava. Aceitava-se todo um conjunto de crenças estabelecidas com grande precisão e a todas as palavras dessas crenças se associava uma fé inabalável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é um cristão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos nossos dias não se passa o mesmo. É necessário ser-se um pouco mais vago no significado de cristão. Julgo, no entanto, que existem dois pontos necessários para todo aquele que se proclama como tal. O primeiro é de natureza dogmática ― ou seja, que se deve acreditar em Deus e na imortalidade. A não acreditar nesses dois princípios, penso que ninguém se poderá proclamar cristão. Depois, como o nome implica, deverá possuir-se a crença da existência de Cristo. Os maometanos, por exemplo, crêem igualmente em Deus e na imortalidade, e no entanto não se proclamam cristãos. Dever-se-á ter como base fundamental a crença de que Cristo, a não ser de essência divina, é pelo menos o melhor e o mais sábio dos homens. Se não possuís, no mínimo, esta crença na existência de Cristo, não creio que tenhais o direito de vos intitulardes cristãos.&lt;br /&gt;Sem dúvida, existe um outro sentido que se pode encontrar no Whitaker's Almanack ou nos livros de geografia, onde se declara que a população do globo se divide em cristãos, maometanos, budistas, adoradores de fetiches, etc.; e nesse sentido todos nós seremos cristãos. Os tratados de geografia englobam-nos a todos, mas esse é um critério puramente geográfico que, suponho, não deve ser considerado. De onde concluo que, quando pretendo expor por que não sou cristão, devo ater-me a outras duas ordens de razões: primeira, porque não creio em Deus e na imortalidade; segunda, porque não penso que Cristo tenha sido o melhor e o mais sábio dos homens, ainda que lhe reconheça um grau elevado de virtude moral.&lt;br /&gt;Sem os frutuosos esforços dos cépticos do passado, não me seria possível dar uma definição tão elástica de cristão. Como já afirmei, antigamente esta palavra possuía um sentido mais rico. Incluía, por exemplo, a crença no Inferno. A crença num fogo infernal, eterno, foi um princípio essencial da fé cristã até uma época relativamente recente. No nosso país, como deveis saber, deixou de constituir um princípio essencial depois da decisão do Privy Council, que os Arcebispos de Canterbury e de York não reconheceram; mas como no nosso país a religião é determinada pela lei do Parlamento, o Privy Council pôde sobrepor-se à opinião dos Arcebispos. Assim, a crença no Inferno deixou de ser necessária para se ser cristão, razão por que não insistirei nela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A existência de Deus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abordar a questão da existência de Deus, eis uma grande e séria questão, e se me determinasse tratá-la de modo adequado, seria necessário reter-vos aqui até à chegada do reino de Deus. Por isso, espero que me desculpareis por a tratar de um modo um tanto sumário. Sabeis, naturalmente, que a Igreja Católica erigiu em dogma que a existência de Deus pode ser demonstrada pela via racional. É um dogma assaz curioso mas não deixa de o ser. Tornou-se necessário introduzi-lo porque em determinado momento os livre-pensadores adoptaram o hábito de declarar que existiam este e aquele argumentos racionais contra a existência de Deus e que a aceitação dessa existência era matéria de fé. Os argumentos e as razões foram expostos minuciosamente e a Igreja Católica entendeu que lhes devia pôr um ponto final. E adoptou mais esse princípio de que a existência de Deus pode ser demonstrada pela simples via racional, e ela própria estabeleceu o que considerava como argumentos dessa prova. São sem dúvida bastantes, mas contentar-me-ei em invocar alguns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento da causa primeira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento da causa primeira é talvez o mais simples e o de mais fácil compreensão. (Mantém que tudo o que existe no mundo tem uma causa, e que percorrendo a cadeia de causas se chegará fatalmente à causa primeira, a que se dá o nome de Deus). Este argumento, suponho, não pesa demasiado na nossa época, porque, entretanto, a noção de causa não é a mesma de outrora. Os filósofos e cientistas têm estudado esse conceito e ele não possui actualmente a força que se lhe atribuía; mas, no entanto, podereis verificar que o argumento da causa primeira é daqueles que não possui qualquer validade. Devo dizer-vos que, quando era jovem e debatia estes problemas muito seriamente comigo próprio, aceitei por largo tempo o argumento da causa primeira, até que um dia, pelos meus dezoito anos, lendo a Autobiografia de Stuart Mill, descobri esta frase: "Meu pai ensinou-me que a pergunta "Quem me criou?" não comporta qualquer resposta porque imediatamente ela levantaria outra interrogação: "Quem criou Deus?" Esta frase tão simples revelou-me, como ainda creio, a falácia do argumento da causa primeira. Se tudo deve ter uma causa também Deus a deve possuir; e se algo existe sem causa tanto pode ser o mundo como Deus ― razão da inutilidade desse argumento. Ocorre-me a história do indiano que afirmava estar o mundo assente num elefante e este sobre uma tartaruga; e quando se pergunta: "E a tartaruga?" o indiano responde: "E se mudássemos de assunto?" Na verdade o argumento não tem mais valor do que este.&lt;br /&gt;Não há razão para que o mundo não tenha nascido sem causa; nem, além disso, e por outro lado, que não tenha existido sempre. A ideia de que as coisas devem ter um começo é uma opinião resultante da pobreza da nossa imaginação. Assim não me parece ser necessário ocupar mais tempo com o argumento da causa primeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento da lei natural&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir, há o argumento muito conhecido da lei natural. Foi um argumento muito em voga ao longo do século XVIII, especialmente devido à influência de Isaac Newton e da sua cosmogonia. Observavam-se os planetas que giram à volta do Sol segundo a lei da gravitação, e pensava-se que Deus tinha dado ordem para se movimentarem nessa trajectória, razão por que a efectuavam. Essa era, naturalmente, uma explicação fácil e simples que evitava o trabalho de procurar uma explicação para a lei da gravitação.&lt;br /&gt;Actualmente, explicamos a lei da gravitação de um modo um pouco mais complicado, de harmonia com o que Einstein nos ensinou. Não me proponho fazer uma conferência sobre a interpretação einsteiniana dessa lei porque nos ocuparia bastante tempo; em todo o caso, já se não aceita essa espécie de lei natural que fazia parte do sistema newtoniano, onde, por uma razão que se compreendia, a natureza se comportava de modo uniforme. Muitas coisas que considerávamos como leis naturais são actualmente demonstradas como constituindo puras convenções humanas. Sabeis que mesmo no mais longínquo ponto do espaço sideral uma jarda é igual a três pés. É, sem dúvida, um facto importante mas que dificilmente poderá ser classificado como lei da natureza. E quantas coisas mais, tidas como leis da natureza, são do mesmo género?&lt;br /&gt;Por outro lado, até onde chega o nosso conhecimento real sobre os átomos, descobris que eles se encontram muito menos submetidos a leis do que se pensava, e que as leis estabelecidas são apenas médias estatísticas que lembram justamente aquelas que dependem do acaso. Existe, e todos nós a conhecemos, uma lei segundo a qual, no lançamento de dados, o doble de seis sai apenas uma vez sobre trinta e seis, sem que se conceba esse facto como prova de que essa combinação obedeça a qualquer projecto; ao contrário, se o doble de seis saísse sempre é que pensaríamos que se tratava de coisa determinada! A maior parte das leis, da natureza são desse género. São médias estatísticas como aquelas leis que dependem do acaso, o que transforma todo este assunto das leis naturais numa coisa menos extraordinária do que anteriormente se pensava.&lt;br /&gt;Além desta verificação, demonstrativa do carácter epocal da ciência, susceptível de mudança de rumo, a própria ideia segundo a qual as leis da natureza implicam um legislador, resulta duma confusão entre a chamada lei natural e a lei humana. Esta, ordena que vos conduzais de certo modo, embora possais conformar-vos com isso ou adoptar não o fazer; mas as leis naturais são uma descrição do modo como a realidade efectivamente se comporta, e pelo facto delas serem uma simples descrição da sua acção real não torna necessário sustentar que deva existir alguém que imponha essa prescrição. A ser necessário isso, teríamos então que responder à seguinte interrogação: Qual a razão por que Deus prescreveu precisamente estas leis naturais e não outras? Se dizeis que Ele assim fez porque quis, sem qualquer razão, passareis então a admitir que existe alguma coisa não submetida a leis, rompendo-se, então, o vosso encadeamento de leis naturais. Mas se afirmais, como o fazem os teólogos ortodoxos, que em todas as leis feitas por Ele havia uma razão para impor estas e não outras ― razão que seria naturalmente a de criar o melhor dos mundos, ainda que isso nos pareça duvidoso ― concluiremos, então, que há uma causa para as leis impostas por Deus. E Deus teria sido Ele próprio submetido a uma lei, não havendo qualquer vantagem em o ter introduzido como intermediário. Ter-se-á estabelecido uma lei exterior e anterior às ordens divinas, pelo que Deus não serve os propósitos de primeiro legislador. Em resumo: o argumento de lei natural não é tão consistente como se pretendia. Estou a tentar seguir uma ordem cronológica na revisão dos argumentos a favor da existência de Deus, dado que eles têm mudado de harmonia com os tempos. Foram de início argumentos difíceis, intelectuais, comportando determinados sofismas. A medida que nos aproximamos da época actual, tornam-se intelectualmente menos respeitáveis e cada vez mais afectados por uma espécie de imprecisão moralizante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento do plano ou teleológico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O degrau seguinte desta exposição leva-nos ao argumento do plano. Conheceis esse argumento: tudo no mundo está disposto de modo a nele podermos viver, e se o mundo fosse diferente, ainda que ligeiramente, não seria possível essa existência. Tal é o argumento do plano ou teleológico. Ele assume por vezes uma forma bastante curiosa; por exemplo, sustenta-se que os coelhos têm a cauda branca para facilmente serem descobertos pelo caçador. Não sei o que os coelhos pensariam desta aplicação do argumento. Conheceis aquela reflexão de Voltaire de que o nariz foi visivelmente concebido de forma a poder segurar os óculos. Este género de paródia não estava longe do alvo, tanto quanto se podia pensar no séc. XVIII, porque depois de Darwin sabemos melhor porque os seres vivos se adaptam ao mundo que os cerca. Não foi o meio ambiente criado para se adaptar a eles, mas sim os seres que evoluíram de modo a ele se adaptarem ― este, o fundamento da adaptação. A prova do plano não tem aplicação neste caso.&lt;br /&gt;Quando se examina de perto este argumento do plano, é surpreendente verificar-se que alguém possa acreditar que este mundo, com tudo aquilo que encerra, com os seus defeitos, tenha que ser o melhor que um ser omnipotente e omnisciente tenha podido criar ao longo de milhões de anos. Não o posso aceitar. Imaginai que sois omnipotentes e omniscientes e vos são dados milhões de anos para aperfeiçoar o mundo, ― não vos seria possível criar nada de melhor do que a Ku-Klux-Klan ou o Fascismo? Além disso, se aceitais as leis ordinárias da ciência, deveis supor que a vida do homem, e a vida em geral, desaparecerá em devido tempo em todo este planeta: é uma etapa do declínio do sistema solar. Numa determinada fase do declínio, chegar-se-á a um conjunto de condições de temperatura e outras, inadequadas ao protoplasma e haverá vida por pouco tempo em todo o sistema solar. Vê-se na Lua o exemplo do que acontecerá na Terra ― alguma coisa de morto, de frio, de desértico.[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN*"&gt;*&lt;/a&gt;]&lt;br /&gt;Dir-se-á que esta opinião é deprimente e que as pessoas seriam incapazes de continuar a viver se dela participassem. Não acredito nisso; é uma pura tolice. Ninguém se preocupará verdadeiramente pelo que acontecerá daqui a milhões de anos. Mesmo que o afirmem, enganam-se a si próprias. As razões dos seus cuidados são mais imediatas, ou resultam simplesmente duma má digestão; na verdade, ninguém ficará seriamente preocupado ao pensar num acontecimento que se produzirá neste mundo daqui a milhões e milhões de anos. Por isso, ainda que seja lúgubre supor-se que a vida desaparecerá ― suponho que se possa dizer isso, ainda que por vezes, quando considero o que as pessoas fazem da sua vida, chegue a pensar que isso constitui uma consolação ― esse sentimento não é suficiente para tornar a vida miserável. Simplesmente, obriga a nossa atenção a voltar-se para outros assuntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento moral a favor da divindade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abordámos mais uma etapa daquilo a que poderia chamar o rebaixamento intelectual que os deístas mostraram nos seus argumentos e chegamos agora ao capítulo dos chamados argumentos intelectuais a favor da existência de Deus. Sabeis, naturalmente, que existem três argumentos intelectuais a favor da existência de Deus e que todos foram refutados por Kant na Crítica da Razão Pura; mas logo que os refutou inventou um novo, um argumento moral que acreditou ser inabalável. Agiu como muitos outros: no domínio da inteligência era um céptico, mas no campo da moral acreditou implicitamente em máximas que tinha bebido com o leite materno. O que ilustra uma particularidade a que os psicanalistas atribuem tanta importância: a influência exercida sobre nós pelas recordações da primeira infância é extraordinariamente mais forte do que as recordações mais recentes.&lt;br /&gt;Kant, como disse, inventou um novo argumento moral a favor da existência de Deus que, sob formas diferentes foi extremamente usado ao longo do século XIX. Teve toda a espécie de formas. Uma delas consistia em afirmar que não haveria o mal ou o bem se Deus não existisse. De momento, não importa a questão de saber se há alguma diferença entre o bem e o mal, ou se ela não existe: este é um outro problema. O que me interessa agora é que, a existir essa diferença, sereis colocados perante uma nova questão: essa distinção será ou não devida a um decreto de Deus? No caso afirmativo não haverá, para Deus, qualquer distinção entre o bem e o mal e, nesse caso, não constituirá declaração sensata o afirmar-se que Deus é bom. Se dizeis como os teólogos que Deus é bom, torna-se necessário que o bem e o mal tenham uma significação independente dum decreto de Deus, porque as leis de Deus serão boas e não más, independentemente do facto de serem ditadas por Ele. A ser assim, declarais implicitamente que não é pela intervenção de Deus que existem o bem e o mal, mas que as suas essências são logicamente anteriores a Deus. Podeis, sem dúvida, se o desejardes, afirmar que existe uma divindade superior que impôs ordens ao Deus que criou o mundo ou, seguindo o exemplo dos gnósticos[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN2"&gt;2&lt;/a&gt;] ― partido que muitas vezes tenho considerado como bastante plausível ― afirmar que o mundo, tal e qual o conhecemos, foi criado por um demónio num momento em que Deus estava distraído. Isto poderia ser discutido longamente mas não estou interessado em refutar tal ponto de vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O argumento da reparação da injustiça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe ainda uma outra forma muito curiosa do argumento moral, que é: a existência de Deus é necessária para introduzir a justiça neste mundo. Nesta parte do universo que conhecemos reina uma grande injustiça: quantas vezes sofre o justo, prospera o mau e mal se sabe qual destes dois casos é o mais perturbador; mas, se se pretende que a justiça reine no conjunto do universo, é necessário supor uma vida futura capaz de estabelecer o equilíbrio da existência cá na terra. Portanto, diz-se, é necessário que exista um Deus, um paraíso e um inferno para que reine a justiça. É um argumento muito curioso. Se o considero dum ponto de vista científico, direi: "Afinal de contas, apenas conheço este mundo. Nada sei do resto do universo, mas na medida em que me é permitido raciocinar à base das probabilidades, direi que este mundo constitui um belo exemplo e que, se a injustiça reina nele, é quase certo que a injustiça reinará igualmente nos outros". Suponhamos que recebeis um cabaz de laranjas e, ao abri-las, descobris que as de cima estão apodrecidas. Por certo que não direis: "Debaixo devem estar sãs para que o equilíbrio seja restabelecido", mas sim: "É provável que tudo esteja estragado". É exactamente assim que raciocinaria um cientista em face do universo. Diria: "Verificamos neste mundo uma quantidade de injustiças e essa é uma razão para se supor que a justiça o não governa; e, consequentemente, tanto quanto compreendo, isso constitui um argumento contra uma divindade e não a seu favor". Sem dúvida, sei que este género de argumentos intelectuais não convence realmente as pessoas. O que as persuade a acreditar em Deus não é um argumento intelectual mas, geralmente, acredita-se porque se criou o hábito de o fazer desde criança.&lt;br /&gt;E penso que a razão que imediatamente se segue é o desejo de segurança, uma espécie de aspiração à existência de um irmão mais velho que olhe por nós. Isto desempenha um papel muito profundo e leva as pessoas a desejarem acreditar em Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A personalidade de Cristo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desejo agora dizer algumas palavras sobre um assunto que penso não ter sido tratado convenientemente pelos Racionalistas. É o problema de saber se Cristo foi o melhor e o mais sábio dos homens. Geralmente admite-se que todos devemos estar de acordo com isso. Pela minha parte não o admito, embora existam muitos aspectos sobre os quais estou de acordo com Cristo e talvez em maior número do que os praticantes cristãos. Penso que não poderei segui-lo em tudo mas irei mais longe do que a maior parte dos cristãos. Recordais que Ele disse: "Tendes ouvido dizer: olho por olho e dente por dente. Eu porém digo-vos que não resistais ao que vos fizer mal; mas se alguém te ferir na tua face direita, oferece-lhe também a outra".[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN3"&gt;3&lt;/a&gt;] Este não é um preceito ou um princípio novo. Foi usado por Lao-Tsé[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN4"&gt;4&lt;/a&gt;] e Buda alguns cinco ou seis séculos antes de Cristo, embora não seja um princípio a que os cristãos se submetam verdadeiramente. Não duvido que o actual Primeiro Ministro[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN5"&gt;5&lt;/a&gt;], por exemplo, seja um cristão muito sincero, mas não aconselho nenhum dos presentes a dar-lhe uma bofetada. Estou certo que descobriria que ele apenas atribui a esse texto um significado simbólico.&lt;br /&gt;Há uma outra máxima que tenho como excelente. Recordais que Cristo disse: "Não queirais julgar, para não serdes julgados"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN6"&gt;6&lt;/a&gt;]. Não acredito que encontreis este princípio nos tribunais das nações cristãs. Cristo disse também: "Dá a quem te pede e não te esquives ao que te pede emprestado"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN7"&gt;7&lt;/a&gt;]. É um bom princípio.&lt;br /&gt;O nosso Presidente lembrou que não estamos aqui para falar de política, mas não posso deixar de observar a luta das últimas eleições gerais.&lt;br /&gt;Há igualmente uma outra máxima de Cristo que me parece importante, mas que julgo não estar muito em voga entre os nossos amigos cristãos. Diz o seguinte: "Se queres ser perfeito, vende os teus bens, e dá-os aos pobres"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN8"&gt;8&lt;/a&gt;]. Eis uma excelente máxima mas que não é muito praticada! Todas elas são, ao que penso, excelentes ― ainda que seja bem difícil viver de acordo com elas. Não pretendo segui-las, mas no fim de contas o caso é diferente para um cristão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imperfeições nos ensinamentos de Cristo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de ter reconhecido a excelência dessas máximas, vejamos outros textos onde se não manifesta a extraordinária sabedoria e suprema bondade que os Evangelhos atribuem a Cristo, omissão feita ao problema da historicidade do personagem. Com efeito, é muito duvidoso que Cristo tenha existido e, se existiu, nada podemos afirmar da sua vida como certo, razão por que não estou interessado nessa difícil questão histórica. Reporto-me apenas ao Cristo tal qual aparece nos Evangelhos e aceito estes como nos são apresentados ― e lá descobriremos afirmações que não nos parecem de grande sabedoria.&lt;br /&gt;Entre outras coisas, Cristo pensava que o seu segundo advento se efectuaria entre nuvens de glória e ainda durante a vida dos seus contemporâneos. Existem numerosos textos que o atestam. Diz ele, por exemplo: "Não acabareis de percorrer as cidades de Israel, sem que o Filho do homem tenha chegado"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN9"&gt;9&lt;/a&gt;]. E adiante afirma: "Muitos dos que aqui estão não conhecerão a morte sem que vejam o Filho do homem voltar na majestade do seu reino"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN10"&gt;10&lt;/a&gt;]. Há muitas outras passagens onde é bem evidente que acreditou num segundo advento ainda em vida daqueles que o escutavam. De resto essa era a crença dos seus primeiros discípulos e constituía a base de uma grande parte dos seus ensinamentos morais. Quando diz: "Não vos inquieteis com o dia de amanhã"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN11"&gt;11&lt;/a&gt;], e outras palavras do mesmo género, é porque tinha para breve esse segundo advento e, portanto, decretava o desinteresse pelos negócios terrenos. Conheci um Padre que assustou as suas ovelhas ao afirmar que esse advento estaria eminente, mas sentiram-se mais confortadas quando o viram plantar árvores no seu jardim. Os primeiros cristãos, porque tomavam à letra este género de oráculos, abstiveram-se evidentemente de tais iniciativas porque Cristo os tinha persuadido de que era eminente essa segunda vinda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema moral&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos versar agora os problemas morais. Quanto a mim há um sério defeito na moral de Cristo, que é a sua crença no inferno. Não posso admitir que uma pessoa profundamente humana possa acreditar num castigo eterno.&lt;br /&gt;Ora Cristo, tal como o descrevem os Evangelhos, acreditava nesse castigo e descobrem-se muitas frases que testemunham um furor vingativo contra aqueles que não aceitavam a sua doutrina ― atitude que pode estar de harmonia com um pregador mas que prejudicará a reputação dum ser a quem se atribui uma perfeição extraordinária. Se comparardes Jesus a Sócrates, por exemplo, verificareis que o filósofo era suave e cortês para quem se recusava a escutá-lo. Ao que penso, é muito mais próprio dum sage adoptar essa linha de conduta do que deixar-se dominar pela indignação. Recordem-se as palavras de Sócrates no momento da sua morte e aquelas que correntemente dirigia aos que estavam em desacordo consigo.&lt;br /&gt;Nos Evangelhos ouvireis Cristo exprimir-se deste modo: "Serpentes, raça de víboras, como podereis escapar ao castigo do inferno?"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN12"&gt;12&lt;/a&gt;] Isto era dirigido às pessoas que não apreciavam as suas palavras. Infelizmente, são muitas as imprecações do mesmo estilo, no que se refere ao inferno, nesses textos sagrados. Especialmente, cito aquele que se aplica ao pecado cometido contra o Espírito Santo: "Todo aquele que fala contra o Espírito Santo, não terá perdão neste mundo ou no outro"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN13"&gt;13&lt;/a&gt;]. Este texto tem provocado no mundo um número indizível de tormentos. Não aceito que um ser possuindo um grama de bondade natural fosse capaz de instaurar no mundo crenças e terrores deste género.&lt;br /&gt;Cristo diz ainda: "O Filho do homem enviará os seus anjos que arrancarão do seu reino todos os escândalos e aqueles que cometerem o mal, lançando-os na fornalha de fogo, onde haverá choros e ranger de dentes"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN14"&gt;14&lt;/a&gt;]. E obstina-se em falar de choros e ranger de dentes, versículo após versículo, parecendo evidente aos leitores que Cristo considerava tudo isso sem qualquer desgosto. Se tal não correspondesse à verdade, essas palavras não apareceriam tantas vezes. Por certo que estais recordados do episódio das ovelhas e das cabras. Aquando o segundo advento, Jesus separará as ovelhas das cabras e dirá a estas: "Afastai-vos de mim, malditas, e ide para o fogo eterno"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN15"&gt;15&lt;/a&gt;]. E prossegue: "Se o teu pé é para ti uma oportunidade de pecado, corta-o; porque é melhor entrares na vida eterna coxo, do que, tendo os dois pés, seres lançado no fogo do inferno, o fogo que nunca será extinto; onde os vermes não morrem e o fogo jamais é extinto"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN16"&gt;16&lt;/a&gt;].&lt;br /&gt;As repetições não cessam. Devo dizer que considero toda esta doutrina, segundo a qual o fogo do inferno é a punição do pecado, como a doutrina da crueldade, doutrina que introduziu a crueldade no mundo e tem justificado séculos de torturas. O Cristo dos Evangelhos, tal como os seus Apóstolos o apresentam, deve ser considerado como parcialmente responsável por esses acontecimentos.&lt;br /&gt;Entre outros casos de menor importância há o dos porcos de Gadarena. Não é das atitudes mais gentis introduzir demónios nestes animais e fazê-los precipitar no mar, do alto de uma colina[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN17"&gt;17&lt;/a&gt;]. Não era Jesus todo poderoso e não podia simplesmente afastar os demónios? Mas preferiu alojá-los nos porcos.&lt;br /&gt;Há também a curiosa história da figueira que não tem deixado de me intrigar. Sabeis o que aconteceu com a figueira. "E, ao outro dia, como saíssem de Bethânia, teve fome; e vendo ao longe uma figueira coberta de folhas avançou para ver se encontrava algum fruto. Aproximou-se então da árvore mas encontrou apenas folhas porque não era ainda a estação dos figos. E Jesus disse então para ela: que jamais alguém coma do teu fruto... e Pedro disse para Jesus: Mestre, olhai! A figueira que haveis amaldiçoado secou"[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN18"&gt;18&lt;/a&gt;].&lt;br /&gt;Esta é uma história muito curiosa, visto não ser a época própria dos figos e não ser possível responsabilizá-la. Penso que em matéria de sabedoria ou de virtude, Cristo não está tão alto como outras figuras históricas. Nesses aspectos colocarei acima dele Buda ou Sócrates.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O factor emocional&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como já disse, não acredito que o motivo que leva as pessoas a aceitar uma religião tenha alguma coisa a ver com o raciocínio. Aceitam uma religião por motivos emocionais. Afirma-se muitas vezes que é prejudicial atacar uma religião, porque ela torna os homens virtuosos. Confesso que não estou convencido disso. Conheceis, por certo, a paródia que Samuel Butler fez deste argumento no seu livro Erewhon Revisited[&lt;a href="http://www.filedu.com/#FN19"&gt;19&lt;/a&gt;]. Estais recordados de que um certo Higgs chegou a uma remota região onde passa algum tempo e depois se escapa num balão. Vinte anos depois, tendo aí regressado, ficou surpreendido ao deparar com um novo culto no qual ele próprio era adorado sob o nome de Filho do Sol. Recorde-se que, com efeito, ele subiu aos céus. Estava para breve a celebração da Festa da Ascensão, quando ouviu os prosélitos Hanky e Panky, altos dignitários da religião dos Filhos do Sol, confidenciar um ao outro que nunca tinham visto o chamado Higgs e que esperavam que jamais isso acontecesse. Cheio de indignação, aproximou-se e disse-lhes: "Vou esclarecer neste dia toda esta mistificação e dizer ao povo de Erewhon que eu, Higgs, sou apenas um homem como os outros e que, simplesmente, me servi dum balão para deixar o vosso país". Responderam-lhe: "Não faças isso, porque todos os princípios morais deste povo estão ligados a esse mito, e se souberem que não subiste ao céu, transformar-se-ão todos em malfeitores". Persuadido, abandonou o país silenciosamente.&lt;br /&gt;Em face desse preceito, seremos todos pecadores se não observarmos os mandamentos da religião cristã. Parece-me que o povo que se sente seguro das suas crenças se torna muito mais perverso. Facto curioso: quanto mais fervorosa foi a religião numa determinada época e mais profundo o dogmatismo, tanto maior foi a crueldade e pior o estado do mundo. Nos séculos em que a fé foi mais viva e em que os homens aceitaram a religião cristã na sua integridade, tivemos a Inquisição e as torturas. Penso nos milhões de mulheres queimadas como sacrílegas e em todos os horrores de que a religião foi o pretexto.&lt;br /&gt;Basta relembrar a história mundial para nos apercebermos que o progresso, em todos os domínios (humanização da guerra, brandura na escravatura, comportamento para com as pessoas de cor), foi constantemente contrariado pela oposição das Igrejas, quaisquer que sejam. Eu afirmo, pesando bem as minhas palavras, que a religião cristã, tal qual é estabelecida nas suas igrejas, foi e continua a ser a principal inimiga do progresso moral do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como as Igrejas têm retardado o progresso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode ser que penseis que sou demasiado ousado quando faço essa afirmação. Julgo que não. Tomemos um exemplo. Não será agradável referi-lo mas a atitude das pessoas religiosas obriga-nos a isso. Suponhamos que, neste mundo em que hoje vivemos, uma adolescente sem experiência se casa, sem o saber, com um sifilítico. Neste caso, a Igreja proclama: "O casamento é um sacramento indissolúvel; obriga-vos a manter a união para toda a vida". E esta mulher nada pode fazer para impedir que dela nasçam crianças sifilíticas. Tal é o ponto de vista da Igreja Católica. Ninguém poderá sustentar, a menos que tenha o coração absolutamente fechado ao sofrimento dos outros, que seja conveniente e justo que um tal estado de coisas se deva perpetuar.&lt;br /&gt;Isto não é mais do que um exemplo. Existem ainda muitos outros domínios onde a Igreja, pelo controlo que exerce sobre aquilo a que lhe apraz chamar moralidade, impõe gratuitamente sofrimentos inúteis a um grande número de seres humanos. E sem dúvida, sabemo-lo, manifesta-se como adversária de todo o progresso quando se trata de diminuir o sofrimento neste mundo. Sob o nome de moralidade, etiquetou uma série de regras de conduta que brilham pela sua estreiteza e que nada têm a ver com a felicidade do homem; e quando se diz que é necessário fazer isto ou aquilo em vista à felicidade da humanidade, ela responde que nada tem a ver com o assunto: "A finalidade da moral não é a felicidade das pessoas".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O temor, base da religião&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A religião é fundamentada primeiramente e sobretudo no temor. Por um lado é o terror perante o desconhecido, por outro o desejo de sentir uma espécie de irmão mais velho que esteja ao nosso lado quando nos sentimos receosos ou em dificuldades. O temor é a base deste problema ― temor do misterioso, temor do malogro, temor da morte. E o temor engendra a crueldade, razão por que a vemos de mãos dadas com a religião. O temor está na base de uma e de outra. Neste mundo, começámos a compreender as coisas, a dominá-las um pouco com a ajuda da ciência ― que vai abrindo caminho pouco a pouco apesar da oposição da religião cristã, das Igrejas em geral e de todas as superstições. A ciência pode ajudar-nos a vencer esse covarde terror em que a humanidade tem vivido durante tantas gerações; a ciência pode ensinar-nos, e penso que o nosso próprio coração nos pode também ajudar, a não mais procurar apoios imaginários à nossa volta, a não mais forjar aliados nos céus, mas a concentrar todos os nossos esforços aqui na terra, a fim de fazer deste mundo um lugar onde se possa viver agradavelmente, ao contrário do que têm feito todas as Igrejas através dos séculos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que devemos fazer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devemo-nos manter de pé com os nossos próprios meios e olhar francamente para o mundo ― ver os seus aspectos bons, seus aspectos maus, suas belezas e suas fealdades; olhar para o mundo tal qual ele é, sem pavor. Conquistar o mundo pela inteligência e não nos deixarmos subjugar como escravos do terror. Todo o conceito de Deus é tirado do velho despotismo oriental. É uma concepção absolutamente indigna de homens livres. Quando sei de pessoas que se curvam nas igrejas confessando-se miseráveis pecadoras, e tudo o mais, tenho isso como desprezível, incompatível com o respeito que devemos a nós próprios. Devemos, ao contrário, olhar o mundo francamente e no seu rosto. Devemos melhorar este mundo e, se ele não é tão bom quanto desejávamos, que ele seja melhor do que o construído no passado pelos outros. Um mundo à nossa medida exige saber, bondade e coragem; não exige uma intensa nostalgia do passado, nem o acorrentar da livre inteligência aos entraves impostos pelas fórmulas que os antigos ignorantes inventaram. O que uma perspectiva do futuro desligada do terror exige é uma visão clara das realidades. O que exige a esperança no futuro não é o refluxo constante a um passado morto, que, estamos certos, será em muito ultrapassado pelo futuro que a nossa inteligência é capaz de criar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;Tradução de Mário Alves e Gaspar Barbosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL1"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Esta conferência foi pronunciada em 6 de Março de 1927, na Câmara Municipal de Battersea, sob os auspícios da South London Branch of the National Secular Society.&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL2"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;2&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Movimento herético que se estendeu ao Cristianismo, logo no seu primeiro século. De Gnôsis (conhecimento), afirma a possibilidade de os seus discípulos conhecerem os ensinamentos secretos de Jesus (N. do T.).&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL3"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;3&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] S. Mateus, V, 38 e 39. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL4"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;4&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Controverso primeiro chefe do movimento taoísta na China, séc. VI antes de Cristo. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL5"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;5&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Stanley Baldwin.&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL6"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;6&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] S. Mateus, VII, 1. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL7"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;7&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Ibid., V, 21. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL8"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;8&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] S. Mateus, XIX, 21. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL9"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;9&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Ibid., X, 23. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL10"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;10&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Ibid., XVI. 28. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL11"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;11&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] S. Mateus, VI, 34. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL12"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;12&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] S. Mateus, XXIII, 33. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL13"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;13&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Ibid., XII, 32. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL14"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;14&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Ibid., XIII, 41-42. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL15"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;15&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] S. Mateus, XXV, 41. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL16"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;16&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] S. Marcos, IX, 44 e 45. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL17"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;17&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Referência ao episódio narrado em S. Marcos. V, 1 a 20. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL18"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;18&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] S. Marcos, X1, 12 a 21. (N. do T.)&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL19"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;19&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Regresso a Erewhon. (N. do T.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.filedu.com/#FNCALL*"&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family: trebuchet ms; font-size: 85%;"&gt;] Previsão confirmada quase quarenta anos depois com a 1.ª viagem à Lua. N. T. (2.ª edição).&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 78%;"&gt;Bertrand Russell, &lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.geocities.com/brasilia_pt/serie-estudos-sociais-filosoficos.htm#porque-nao-sou-cristao" target="_blank"&gt;&lt;span style="font-size: 78%;"&gt;Porque não sou cristão&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: 78%;"&gt;, Brasília Editora, Porto, sd, pp. 11-32.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: 78%;"&gt;in &lt;a href="http://www.didacticaeditora.pt/arte_de_pensar/leituras.html"&gt;http://www.didacticaeditora.pt/arte_de_pensar/leituras.html&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/473026477073219210-8473074041962679163?l=grandesuperficiecultural.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/feeds/8473074041962679163/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2005/04/porque-nao-sou-cristao.html#comment-form' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/8473074041962679163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/8473074041962679163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2005/04/porque-nao-sou-cristao.html' title='Porque não sou cristão'/><author><name>admin</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-473026477073219210.post-1015374488748327448</id><published>2005-03-22T05:06:00.000-08:00</published><updated>2010-12-08T05:07:06.544-08:00</updated><title type='text'>A Minha Certidão</title><content type='html'>&lt;i&gt;João César Monteiro&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Nasci aos 2 de Fevereiro de 1939, na Figueira da Foz.&lt;br /&gt;Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada pelo espirito, chamemos-lhe assim, da 1 ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista.&lt;br /&gt;Por volta dos 16 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos.&lt;br /&gt;Tendo finalmente conseguido dissipar toda a fortuna na satisfação de brutais apetites, o meu garboso pai veio a falecer vitimado por cruel ataque cardíaco, deixando-me, perplexo e sem um chavo, a coçar a cabeça. Era chegada a hora de dar o corpinho ao manifesto, como a maior parte das pessoas. Filho que era de meu pai, atravessei senhorialmente muitos e variados empregos, mas em breve me apercebi que já não podia olhar o mundo da mesma maneira. Fui até Paris para ensaiar até onde me era possível ir. Não me era possível ir muito longe. Meses depois, «ayant connu pas mal de choses», era repatriado.&lt;br /&gt;Em 1960, encontrei o Sr. Seixas Santos que teve a bondade de me ensinar um pouco do muito que sabe de cinema. O Sr. Vasconcelos andava ao mesmo e parecia fazer progressos que, infelizmente (para ele), o futuro ainda não comprovou.&lt;br /&gt;No ano seguinte, trabalhei como assistente de realização do Sr. Perdigão Queiroga e admito que poderia ter aprendido mais qualquercoisinha se não tivesse sido tão presunçoso.&lt;br /&gt;Em 1963, na injusta qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gu1benkian, parti para Londres e fim de frequentar a London School of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório: é que de facto os ingleses não nasceram para o cinema. Aliás, ainda não percebi muito bem para que é que os ingleses nasceram. Deve com certeza ser pela mesma razão que nasceram os percevejos, as baratas e o pão integral, vulgo pão que o diabo amassou. A estadia em Londres, essa foi extremamente divertida, sobretudo no salutar plano das doces amizades; contudo, no regresso à Pátria, o meu pavoroso aproveitamento escolar foi muito sentido, como vergonhosa acção, por provincianas carpideiras a quem nunca passará pelas cabeças, tão chorosas dos mal gastos dinheirinhos da Gulbenkian, que a estupidez e e incompetência assentam arraiais em qualquer parte do mundo, inclusive no coração de Londres, sob o pomposo nome de London School of Film Technique.&lt;br /&gt;Em 1965, conheci o Paulo Rocha e os seus «Verdes Anos», o Fernando Lopes e o seu «Belarmino». Tomei-me de amizade pelo Fernando e de amores pelo filme do senhor Rocha, cujos hábitos de anacoreta o tornavam pouco acessível.&lt;br /&gt;Nesse mesmo ano, tentei pôr de pé um projecto de filme em 16 m/m, intitulado «Quem espera por sapatos de defunto morre descalços». Dois dias de filmagens e rabinho entre as pernas. Falta de xis. Esse ano negro não findaria, no entanto, sem que deixasse a meio o primeiro filme publicitário que me enfiaram nas unhas: de como, graças ao Não-sei-quê, fazer desaparecer em três penadas o mau cheiro do sovaco, e me internassem num hospício para acalmar as febres.&lt;br /&gt;De novo na vida civil, os meus excessos ultra-românticos, temperados pela mais nobre profundidade sentimental, tiveram enfim (ai filhas de Sidon) a justa consagração, o que não me livrou de amouchar durante um ano, como escriba de Filmes Castello Lopes, Lda.&lt;br /&gt;Em 1968, após um reconfortante período em que descobri que mães há muitas e pai só um, o celeste, dei mostras de, para além do instinto de conservação, possuir muitos outros bons instintos e fui finalmente recomendado ao produtor Ricardo Malheiro. Foi, pois, na mais desregrada euforia que fiz o filmezinho sobre Dona Sophia. Pouco tempo volvido (ó desgraça!), o Malheiro ia à falência ou, o que vinha a dar ao mesmo, a falência ia ao Malheiro. Sem grande proveito, tentei ainda a publicidade. Desesperadamente. Três ou quatro filmes, uma viagem, hélas! à Guiné, e disse.&lt;br /&gt;No ano seguinte, estimulado por algumas boas vontades (saudades), resolvi repegar no projecto «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço», cujas filmagens se arrastaram ao longo de dois anos. Numa altura em que eu já deitava o filme pelos olhos, a Fundação Gu1benkian concedeu-me (obrigadinho) um subsidio de $$$$$$$$$$$$$$$$... 180 contos, divididos em 3 prestações. Aqui, tive a tentação de dar uma volta. Pedi ao Vasconcelos para filmar dois planos que faltavam ainda ao filme, e fui. Itália e a inevitável Paris. Esgotada a finança, voltei para acabar o filme, receber a última prestação e partir outra vez, ora de comboio, ora à boleia, consoante a inspiração: Barcelona, Marselha, Florença, Milão, Como, Cernobbio, Paris.&lt;br /&gt;Entretanto, o filme começou por ser relativamente mal recebido junto do Mecenas (quereriam ópera por 180 contos?), continuou, pateado num festival no Sul de Espanha e foi friamente acolhido pelos críticos presentes em Nice, aquando da chamada Semaine du Jeune Cinéma Portugais. Foi pena, porque me teria dado jeito, sobretudo no que toca à fruição de algumas benesses locais, mas já que não pôde ser, paciência! Tirando isso, aproveitei a estadia niceoise para comprar um lindo fato de banho de duas peças com a nota de 100 francos que o João Bénard me emprestou e ameacei partir uma garrafa de tinto na cabeça do Cunha Teles que, impensadamente, me chamou oportunista. Não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário, mas ser insultado por um manhoso negociante é coisa que me põe fora de mim. Detesto a promiscuidade e ensinaram-me a guardar escrupulosamente as distâncias. Por uma única e bem simples exigência: a de manter intacta e intocada e minha pessoa, para além da consciência de todos os meus erros e imperfeições. Levo, as mais das vezes, esta fantochada com o riso no costado, mas não é por acaso que, cada vez mais, me dou com menos pessoas.&lt;br /&gt;Arrumados definitivamente os «Sapatos» iniciei, no Verão passado, «A Sagrada Família», que espero terminar por um destes dias. Presumo que não lhe estará reservada melhor sorte que a do filme anterior, mas devo confessar que a considero uma experiência relativamente importante, se não, e com certeza que não, no plano global de um cinema português, pelo menos, no plano particular do meu próprio cinema e na exacta medida em que, por um lado, discute e corrige dialècticamente o filme anterior e, por outro, prepara já o filme seguinte.&lt;br /&gt;O filme seguinte chama-se «A Tempestade», baseia-se no poema dramático de Shakespeare e na ópera de Purcell e será perpetrado numa Arrábida pintada a Robbialac se, como se espera, a edilidade local não levantar intransponíveis obstáculos. Quanto mais não seja, há que atender aos relevantes serviços que a prestimosa tinta, que é só a que mais pinta e que mais dura, tem prestado ao colorido da Nação.&lt;br /&gt;Que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, que a vida está má para os pobres. Depois que, nisto ou naquilo, vivemos todos muito ocupados, inclusive na falta de ocupação. Por último, que enquanto, pela parte que me toca, passo o tempo, como agora e aqui, a acariciar o meu dilatado egozinho e a fornecer de mim imagens razoavelmente aliciantes, como estas, existem pessoas bem mais obscuras que, discreta e devotadamente se vão ocupando de mim e do meu glorioso destino o que, aliás, não é novo. Parece que tem sido uma constante da História.&lt;br /&gt;Assim sendo, resta-me reconhecer a solidão moral de uma prática cinematográfica cavada na dupla recusa de ser uma espécie de carro de aluguer da classe mais favorecida e, o que é mais grave, de trocar essa profunda exigência por toda e qualquer forma de demagogia neo-fadista que transporte e venda a miserável ilusão de servir outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 78%;"&gt;Texto auto-biográfico pilhado à revista &amp;amp; ETC (Nº8, 30/Abril/1973)&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/473026477073219210-1015374488748327448?l=grandesuperficiecultural.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/feeds/1015374488748327448/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2005/03/minha-certidao.html#comment-form' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/1015374488748327448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/1015374488748327448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2005/03/minha-certidao.html' title='A Minha Certidão'/><author><name>admin</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-473026477073219210.post-8496085367774828192</id><published>2005-03-05T05:04:00.001-08:00</published><updated>2010-12-08T05:05:53.956-08:00</updated><title type='text'>Auto da Barca do Inferno</title><content type='html'>Gil Vicente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Auto de moralidade composto por Gil Vicente por contemplação da sereníssima e muito católica rainha Lianor, nossa senhora, e representado por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei Manuel, primeiro de Portugal deste nome.&lt;br /&gt;Começa a declaração e argumento da obra. Primeiramente, no presente auto, se fegura que, no ponto que acabamos de espirar, chegamos supitamente a um rio, o qual per força havemos de passar em um de dous batéis que naquele porto estão, scilicet, um deles passa pera o paraíso e o outro pera o inferno: os quais batéis tem cada um seu arrais na proa: o do paraíso um anjo, e o do inferno um arrais infernal e um companheiro.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro intrelocutor é um Fidalgo que chega com um Paje, que lhe leva um rabo mui comprido e üa cadeira de espaldas. E começa o Arrais do Inferno ante que o Fidalgo venha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO À barca, à barca, houlá!&lt;br /&gt;que temos gentil maré!&lt;br /&gt;- Ora venha o carro a ré!&lt;br /&gt;COMPANHEIRO Feito, feito!&lt;br /&gt;Bem está!&lt;br /&gt;Vai tu muitieramá,&lt;br /&gt;e atesa aquele palanco&lt;br /&gt;e despeja aquele banco,&lt;br /&gt;pera a gente que virá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À barca, à barca, hu-u!&lt;br /&gt;Asinha, que se quer ir!&lt;br /&gt;Oh, que tempo de partir,&lt;br /&gt;louvores a Berzebu!&lt;br /&gt;- Ora, sus! que fazes tu?&lt;br /&gt;Despeja todo esse leito!&lt;br /&gt;COMPANHEIRO Em boa hora! Feito, feito!&lt;br /&gt;DIABO Abaixa aramá esse cu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faze aquela poja lesta&lt;br /&gt;e alija aquela driça.&lt;br /&gt;COMPANHEIRO Oh-oh, caça! Oh-oh, iça, iça!&lt;br /&gt;DIABO Oh, que caravela esta!&lt;br /&gt;Põe bandeiras, que é festa.&lt;br /&gt;Verga alta! Âncora a pique!&lt;br /&gt;- Ó poderoso dom Anrique,&lt;br /&gt;cá vindes vós?... Que cousa é esta?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem o Fidalgo e, chegando ao batel infernal, diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIDALGO Esta barca onde vai ora,&lt;br /&gt;que assi está apercebida?&lt;br /&gt;DIABO Vai pera a ilha perdida,&lt;br /&gt;e há-de partir logo ess'ora.&lt;br /&gt;FIDALGO Pera lá vai a senhora?&lt;br /&gt;DIABO Senhor, a vosso serviço.&lt;br /&gt;FIDALGO Parece-me isso cortiço...&lt;br /&gt;DIABO Porque a vedes lá de fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIDALGO Porém, a que terra passais?&lt;br /&gt;DIABO Pera o inferno, senhor.&lt;br /&gt;FIDALGO Terra é bem sem-sabor.&lt;br /&gt;DIABO Quê?... E também cá zombais?&lt;br /&gt;FIDALGO E passageiros achais&lt;br /&gt;pera tal habitação?&lt;br /&gt;DIABO Vejo-vos eu em feição&lt;br /&gt;pera ir ao nosso cais...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIDALGO Parece-te a ti assi!...&lt;br /&gt;DIABO Em que esperas ter guarida?&lt;br /&gt;FIDALGO Que leixo na outra vida&lt;br /&gt;quem reze sempre por mi.&lt;br /&gt;DIABO Quem reze sempre por ti?!..&lt;br /&gt;Hi, hi, hi, hi, hi, hi, hi!...&lt;br /&gt;E tu viveste a teu prazer,&lt;br /&gt;cuidando cá guarecer&lt;br /&gt;por que rezam lá por ti?!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embarca - ou embarcai...&lt;br /&gt;que haveis de ir à derradeira!&lt;br /&gt;Mandai meter a cadeira,&lt;br /&gt;que assi passou vosso pai.&lt;br /&gt;FIDALGO Quê? Quê? Quê? Assi lhe vai?!&lt;br /&gt;DIABO Vai ou vem! Embarcai prestes!&lt;br /&gt;Segundo lá escolhestes,&lt;br /&gt;assi cá vos contentai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois que já a morte passastes,&lt;br /&gt;haveis de passar o rio.&lt;br /&gt;FIDALGO Não há aqui outro navio?&lt;br /&gt;DIABO Não, senhor, que este fretastes,&lt;br /&gt;e primeiro que expirastes&lt;br /&gt;me destes logo sinal.&lt;br /&gt;FIDALGO Que sinal foi esse tal?&lt;br /&gt;DIABO Do que vós vos contentastes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIDALGO A estoutra barca me vou.&lt;br /&gt;Hou da barca! Para onde is?&lt;br /&gt;Ah, barqueiros! Não me ouvis?&lt;br /&gt;Respondei-me! Houlá! Hou!...&lt;br /&gt;(Pardeus, aviado estou!&lt;br /&gt;Cant'a isto é já pior...)&lt;br /&gt;Oue jericocins, salvanor!&lt;br /&gt;Cuidam cá que são eu grou?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANJO Que quereis?&lt;br /&gt;FIDALGO Que me digais,&lt;br /&gt;pois parti tão sem aviso,&lt;br /&gt;se a barca do Paraíso&lt;br /&gt;é esta em que navegais.&lt;br /&gt;ANJO Esta é; que demandais?&lt;br /&gt;FIDALGO Que me leixeis embarcar.&lt;br /&gt;Sou fidalgo de solar,&lt;br /&gt;é bem que me recolhais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANJO Não se embarca tirania&lt;br /&gt;neste batel divinal.&lt;br /&gt;FIDALGO Não sei porque haveis por mal&lt;br /&gt;que entre a minha senhoria...&lt;br /&gt;ANJO Pera vossa fantesia&lt;br /&gt;mui estreita é esta barca.&lt;br /&gt;FIDALGO Pera senhor de tal marca&lt;br /&gt;nom há aqui mais cortesia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venha a prancha e atavio!&lt;br /&gt;Levai-me desta ribeira!&lt;br /&gt;ANJO Não vindes vós de maneira&lt;br /&gt;pera entrar neste navio.&lt;br /&gt;Essoutro vai mais vazio:&lt;br /&gt;a cadeira entrará&lt;br /&gt;e o rabo caberá&lt;br /&gt;e todo vosso senhorio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ireis lá mais espaçoso,&lt;br /&gt;vós e vossa senhoria,&lt;br /&gt;cuidando na tirania&lt;br /&gt;do pobre povo queixoso.&lt;br /&gt;E porque, de generoso,&lt;br /&gt;desprezastes os pequenos,&lt;br /&gt;achar-vos-eis tanto menos&lt;br /&gt;quanto mais fostes fumoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO À barca, à barca, senhores!&lt;br /&gt;Oh! que maré tão de prata!&lt;br /&gt;Um ventozinho que mata&lt;br /&gt;e valentes remadores!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz, cantando:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vós me veniredes a la mano,&lt;br /&gt;a la mano me veniredes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIDALGO Ao Inferno, todavia!&lt;br /&gt;Inferno há i pera mi?&lt;br /&gt;Oh triste! Enquanto vivi&lt;br /&gt;não cuidei que o i havia:&lt;br /&gt;Tive que era fantesia!&lt;br /&gt;Folgava ser adorado,&lt;br /&gt;confiei em meu estado&lt;br /&gt;e não vi que me perdia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Venha essa prancha! Veremos&lt;br /&gt;esta barca de tristura.&lt;br /&gt;DIABO Embarque vossa doçura,&lt;br /&gt;que cá nos entenderemos...&lt;br /&gt;Tomarês um par de remos,&lt;br /&gt;veremos como remais,&lt;br /&gt;e, chegando ao nosso cais,&lt;br /&gt;todos bem vos serviremos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIDALGO Esperar-me-ês vós aqui,&lt;br /&gt;tornarei à outra vida&lt;br /&gt;ver minha dama querida&lt;br /&gt;que se quer matar por mi.&lt;br /&gt;Dia, Que se quer matar por ti?!...&lt;br /&gt;FIDALGO Isto bem certo o sei eu.&lt;br /&gt;DIABO Ó namorado sandeu,&lt;br /&gt;o maior que nunca vi!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIDALGO Como pod'rá isso ser,&lt;br /&gt;que m'escrevia mil dias?&lt;br /&gt;DIABO Quantas mentiras que lias,&lt;br /&gt;e tu... morto de prazer!...&lt;br /&gt;FIDALGO Pera que é escarnecer,&lt;br /&gt;quem nom havia mais no bem?&lt;br /&gt;DIABO Assi vivas tu, amém,&lt;br /&gt;como te tinha querer!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FIDALGO Isto quanto ao que eu conheço...&lt;br /&gt;DIABO Pois estando tu expirando,&lt;br /&gt;se estava ela requebrando&lt;br /&gt;com outro de menos preço.&lt;br /&gt;FIDALGO Dá-me licença, te peço,&lt;br /&gt;que vá ver minha mulher.&lt;br /&gt;DIABO E ela, por não te ver,&lt;br /&gt;despenhar-se-á dum cabeço!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ela hoje rezou,&lt;br /&gt;antre seus gritos e gritas,&lt;br /&gt;foi dar graças infinitas&lt;br /&gt;a quem a desassombrou.&lt;br /&gt;FIDALGO Cant'a ela, bem chorou!&lt;br /&gt;DIABO Nom há i choro de alegria?..&lt;br /&gt;FIDALGO E as lástimas que dezia?&lt;br /&gt;DIABO Sua mãe lhas ensinou...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrai, meu senhor, entrai:&lt;br /&gt;Ei la prancha! Ponde o pé...&lt;br /&gt;FIDALGO Entremos, pois que assi é.&lt;br /&gt;DIABO Ora, senhor, descansai,&lt;br /&gt;passeai e suspirai.&lt;br /&gt;Em tanto virá mais gente.&lt;br /&gt;FIDALGO Ó barca, como és ardente!&lt;br /&gt;Maldito quem em ti vai!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz o Diabo ao Moço da cadeira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Nom entras cá! Vai-te d'i!&lt;br /&gt;A cadeira é cá sobeja;&lt;br /&gt;cousa que esteve na igreja&lt;br /&gt;nom se há-de embarcar aqui.&lt;br /&gt;Cá lha darão de marfi,&lt;br /&gt;marchetada de dolores,&lt;br /&gt;com tais modos de lavores,&lt;br /&gt;que estará fora de si...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À barca, à barca, boa gente,&lt;br /&gt;que queremos dar à vela!&lt;br /&gt;Chegar ela! Chegar ela!&lt;br /&gt;Muitos e de boamente!&lt;br /&gt;Oh! que barca tão valente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem um Onzeneiro, e pergunta ao Arrais do Inferno, dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ONZENEIRO Pera onde caminhais?&lt;br /&gt;DIABO Oh! que má-hora venhais,&lt;br /&gt;onzeneiro, meu parente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como tardastes vós tanto?&lt;br /&gt;ONZENEIRO Mais quisera eu lá tardar...&lt;br /&gt;Na safra do apanhar&lt;br /&gt;me deu Saturno quebranto.&lt;br /&gt;DIABO Ora mui muito m'espanto&lt;br /&gt;nom vos livrar o dinheiro!...&lt;br /&gt;ONZENEIRO Solamente para o barqueiro&lt;br /&gt;nom me leixaram nem tanto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Ora entrai, entrai aqui!&lt;br /&gt;ONZENEIRO Não hei eu i d'embarcar!&lt;br /&gt;DIABO Oh! que gentil recear,&lt;br /&gt;e que cousas pera mi!...&lt;br /&gt;ONZENEIRO Ainda agora faleci,&lt;br /&gt;leixa-me buscar batel!&lt;br /&gt;DIABO Pesar de Jam Pimentel!&lt;br /&gt;Porque não irás aqui?...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ONZENEIRO E pera onde é a viagem?&lt;br /&gt;DIABO Pera onde tu hás-de ir.&lt;br /&gt;ONZENEIRO Havemos logo de partir?&lt;br /&gt;DIABO Não cures de mais linguagem.&lt;br /&gt;ONZENEIRO Mas pera onde é a passagem?&lt;br /&gt;DIABO Pera a infernal comarca.&lt;br /&gt;ONZENEIRO Dix! Nom vou eu tal barca.&lt;br /&gt;Estoutra tem avantagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai-se à barca do Anjo, e diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hou da barca! Houlá! Hou!&lt;br /&gt;Haveis logo de partir?&lt;br /&gt;ANJO E onde queres tu ir?&lt;br /&gt;ONZENEIRO Eu pera o Paraíso vou.&lt;br /&gt;ANJO Pois cant'eu mui fora estou&lt;br /&gt;de te levar para lá.&lt;br /&gt;Essoutra te levará;&lt;br /&gt;vai pera quem te enganou!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ONZENEIRO Porquê?&lt;br /&gt;ANJO Porque esse bolsão&lt;br /&gt;tomará todo o navio.&lt;br /&gt;ONZENEIRO Juro a Deus que vai vazio!&lt;br /&gt;ANJO Não já no teu coração.&lt;br /&gt;ONZENEIRO Lá me fica, de rondão,&lt;br /&gt;minha fazenda e alhea.&lt;br /&gt;ANJO Ó onzena, como és fea&lt;br /&gt;e filha de maldição!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torna o Onzeneiro à barca do Inferno e diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ONZENEIRO Houlá! Hou! Demo barqueiro!&lt;br /&gt;Sabês vós no que me fundo?&lt;br /&gt;Quero lá tornar ao mundo&lt;br /&gt;e trazer o meu dinheiro.&lt;br /&gt;que aqueloutro marinheiro,&lt;br /&gt;porque me vê vir sem nada,&lt;br /&gt;dá-me tanta borregada&lt;br /&gt;como arrais lá do Barreiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Entra, entra, e remarás!&lt;br /&gt;Nom percamos mais maré!&lt;br /&gt;ONZENEIRO Todavia...&lt;br /&gt;DIABO Per força é!&lt;br /&gt;Que te pês, cá entrarás!&lt;br /&gt;Irás servir Satanás,&lt;br /&gt;pois que sempre te ajudou.&lt;br /&gt;ONZENEIRO Oh! Triste, quem me cegou?&lt;br /&gt;DIABO Cal'te, que cá chorarás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrando o Onzeneiro no batel, onde achou o Fidalgo embarcado, diz tirando o barrete:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ONZENEIRO Santa Joana de Valdês!&lt;br /&gt;Cá é vossa senhoria?&lt;br /&gt;FIDALGO Dá ò demo a cortesia!&lt;br /&gt;DIABO Ouvis? Falai vós cortês!&lt;br /&gt;Vós, fidalgo, cuidareis&lt;br /&gt;que estais na vossa pousada?&lt;br /&gt;Dar-vos-ei tanta pancada&lt;br /&gt;com um remo que renegueis!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem Joane, o Parvo, e diz ao Arrais do Inferno:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARVO Hou daquesta!&lt;br /&gt;DIABO Quem é?&lt;br /&gt;PARVO Eu soo.&lt;br /&gt;É esta a naviarra nossa?&lt;br /&gt;DIABO De quem?&lt;br /&gt;PARVO Dos tolos.&lt;br /&gt;DIABO Vossa.&lt;br /&gt;Entra!&lt;br /&gt;PARVO De pulo ou de voo?&lt;br /&gt;Hou! Pesar de meu avô!&lt;br /&gt;Soma, vim adoecer&lt;br /&gt;e fui má-hora morrer,&lt;br /&gt;e nela, pera mi só.&lt;br /&gt;DIABO De que morreste?&lt;br /&gt;PARVO De quê?&lt;br /&gt;Samicas de caganeira.&lt;br /&gt;DIABO De quê?&lt;br /&gt;PARVO De caga merdeira!&lt;br /&gt;Má rabugem que te dê!&lt;br /&gt;DIABO Entra! Põe aqui o pé!&lt;br /&gt;PARVO Houlá! Nom tombe o zambuco!&lt;br /&gt;DIABO Entra, tolaço eunuco,&lt;br /&gt;que se nos vai a maré!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARVO Aguardai, aguardai, houlá!&lt;br /&gt;E onde havemos nós d'ir ter?&lt;br /&gt;DIABO Ao porto de Lucifer.&lt;br /&gt;PARVO Ha-á-a...&lt;br /&gt;DIABO Ó Inferno! Entra cá!&lt;br /&gt;PARVO Ò Inferno?... Eramá...&lt;br /&gt;Hiu! Hiu! Barca do cornudo.&lt;br /&gt;Pêro Vinagre, beiçudo,&lt;br /&gt;rachador d'Alverca, huhá!&lt;br /&gt;Sapateiro da Candosa!&lt;br /&gt;Antrecosto de carrapato!&lt;br /&gt;Hiu! Hiu! Caga no sapato,&lt;br /&gt;filho da grande aleivosa!&lt;br /&gt;Tua mulher é tinhosa&lt;br /&gt;e há-de parir um sapo&lt;br /&gt;chantado no guardanapo!&lt;br /&gt;Neto de cagarrinhosa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Furta cebolas! Hiu! Hiu!&lt;br /&gt;Excomungado nas erguejas!&lt;br /&gt;Burrela, cornudo sejas!&lt;br /&gt;Toma o pão que te caiu!&lt;br /&gt;A mulher que te fugiu&lt;br /&gt;per'a Ilha da Madeira!&lt;br /&gt;Cornudo atá mangueira,&lt;br /&gt;toma o pão que te caiu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hiu! Hiu! Lanço-te üa pulha!&lt;br /&gt;Dê-dê! Pica nàquela!&lt;br /&gt;Hump! Hump! Caga na vela!&lt;br /&gt;Hio, cabeça de grulha!&lt;br /&gt;Perna de cigarra velha,&lt;br /&gt;caganita de coelha,&lt;br /&gt;pelourinho da Pampulha!&lt;br /&gt;Mija n'agulha, mija n'agulha!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega o Parvo ao batel do Anjo e dlz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARVO Hou da barca!&lt;br /&gt;ANJO Que me queres?&lt;br /&gt;PARVO Queres-me passar além?&lt;br /&gt;ANJO Quem és tu?&lt;br /&gt;PARVO Samica alguém.&lt;br /&gt;ANJO Tu passarás, se quiseres;&lt;br /&gt;porque em todos teus fazeres&lt;br /&gt;per malícia nom erraste.&lt;br /&gt;Tua simpreza t'abaste&lt;br /&gt;pera gozar dos prazeres.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espera entanto per i:&lt;br /&gt;veremos se vem alguém,&lt;br /&gt;merecedor de tal bem,&lt;br /&gt;que deva de entrar aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem um Sapateiro com seu avental e carregado de formas, e chega ao batel infernal, e diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SAPATEIRO Hou da barca!&lt;br /&gt;DIABO Quem vem i?&lt;br /&gt;Santo sapateiro honrado,&lt;br /&gt;como vens tão carregado?...&lt;br /&gt;SAPATEIRO Mandaram-me vir assi...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pera onde é a viagem?&lt;br /&gt;DIABO Pera o lago dos danados.&lt;br /&gt;SAPATEIRO Os que morrem confessados&lt;br /&gt;onde têm sua passagem?&lt;br /&gt;DIABO Nom cures de mais linguagem!&lt;br /&gt;Esta é a tua barca, esta!&lt;br /&gt;SAPATEIRO Renegaria eu da festa&lt;br /&gt;e da puta da barcagem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como poderá isso ser,&lt;br /&gt;confessado e comungado?!...&lt;br /&gt;DIABO Tu morreste excomungado:&lt;br /&gt;Nom o quiseste dizer.&lt;br /&gt;Esperavas de viver,&lt;br /&gt;calaste dous mil enganos...&lt;br /&gt;Tu roubaste bem trint'anos&lt;br /&gt;o povo com teu mester.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embarca, eramá pera ti,&lt;br /&gt;que há já muito que t'espero!&lt;br /&gt;SAPATEIRO Pois digo-te que nom quero!&lt;br /&gt;DIABO Que te pês, hás-de ir, si, si!&lt;br /&gt;SAPATEIRO Quantas missas eu ouvi,&lt;br /&gt;nom me hão elas de prestar?&lt;br /&gt;DIABO Ouvir missa, então roubar,&lt;br /&gt;é caminho per'aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SAPATEIRO E as ofertas que darão?&lt;br /&gt;E as horas dos finados?&lt;br /&gt;DIABO E os dinheiros mal levados,&lt;br /&gt;que foi da satisfação?&lt;br /&gt;SAPATEIRO Ah! Nom praza ò cordovão,&lt;br /&gt;nem à puta da badana,&lt;br /&gt;se é esta boa traquitana&lt;br /&gt;em que se vê Jan Antão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora juro a Deus que é graça!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai-se à barca do Anjo, e diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hou da santa caravela,&lt;br /&gt;poderês levar-me nela?&lt;br /&gt;ANJO A cárrega t'embaraça.&lt;br /&gt;SAPATEIRO Nom há mercê que me Deus faça?&lt;br /&gt;Isto uxiquer irá.&lt;br /&gt;ANJO Essa barca que lá está&lt;br /&gt;Leva quem rouba de praça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! almas embaraçadas!&lt;br /&gt;SAPATEIRO Ora eu me maravilho&lt;br /&gt;haverdes por grão peguilho&lt;br /&gt;quatro forminhas cagadas&lt;br /&gt;que podem bem ir i chantadas&lt;br /&gt;num cantinho desse leito!&lt;br /&gt;ANJO Se tu viveras dereito,&lt;br /&gt;Elas foram cá escusadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SAPATEIRO Assi que determinais&lt;br /&gt;que vá cozer ò Inferno?&lt;br /&gt;ANJO Escrito estás no caderno&lt;br /&gt;das ementas infernais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torna-se à barca dos danados, e diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SAPATEIRO Hou barqueiros! Que aguardais?&lt;br /&gt;Vamos, venha a prancha logo&lt;br /&gt;e levai-me àquele fogo!&lt;br /&gt;Não nos detenhamos mais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem um Frade com üa Moça pela mão, e um broquel e üa espada na outra, e um casco debaixo do capelo; e, ele mesmo fazendo a baixa, começou de dançar, dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRADE Tai-rai-rai-ra-rã; ta-ri-ri-rã;&lt;br /&gt;ta-rai-rai-rai-rã; tai-ri-ri-rã:&lt;br /&gt;tã-tã; ta-ri-rim-rim-rã. Huhá!&lt;br /&gt;DIABO Que é isso, padre?! Que vai lá?&lt;br /&gt;FRADE Deo gratias! Som cortesão.&lt;br /&gt;DIABO Sabês também o tordião?&lt;br /&gt;FRADE Porque não? Como ora sei!&lt;br /&gt;DIABO Pois entrai! Eu tangerei&lt;br /&gt;e faremos um serão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa dama é ela vossa?&lt;br /&gt;FRADE Por minha la tenho eu,&lt;br /&gt;e sempre a tive de meu,&lt;br /&gt;DIABO Fezestes bem, que é fermosa!&lt;br /&gt;E não vos punham lá grosa&lt;br /&gt;no vosso convento santo?&lt;br /&gt;FRADE E eles fazem outro tanto!&lt;br /&gt;DIABO Que cousa tão preciosa...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrai, padre reverendo!&lt;br /&gt;FRADE Para onde levais gente?&lt;br /&gt;DIABO Pera aquele fogo ardente&lt;br /&gt;que nom temestes vivendo.&lt;br /&gt;FRADE Juro a Deus que nom t'entendo!&lt;br /&gt;E este hábito no me val?&lt;br /&gt;DIABO Gentil padre mundanal,&lt;br /&gt;a Berzebu vos encomendo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRADE Corpo de Deus consagrado!&lt;br /&gt;Pela fé de Jesu Cristo,&lt;br /&gt;que eu nom posso entender isto!&lt;br /&gt;Eu hei-de ser condenado?!...&lt;br /&gt;Um padre tão namorado&lt;br /&gt;e tanto dado à virtude?&lt;br /&gt;Assi Deus me dê saúde,&lt;br /&gt;que eu estou maravilhado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Não curês de mais detença.&lt;br /&gt;Embarcai e partiremos:&lt;br /&gt;tomareis um par de ramos.&lt;br /&gt;FRADE Nom ficou isso n'avença.&lt;br /&gt;DIABO Pois dada está já a sentença!&lt;br /&gt;FRADE Pardeus! Essa seria ela!&lt;br /&gt;Não vai em tal caravela&lt;br /&gt;minha senhora Florença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como? Por ser namorado&lt;br /&gt;e folgar com üa mulher&lt;br /&gt;se há um frade de perder,&lt;br /&gt;com tanto salmo rezado?!...&lt;br /&gt;DIABO Ora estás bem aviado!&lt;br /&gt;FRADE Mais estás bem corregido!&lt;br /&gt;DIABO Dovoto padre marido,&lt;br /&gt;haveis de ser cá pingado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobriu o Frade a cabeça, tirando o capelo; e apareceu o casco, e diz o Frade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRADE Mantenha Deus esta c'oroa!&lt;br /&gt;DIABO ó padre Frei Capacete!&lt;br /&gt;Cuidei que tínheis barrete...&lt;br /&gt;FRADE Sabê que fui da pessoa!&lt;br /&gt;Esta espada é roloa&lt;br /&gt;e este broquel, rolão.&lt;br /&gt;DIABO Dê Vossa Reverença lição&lt;br /&gt;d'esgrima, que é cousa boa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou o frade a dar lição d'esgrima com a espada e broquel, que eram d'esgrimir, e diz desta maneira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRADE Deo gratias! Demos caçada!&lt;br /&gt;Pera sempre contra sus!&lt;br /&gt;Um fendente! Ora sus!&lt;br /&gt;Esta é a primeira levada.&lt;br /&gt;Alto! Levantai a espada!&lt;br /&gt;Talho largo, e um revés!&lt;br /&gt;E logo colher os pés,&lt;br /&gt;que todo o al no é nada!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o recolher se tarda&lt;br /&gt;o ferir nom é prudente.&lt;br /&gt;Ora, sus! Mui largamente,&lt;br /&gt;cortai na segunda guarda!&lt;br /&gt;- Guarde-me Deus d'espingarda&lt;br /&gt;mais de homem denodado.&lt;br /&gt;Aqui estou tão bem guardado&lt;br /&gt;como a palhá n'albarda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio com meia espada...&lt;br /&gt;Hou lá! Guardai as queixadas!&lt;br /&gt;DIABO Oh que valentes levadas!&lt;br /&gt;FRADE Ainda isto nom é nada...&lt;br /&gt;Demos outra vez caçada!&lt;br /&gt;Contra sus e um fendente,&lt;br /&gt;e, cortando largamente,&lt;br /&gt;eis aqui sexta feitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daqui saio com üa guia&lt;br /&gt;e um revés da primeira:&lt;br /&gt;esta é a quinta verdadeira.&lt;br /&gt;- Oh! quantos daqui feria!...&lt;br /&gt;Padre que tal aprendia&lt;br /&gt;no Inferno há-de haver pingos?!...&lt;br /&gt;Ah! Nom praza a São Domingos&lt;br /&gt;com tanta descortesia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornou a tomar a Moça pela mão, dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRADE Vamos à barca da Glória!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou o Frade a fazer o tordião e foram dançando até o batel do Anjo desta maneira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FRADE Ta-ra-ra-rai-rã; ta-ri-ri-ri-rã;&lt;br /&gt;rai-rai-rã; ta-ri-ri-rã; ta-ri-ri-rã.&lt;br /&gt;Huhá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deo gratias! Há lugar cá&lt;br /&gt;pera minha reverença?&lt;br /&gt;E a senhora Florença&lt;br /&gt;polo meu entrará lá!&lt;br /&gt;PARVO Andar, muitieramá!&lt;br /&gt;Furtaste esse trinchão, frade?&lt;br /&gt;FRADE Senhora, dá-me à vontade&lt;br /&gt;que este feito mal está.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos onde havemos d'ir!&lt;br /&gt;Não praza a Deus coa a ribeira!&lt;br /&gt;Eu não vejo aqui maneira&lt;br /&gt;senão, enfim, concrudir.&lt;br /&gt;DIABO Haveis, padre, de viir.&lt;br /&gt;FRADE Agasalhai-me lá Florença,&lt;br /&gt;e compra-se esta sentença:&lt;br /&gt;ordenemos de partir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto que o Frade foi embarcado, veio üa Alcoviteira, per nome Brízida Vaz, a qual chegando à barca infernal, diz desta maneira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BRÍZIDA Hou lá da barca, hou lá!&lt;br /&gt;DIABO Quem chama?&lt;br /&gt;BRÍZIDA Brízida Vaz.&lt;br /&gt;DIABO E aguarda-me, rapaz?&lt;br /&gt;Como nom vem ela já?&lt;br /&gt;COMPANHEIRO Diz que nom há-de vir cá&lt;br /&gt;sem Joana de Valdês.&lt;br /&gt;DIABO Entrai vós, e remarês.&lt;br /&gt;BRÍZIDA Nom quero eu entrar lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Que sabroso arrecear!&lt;br /&gt;BRÍZIDA No é essa barca que eu cato.&lt;br /&gt;DIABO E trazês vós muito fato?&lt;br /&gt;BRÍZIDA O que me convém levar.&lt;br /&gt;Día. Que é o que havês d'embarcar?&lt;br /&gt;BRÍZIDA Seiscentos virgos postiços&lt;br /&gt;e três arcas de feitiços&lt;br /&gt;que nom podem mais levar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três almários de mentir,&lt;br /&gt;e cinco cofres de enlheos,&lt;br /&gt;e alguns furtos alheos,&lt;br /&gt;assi em jóias de vestir,&lt;br /&gt;guarda-roupa d'encobrir,&lt;br /&gt;enfim - casa movediça;&lt;br /&gt;um estrado de cortiça&lt;br /&gt;com dous coxins d'encobrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mor cárrega que é:&lt;br /&gt;essas moças que vendia.&lt;br /&gt;Daquestra mercadoria&lt;br /&gt;trago eu muita, à bofé!&lt;br /&gt;DIABO Ora ponde aqui o pé...&lt;br /&gt;BRÍZIDA Hui! E eu vou pera o Paraíso!&lt;br /&gt;DIABO E quem te dixe a ti isso?&lt;br /&gt;BRÍZIDA Lá hei-de ir desta maré.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sô üa mártela tal!...&lt;br /&gt;Açoutes tenho levados&lt;br /&gt;e tormentos suportados&lt;br /&gt;que ninguém me foi igual.&lt;br /&gt;Se fosse ò fogo infernal,&lt;br /&gt;lá iria todo o mundo!&lt;br /&gt;A estoutra barca, cá fundo,&lt;br /&gt;me vou, que é mais real.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando à Barca da Glória diz ao Anjo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barqueiro mano, meus olhos,&lt;br /&gt;prancha a Brísida Vaz.&lt;br /&gt;ANJO: Eu não sei quem te cá traz...&lt;br /&gt;BRÍZIDA Peço-vo-lo de giolhos!&lt;br /&gt;Cuidais que trago piolhos,&lt;br /&gt;anjo de Deos, minha rosa?&lt;br /&gt;Eu sô aquela preciosa&lt;br /&gt;que dava as moças a molhos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a que criava as meninas&lt;br /&gt;pera os cónegos da Sé...&lt;br /&gt;Passai-me, por vossa fé,&lt;br /&gt;meu amor, minhas boninas,&lt;br /&gt;olho de perlinhas finas!&lt;br /&gt;E eu som apostolada,&lt;br /&gt;angelada e martelada,&lt;br /&gt;e fiz cousas mui divinas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Santa Úrsula nom converteu&lt;br /&gt;tantas cachopas como eu:&lt;br /&gt;todas salvas polo meu&lt;br /&gt;que nenhüa se perdeu.&lt;br /&gt;E prouve Àquele do Céu&lt;br /&gt;que todas acharam dono.&lt;br /&gt;Cuidais que dormia eu sono?&lt;br /&gt;Nem ponto se me perdeu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANJO Ora vai lá embarcar,&lt;br /&gt;não estês importunando.&lt;br /&gt;BRÍZIDA Pois estou-vos eu contando&lt;br /&gt;o porque me haveis de levar.&lt;br /&gt;ANJO Não cures de importunar,&lt;br /&gt;que não podes vir aqui.&lt;br /&gt;BRÍZIDA E que má-hora eu servi,&lt;br /&gt;pois não me há-de aproveitar!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torna-se Brízida Vaz à Barca do Inferno, dizendo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BRÍZIDA Hou barqueiros da má-hora,&lt;br /&gt;que é da prancha, que eis me vou?&lt;br /&gt;E já há muito que aqui estou,&lt;br /&gt;e pareço mal cá de fora.&lt;br /&gt;DIABO Ora entrai, minha senhora,&lt;br /&gt;e sereis bem recebida;&lt;br /&gt;se vivestes santa vida,&lt;br /&gt;vós o sentirês agora...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto que Brízida Vaz se embarcou, veo um Judeu, com um bode às costas; e, chegando ao batel dos danados, diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JUDEU Que vai cá? Hou marinheiro!&lt;br /&gt;DIABO Oh! que má-hora vieste!...&lt;br /&gt;JUDEU Cuj'é esta barca que preste?&lt;br /&gt;DIABO Esta barca é do barqueiro.&lt;br /&gt;JUDEU. Passai-me por meu dinheiro.&lt;br /&gt;DIABO E o bode há cá de vir?&lt;br /&gt;JUDEU Pois também o bode há-de vir.&lt;br /&gt;DIABO Que escusado passageiro!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JUDEU Sem bode, como irei lá?&lt;br /&gt;DIABO Nem eu nom passo cabrões.&lt;br /&gt;JUDEU Eis aqui quatro tostões&lt;br /&gt;e mais se vos pagará.&lt;br /&gt;Por vida do Semifará&lt;br /&gt;que me passeis o cabrão!&lt;br /&gt;Querês mais outro tostão?&lt;br /&gt;DIABO Nem tu nom hás-de vir cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JUDEU Porque nom irá o judeu&lt;br /&gt;onde vai Brísida Vaz?&lt;br /&gt;Ao senhor meirinho apraz?&lt;br /&gt;Senhor meirinho, irei eu?&lt;br /&gt;DIABO E o fidalgo, quem lhe deu...&lt;br /&gt;JUDEU O mando, dizês, do batel?&lt;br /&gt;Corregedor, coronel,&lt;br /&gt;castigai este sandeu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Azará, pedra miúda,&lt;br /&gt;lodo, chanto, fogo, lenha,&lt;br /&gt;caganeira que te venha!&lt;br /&gt;Má corrença que te acuda!&lt;br /&gt;Par el Deu, que te sacuda&lt;br /&gt;coa beca nos focinhos!&lt;br /&gt;Fazes burla dos meirinhos?&lt;br /&gt;Dize, filho da cornuda!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PARVO Furtaste a chiba cabrão?&lt;br /&gt;Parecês-me vós a mim&lt;br /&gt;gafanhoto d'Almeirim&lt;br /&gt;chacinado em um seirão.&lt;br /&gt;DIABO Judeu, lá te passarão,&lt;br /&gt;porque vão mais despejados.&lt;br /&gt;PARVO E ele mijou nos finados&lt;br /&gt;n'ergueja de São Gião!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E comia a carne da panela&lt;br /&gt;no dia de Nosso Senhor!&lt;br /&gt;E aperta o salvador,&lt;br /&gt;e mija na caravela!&lt;br /&gt;DIABO Sus, sus! Demos à vela!&lt;br /&gt;Vós, Judeu, irês à toa,&lt;br /&gt;que sois mui ruim pessoa.&lt;br /&gt;Levai o cabrão na trela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem um Corregedor, carregado de feitos, e, chegando à barca do Inferno, com sua vara na mão, diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORREGEDOR Hou da barca!&lt;br /&gt;DIABO Que quereis?&lt;br /&gt;CORREGEDOR Está aqui o senhor juiz?&lt;br /&gt;DIABO Oh amador de perdiz.&lt;br /&gt;gentil cárrega trazeis!&lt;br /&gt;CORREGEDOR No meu ar conhecereis&lt;br /&gt;que nom é ela do meu jeito.&lt;br /&gt;DIABO Como vai lá o direito?&lt;br /&gt;CORREGEDOR Nestes feitos o vereis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Ora, pois, entrai. Veremos&lt;br /&gt;que diz i nesse papel...&lt;br /&gt;CORREGEDOR E onde vai o batel?&lt;br /&gt;DIABO No Inferno vos poeremos.&lt;br /&gt;CORREGEDOR Como? À terra dos demos&lt;br /&gt;há-de ir um corregedor?&lt;br /&gt;DIABO Santo descorregedor,&lt;br /&gt;embarcai, e remaremos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, entrai, pois que viestes!&lt;br /&gt;CORREGEDOR Non est de regulae juris, não!&lt;br /&gt;DIABO Ita, Ita! Dai cá a mão!&lt;br /&gt;Remaremos um remo destes.&lt;br /&gt;Fazei conta que nacestes&lt;br /&gt;pera nosso companheiro.&lt;br /&gt;- Que fazes tu, barzoneiro?&lt;br /&gt;Faze-lhe essa prancha prestes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORREGEDOR Oh! Renego da viagem&lt;br /&gt;e de quem me há-de levar!&lt;br /&gt;Há 'qui meirinho do mar?&lt;br /&gt;DIABO Não há tal costumagem.&lt;br /&gt;CORREGEDOR Nom entendo esta barcagem,&lt;br /&gt;nem hoc nom potest esse.&lt;br /&gt;DIABO Se ora vos parecesse&lt;br /&gt;que nom sei mais que linguagem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entrai, entrai, corregedor!&lt;br /&gt;CORREGEDOR Hou! Videtis qui petatis -&lt;br /&gt;Super jure magestatis&lt;br /&gt;tem vosso mando vigor?&lt;br /&gt;DIABO Quando éreis ouvidor&lt;br /&gt;nonne accepistis rapina?&lt;br /&gt;Pois ireis pela bolina&lt;br /&gt;onde nossa mercê for...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oh! que isca esse papel&lt;br /&gt;pera um fogo que eu sei!&lt;br /&gt;CORREGEDOR Domine, memento mei!&lt;br /&gt;DIABO Non es tempus, bacharel!&lt;br /&gt;Imbarquemini in batel&lt;br /&gt;quia Judicastis malitia.&lt;br /&gt;CORREGEDOR Sempre ego justitia&lt;br /&gt;fecit, e bem por nivel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO E as peitas dos judeus&lt;br /&gt;que a vossa mulher levava?&lt;br /&gt;CORREGEDOR Isso eu não o tomava&lt;br /&gt;eram lá percalços seus.&lt;br /&gt;Nom som pecatus meus,&lt;br /&gt;peccavit uxore mea.&lt;br /&gt;DIABO Et vobis quoque cum ea,&lt;br /&gt;não temuistis Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A largo modo adquiristis&lt;br /&gt;sanguinis laboratorum&lt;br /&gt;ignorantis peccatorum.&lt;br /&gt;Ut quid eos non audistis?&lt;br /&gt;CORREGEDOR Vós, arrais, nonne legistis&lt;br /&gt;que o dar quebra os pinedos?&lt;br /&gt;Os direitos estão quedos,&lt;br /&gt;sed aliquid tradidistis...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Ora entrai, nos negros fados!&lt;br /&gt;Ireis ao lago dos cães&lt;br /&gt;e vereis os escrivães&lt;br /&gt;como estão tão prosperados.&lt;br /&gt;CORREGEDOR E na terra dos danados&lt;br /&gt;estão os Evangelistas?&lt;br /&gt;DIABO Os mestres das burlas vistas&lt;br /&gt;lá estão bem fraguados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estando o Corregedor nesta prática com o Arrais infernal chegou um Procurador, carregado de livros, e diz o Corregedor ao Procurador:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORREGEDOR Ó senhor Procurador!&lt;br /&gt;PROCURADOR Bejo-vo-las mãos, Juiz!&lt;br /&gt;Que diz esse arrais? Que diz?&lt;br /&gt;DIABO Que serês bom remador.&lt;br /&gt;Entrai, bacharel doutor,&lt;br /&gt;e ireis dando na bomba.&lt;br /&gt;PROCURADOR E este barqueiro zomba...&lt;br /&gt;Jogatais de zombador?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa gente que aí está&lt;br /&gt;pera onde a levais?&lt;br /&gt;DIABO Pera as penas infernais.&lt;br /&gt;PROCURADOR Dix! Nom vou eu pera lá!&lt;br /&gt;Outro navio está cá,&lt;br /&gt;muito milhor assombrado.&lt;br /&gt;DIABO Ora estás bem aviado!&lt;br /&gt;Entra, muitieramá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORREGEDOR Confessaste-vos, doutor?&lt;br /&gt;PROCURADOR Bacharel som. Dou-me à Demo!&lt;br /&gt;Não cuidei que era extremo,&lt;br /&gt;nem de morte minha dor.&lt;br /&gt;E vós, senhor Corregedor?&lt;br /&gt;CORREGEDOR Eu mui bem me confessei,&lt;br /&gt;mas tudo quanto roubei&lt;br /&gt;encobri ao confessor...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque, se o nom tornais,&lt;br /&gt;não vos querem absolver,&lt;br /&gt;e é mui mau de volver&lt;br /&gt;depois que o apanhais.&lt;br /&gt;DIABO Pois porque nom embarcais?&lt;br /&gt;PROCURADOR Quia speramus in Deo.&lt;br /&gt;DIABO Imbarquemini in barco meo...&lt;br /&gt;Pera que esperatis mais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vão-se ambos ao batel da Glória, e, chegando, diz o Corregedor ao Anjo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORREGEDOR Ó arrais dos gloriosos,&lt;br /&gt;passai-nos neste batel!&lt;br /&gt;ANJO Oh! pragas pera papel,&lt;br /&gt;pera as almas odiosos!&lt;br /&gt;Como vindes preciosos,&lt;br /&gt;sendo filhos da ciência!&lt;br /&gt;CORREGEDOR Oh! habeatis clemência&lt;br /&gt;e passai-nos como vossos!&lt;br /&gt;PARVO Hou, homens dos breviairos,&lt;br /&gt;rapinastis coelhorum&lt;br /&gt;et pernis perdigotorum&lt;br /&gt;e mijais nos campanairos!&lt;br /&gt;CORREGEDOR Oh! não nos sejais contrairos,&lt;br /&gt;pois nom temos outra ponte!&lt;br /&gt;PARVO Belequinis ubi sunt?&lt;br /&gt;Ego latinus macairos.&lt;br /&gt;ANJO A justiça divinal&lt;br /&gt;vos manda vir carregados&lt;br /&gt;porque vades embarcados&lt;br /&gt;nesse batel infernal.&lt;br /&gt;CORREGEDOR Oh! nom praza a São Marçal!&lt;br /&gt;coa ribeira, nem co rio!&lt;br /&gt;Cuidam lá que é desvario&lt;br /&gt;haver cá tamanho mal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PROCURADOR Que ribeira é esta tal!&lt;br /&gt;PARVO Parecês-me vós a mi&lt;br /&gt;como cagado nebri,&lt;br /&gt;mandado no Sardoal.&lt;br /&gt;Embarquetis in zambuquis!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORREGEDOR Venha a negra prancha cá!&lt;br /&gt;Vamos ver este segredo.&lt;br /&gt;PROCURADOR Diz um texto do Degredo...&lt;br /&gt;DIABO Entrai, que cá se dirá!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Tanto que foram dentro no batel dos condenados, disse o Corregedor a Brízida Vaz, porque a conhecia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CORREGEDOR Oh! esteis muitieramá,&lt;br /&gt;senhora Brízida Vaz!&lt;br /&gt;BRÍZIDA Já siquer estou em paz,&lt;br /&gt;que não me leixáveis lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada hora sentenciada:&lt;br /&gt;«Justiça que manda fazer....»&lt;br /&gt;CORREGEDOR E vós... tornar a tecer&lt;br /&gt;e urdir outra meada.&lt;br /&gt;BRÍZIDA Dizede, juiz d'alçada:&lt;br /&gt;vem lá Pêro de Lixboa?&lt;br /&gt;Levá-lo-emos à toa&lt;br /&gt;e irá nesta barcada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem um homem que morreu Enforcado, e, chegando ao batel dos mal-aventurados, disse o Arrais, tanto que chegou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Venhais embora, enforcado!&lt;br /&gt;Que diz lá Garcia Moniz?&lt;br /&gt;ENFORCADO Eu te direi que ele diz:&lt;br /&gt;que fui bem-aventurado&lt;br /&gt;em morrer dependurado&lt;br /&gt;como o tordo na buiz,&lt;br /&gt;e diz que os feitos que eu fiz&lt;br /&gt;me fazem canonizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Entra cá, governarás&lt;br /&gt;atá as portas do Inferno.&lt;br /&gt;ENFORCADO Nom é essa a nau que eu governo.&lt;br /&gt;DIABO Mando-te eu que aqui irás.&lt;br /&gt;ENFORCADO Oh! nom praza a Barrabás!&lt;br /&gt;Se Garcia Moniz diz&lt;br /&gt;que os que morrem como eu fiz&lt;br /&gt;são livres de Satanás...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E disse que a Deus prouvera&lt;br /&gt;que fora ele o enforcado;&lt;br /&gt;e que fosse Deus louvado&lt;br /&gt;que em bo'hora eu cá nacera;&lt;br /&gt;e que o Senhor m'escolhera;&lt;br /&gt;e por bem vi beleguins.&lt;br /&gt;E com isto mil latins,&lt;br /&gt;mui lindos, feitos de cera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no passo derradeiro,&lt;br /&gt;me disse nos meus ouvidos&lt;br /&gt;que o lugar dos escolhidos&lt;br /&gt;era a forca e o Limoeiro;&lt;br /&gt;nem guardião do moesteiro&lt;br /&gt;nom tinha tão santa gente&lt;br /&gt;como Afonso Valente&lt;br /&gt;que é agora carcereiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Dava-te consolação&lt;br /&gt;isso, ou algum esforço?&lt;br /&gt;ENFORCADO Com o baraço no pescoço,&lt;br /&gt;mui mal presta a pregação...&lt;br /&gt;E ele leva a devação&lt;br /&gt;que há-de tornar a jentar...&lt;br /&gt;Mas quem há-de estar no ar&lt;br /&gt;avorrece-lhe o sermão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Entra, entra no batel,&lt;br /&gt;que ao Inferno hás-de ir!&lt;br /&gt;ENFORCADO O Moniz há-de mentir?&lt;br /&gt;Disse-me que com São Miguel&lt;br /&gt;jentaria pão e mel&lt;br /&gt;tanto que fosse enforcado.&lt;br /&gt;Ora, já passei meu fado,&lt;br /&gt;e já feito é o burel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora não sei que é isso:&lt;br /&gt;não me falou em ribeira,&lt;br /&gt;nem barqueiro, nem barqueira,&lt;br /&gt;senão - logo ò Paraíso.&lt;br /&gt;Isto muito em seu siso.&lt;br /&gt;e era santo o meu baraço...&lt;br /&gt;Eu não sei que aqui faço:&lt;br /&gt;que é desta glória emproviso?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Falou-te no Purgatório?&lt;br /&gt;ENFORCADO Disse que era o Limoeiro,&lt;br /&gt;e ora por ele o salteiro&lt;br /&gt;e o pregão vitatório;&lt;br /&gt;e que era mui notório&lt;br /&gt;que àqueles deciprinados&lt;br /&gt;eram horas dos finados&lt;br /&gt;e missas de São Gregório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Quero-te desenganar:&lt;br /&gt;se o que disse tomaras,&lt;br /&gt;certo é que te salvaras.&lt;br /&gt;Não o quiseste tomar...&lt;br /&gt;- Alto! Todos a tirar,&lt;br /&gt;que está em seco o batel!&lt;br /&gt;- Saí vós, Frei Babriel!&lt;br /&gt;Ajudai ali a botar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vêm Quatro Cavaleiros cantando, os quais trazem cada um a Cruz de Cristo, pelo qual Senhor e acrecentamento de Sua santa fé católica morreram em poder dos mouros. Absoltos a culpa e pena per privilégio que os que assi morrem têm dos mistérios da Paixão d'Aquele por Quem padecem, outorgados por todos os Presi- dentes Sumos Pontífices da Madre Santa Igreja. E a cantiga que assi cantavam, quanto a palavra dela, é a seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CAVALEIROS À barca, à barca segura,&lt;br /&gt;barca bem guarnecida,&lt;br /&gt;à barca, à barca da vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhores que trabalhais&lt;br /&gt;pola vida transitória,&lt;br /&gt;memória , por Deus, memória&lt;br /&gt;deste temeroso cais!&lt;br /&gt;À barca, à barca, mortais,&lt;br /&gt;Barca bem guarnecida,&lt;br /&gt;à barca, à barca da vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vigiai-vos, pecadores,&lt;br /&gt;que, depois da sepultura,&lt;br /&gt;neste rio está a ventura&lt;br /&gt;de prazeres ou dolores!&lt;br /&gt;À barca, à barca, senhores,&lt;br /&gt;barca mui nobrecida,&lt;br /&gt;à barca, à barca da vida!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E passando per diante da proa do batel dos danados assi cantando, com suas espadas e escudos, disse o Arrais da perdição desta maneira:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIABO Cavaleiros, vós passais&lt;br /&gt;e nom perguntais onde is?&lt;br /&gt;1º CAVALEIRO Vós, Satanás, presumis?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atentai com quem falais!&lt;br /&gt;2º CAVALEIRO Vós que nos demandais?&lt;br /&gt;Siquer conhecê-nos bem:&lt;br /&gt;morremos nas Partes d'Além,&lt;br /&gt;e não queirais saber mais.&lt;br /&gt;DIABO Entrai cá! Que cousa é essa?&lt;br /&gt;Eu nom posso entender isto!&lt;br /&gt;CAVALEIROS Quem morre por Jesu Cristo&lt;br /&gt;não vai em tal barca como essa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornaram a prosseguir, cantando, seu caminho direito à barca da Glória, e, tanto que chegam, diz o Anjo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ANJO Ó cavaleiros de Deus,&lt;br /&gt;a vós estou esperando,&lt;br /&gt;que morrestes pelejando&lt;br /&gt;por Cristo, Senhor dos Céus!&lt;br /&gt;Sois livres de todo mal,&lt;br /&gt;mártires da Santa Igreja,&lt;br /&gt;que quem morre em tal peleja&lt;br /&gt;merece paz eternal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assi embarcam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: courier new; font-size: 78%;"&gt;Texto proveniente de:&lt;br /&gt;A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro &lt;http: www.bibvirt.futuro.usp.br=""&gt;&lt;br /&gt;A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo&lt;br /&gt;Permitido o uso apenas para fins educacionais.&lt;/http:&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: courier new; font-size: 78%;"&gt;Projecto Vercial - Literatura Portuguesa &amp;lt;&amp;gt;&lt;br /&gt;Copyright © 1996, 1997, 1998, OPSIS Multimédia &lt;http: index.html="" opsis="" www.ipn.pt=""&gt; com o apoio do Projecto Geira &lt;/http:&gt;&lt;/span&gt;&lt;a href="http://www.geira.pt/"&gt;&lt;span style="font-family: courier new; font-size: 78%;"&gt;http://www.geira.pt/&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: 78%;"&gt;NR: A Grande Superfície Cultural considera que a divulgação de um bem público como Gil Vicente é um fim educacional.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/473026477073219210-8496085367774828192?l=grandesuperficiecultural.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/feeds/8496085367774828192/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2005/03/auto-da-barca-do-inferno.html#comment-form' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/8496085367774828192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/8496085367774828192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2005/03/auto-da-barca-do-inferno.html' title='Auto da Barca do Inferno'/><author><name>admin</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-473026477073219210.post-6712196607323941193</id><published>2004-08-10T05:02:00.000-07:00</published><updated>2010-12-08T05:04:26.152-08:00</updated><title type='text'>Mensagem</title><content type='html'>&lt;em&gt;Fernando Pessoa&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;em&gt;BENEDICTUS DOMINUS DEUS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOSTER QUI DEDIT NOBIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SIGNUM&lt;/em&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="primeira_parte"&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;PRIMEIRA PARTE&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="brasao"&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;BRASÃO &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="os_campos"&gt;&lt;/a&gt;I. - OS CAMPOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;PRIMEIRO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_dos_castelos"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O DOS CASTELLOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Europa jaz, posta nos cotovellos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De oriente a Occidente jaz, fitando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E toldam-lhe romanticos cabellos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhos gregos, lembrando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cotovello esquerdo é recuado;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O direito é em angulo disposto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquelle diz Italia onde é pousado;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este diz Inglaterra onde, afastado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão sustenta, em que se appoia o rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fita, com olhar sphyngico e fatal,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Occidente, futuro do passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto que fita é Portugal.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;8-12-1928&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDO&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_das_quinas"&gt;&lt;/a&gt;O DAS QUINAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Deuses vendem quanto dão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Compra-se a gloria com desgraça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai dos felizes, porque são&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só o que passa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Baste a quem baste o que lhe basta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bastante de lhe bastar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é breve, a alma é vasta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter é tardar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com desgraça e com vileza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que Deus ao Christo definiu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim o oppoz à Natureza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Filho o ungiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8-12-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="os_castelos"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II. - OS CASTELLOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;PRIMEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="ulisses"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;ULYSSES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mytho é o nada que é tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo sol que abre os céus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um mytho brilhante e mudo –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo morto de Deus,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivo e desnudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este, que aqui aportou,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por não ser existindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem existir nos bastou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por não ter vindo foi vindo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nos creou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim a lenda se escorre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A entrar na realidade,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a fecundal-a decorre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em baixo, a vida, metade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nada, morre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="viriato"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;VIRIATO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a alma que sente e faz conhece&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só porque lembra o que esqueceu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos, raça, porque houvesse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Memoria em nós do instincto teu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nação porque reincarnaste,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Povo porque resuscitou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou tu, ou o de que eras a haste –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim se Portugal formou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu ser é como aquella fria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luz que precede a madrugada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é já o ir a haver o dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na antemanhã, confuso nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22-1-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERCEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_conde_d_henrique"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O CONDE D. HENRIQUE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo começo é involuntario.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus é o agente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O heroe a si assiste, vario&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E inconsciente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À espada em tuas mãos achada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu olhar desce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Que farei eu com esta espada?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergueste-a, e fez-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a name="d_tareja"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="center"&gt;QUARTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. TAREJA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As nações todas são mysterios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada uma é todo o mundo a sós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó mãe de reis e avós de imperios,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vella por nós!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu seio augusto amamentou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com bruta e natural certeza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que, imprevisto, Deus fadou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por elle resa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dê tua prece outro destino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A quem fadou o instincto teu!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem que foi o teu menino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envelheceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas todo vivo é eterno infante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estás e não há o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No antigo seio, vigilante,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De novo o cria!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24-9-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUINTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_afonso_henriques"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. AFONSO HENRIQUES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pae, foste cavalleiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje a vigilia é nossa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá-nos o exemplo inteiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a tua inteira força!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá, contra a hora em que, errada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novos infieis vençam,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A benção como espada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A espada como benção!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEXTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_dinis"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. DINIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite escreve um seu Cantar de Amigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O plantador de naus a haver,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ouve um silencio murmuro comsigo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o rumor dos pinhaes que, como um trigo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De Imperio, ondulam sem se poder ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arroio, esse cantar, jovem e puro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Busca o oceano por achar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a falla dos pinhaes, marulho obscuro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o som presente d’esse mar futuro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a voz da terra anciando pelo mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9-2-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEPTIMO (I)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_joao_o_primeiro"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. JOÃO O PRIMEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem e a hora são um só&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando Deus faz e a história é feita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais é carne, cujo pó&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra espreita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mestre, sem o saber, do Templo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que Portugal foi feito ser,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que houveste a gloria e deste o exemplo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De o defender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teu nome, eleito em sua fama,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, na ara da nossa alma interna,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A que repelle, eterna chamma,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sombra eterna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12-2-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEPTIMO (II)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_filipa_de_lencastre"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. PHILIPPA DE LENCASTRE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que enigma havia em teu seio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que só genios concebia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que archanjo teus sonhos veio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vellar, maternos, um dia?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volve a nós teu rosto serio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Princeza do Santo Gral,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Humano ventre do Imperio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madrinha de Portugal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26-9-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="as_quinas"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III. - AS QUINAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;PRIMEIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_duarte"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. DUARTE,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REI DE PORTUGAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A regra de ser Rei almou meu ser,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em dia e letra escrupuloso e fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Firme em minha tristeza, tal vivi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cumpri contra o Destino o meu dever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inutilmente? Não, porque o cumpri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26-9-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_fernando"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. FERNANDO,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INFANTE DE PORTUGAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu-me Deus o seu gladio, porque eu faça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua santa guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sagrou-me seu em honra e em desgraça,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às horas em que um frio vento passa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por sobre a fria terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poz-me as mãos sobre os hombros e doirou-me&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fronte com o olhar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E esta febre de Além, que me consome,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E este querer grandeza são seu nome&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro em mim a vibrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu vou, e a luz do gladio erguido dá,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em minha face calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheio de Deus, não temo o que virá,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois, venha o que vier, nunca será&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maior do que a minha alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21-7-1913&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERCEIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_pedro"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. PEDRO,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REGENTE DE PORTUGAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro em pensar, e claro no sentir,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro no querer;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indifferente ao que há em conseguir&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que seja só obter;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duplice dono, sem me dividir,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De dever e de ser –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me podia a Sorte dar guarida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por não ser eu dos seus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim vivi, assim morri, a vida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calmo sob mudos céus,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fiel à palavra dada e à idéa tida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo mais é com Deus!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15-2-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUARTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_joao_infante"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. JOÃO,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INFANTE DE PORTUGAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fui alguem. Minha alma estava estreita&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre tam grandes almas minhas pares,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inutilmente eleita,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virgemmente parada;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque é do portuguez, pae de amplos mares,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querer, poder só isto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O inteiro mar, ou a orla vã desfeita –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O todo, ou o seu nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28-3-1930&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUINTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_sebastiao_rei"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. SEBASTIÃO,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;REI DE PORTUGAL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Louco, sim, louco, porque quiz grandeza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual a Sorte a não dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não coube em mim minha certeza;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porisso onde o areal está&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficou meu ser que houve, não o que ha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha loucura, outros que me a tomem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com o que nella ia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem a loucura que é o homem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que a besta sadia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cadaver addiado que procria?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20-2-1933&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="a_coroa"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV. - A COROA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="nunalvares"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;NUNALVARES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que aureola te cerca?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a espada que, volteando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz que o ar alto perca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu azul negro e brando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que espada é que, erguida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz esse halo no céu?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É Excalibur, a ungida,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que o Rei Arthur te deu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sperança consummada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;S. Portugal em ser,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ergue a luz da tua espada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a estrada se ver!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8-12-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_timbre"&gt;&lt;/a&gt;V. - O TIMBRE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;A CABEÇA DO GRYPHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_infante_d_henrique"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O INFANTE D. HENRIQUE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seu throno entre o brilho das espheras,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com seu manto de noite e solidão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem aos pés o mar novo e as mortas eras –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O unico imperador que tem, deveras,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O globo mundo em sua mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26-9-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;UMA ASA DO GRYPHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_joao_o_segundo"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. JOÃO O SEGUNDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Braços cruzados, fita além do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece em promontorio uma alta serra –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O limite da terra a dominar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mar que possa haver além da terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu formidavel vulto solitario&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enche de estar presente o mar e o céu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E parece temer o mundo vario&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que elle abra os braços e lhe rasgue o véu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26-9-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A OUTRA ASA DO GRYPHO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="afonso_de_albuquerque"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;AFFONSO DE ALBUQUERQUE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De pé, sobre o paizes conquistados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desce os olhos cansados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De ver o mundo e a injustiça e a sorte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensa em vida ou morte,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tam poderoso que não quere o quanto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Póde, que o querer tanto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calcára mais do que o submisso mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o seu passo fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trez imperios do chão lhe a Sorte apanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Creou-os como quem desdenha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26-9-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="segunda_parte"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;SEGUNDA PARTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="mar_portugues"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;MAR PORTUGUÊS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;POSSESSIO MARIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_infante"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O INFANTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus quiz que a terra fosse toda uma,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que o mar unisse, já não separasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a orla branca foi de ilha em continente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Clareou, correndo, até ao fim do mundo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E viu-se a terra inteira, de repente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surgir, redonda, do azul profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem te sagrou creou-te portuguez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mar e nós em ti nos deu signal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cumpriu-se o Mar, e o Imperio se desfez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor, falta cumprir-se Portugal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="horizonte"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;HORIZONTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó mar anterior a nós, teus medos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinham coral e praias e arvoredos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desvendadas a noite e a cerração,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As tormentas passadas e o mysterio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abria em flor o Longe, e o Sul siderio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Splendia sobre as naus da iniciação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Linha severa da longinqua costa –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em arvores onde o Longe nada tinha;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no desembarcar, ha aves, flores,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde era só, de longe a abstracta linha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sonho é ver as fórmas invisiveis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da distancia imprecisa, e, com sensiveis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Movimentos da esprança e da vontade,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Buscar na linha fria do horizonte&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A arvore, a praia, a flor, a ave, a fonte –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os beijos merecidos da Verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="padrao"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;PADRÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O esforço é grande e o homem é pequeno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, Diogo Cão, navegador, deixei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este padrão ao pé do areal moreno&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E para deante naveguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alma é divina e a obra é imperfeita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este padrão signala ao vento e aos céus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que, da obra ousada, é minha a parte feita:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O por-fazer é só com Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ao immenso e possivel oceano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ensinam estas Quinas, que aqui vês,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que o mar com fim será grego ou romano:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mar sem fim é portuguez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a Cruz ao alto diz que o que me ha na alma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E faz a febre em mim de navegar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sé encontrará de Deus na eterna calma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O porto sempre por achar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13-9-1918&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_mostrengo"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O MOSTRENGO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mostrengo que está no fim do mar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite de breu ergueu-se a voar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À roda da nau voou trez vezes,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voou trez vezes a chiar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E disse, «Quem é que ousou entrar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas minhas cavernas que não desvendo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus tectos negros do fim do mundo?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o homem do leme disse, tremendo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«El-Rei D. João Segundo!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«De quem são as velas onde me roço?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De quem as quilhas que vejo e ouço?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Disse o mostrengo, e rodou trez vezes,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trez vezes rodou immudo e grosso,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Quem vem poder o que só eu posso,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que moro onde nunca ninguem me visse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e escorro os medos do mar sem fundo?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o homem do leme tremeu, e disse,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«El-Rei D. João segundo!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trez vezes do leme as mãos ergueu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trez vezes ao leme as reprendeu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E disse no fim de tremer trez vezes,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Aqui ao leme sou mais do que eu:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um Povo que quere o mar que é teu;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais que o mostrengo, que me a alma teme&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E roda nas trevas do fim do mundo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manda a vontade, que me ata ao leme,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De El-Rei D. João Segundo!»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9-9-1918&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="epitafio_de_bartolomeu_dias"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;EPITAPHIO DE BARTOLOMEU DIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Jaz aqui, na pequena praia extrema,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mar é o mesmo: já ninguem o tema!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atlas, mostra alto o mundo no seu hombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="os_colombos"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;OS COLOMBOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Outros haverão de ter&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que houvermos de perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros poderão achar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que, no nosso encontrar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi achado, ou não achado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo o destino dado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que a elles não toca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a Magia que evoca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Longe e faz d’elle historia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porisso a sua gloria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É justa aureola dada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uma luz emprestada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2-4-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="ocidente"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;OCCIDENTE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com duas mãos – o Acto e o Destino –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma ergue o facho tremulo e divino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a outra afasta o véu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosse a hora que haver ou a que havia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão que ao Occidente o véu rasgou,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi alma a Sciencia e corpo a Ousadia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mão que desvendou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão que ergueu o facho que luziu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi Deus a alma e o corpo Portugal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mão que o conduziu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;VIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="fernao_de_magalhaes"&gt;&lt;/a&gt;FERNÃO DE MAGALHÃES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;No valle clareia uma fogueira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma dança sacode a terra inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sombras disformes e descompostas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em clarões negros do valle vão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subitamente pelas encostas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indo perder-se na escuridão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De quem é a dança que a noite aterra?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São os Titans, os filhos da Terra,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que dançam da morte do marinheiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que quiz cingir o materno vulto –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cingil-o, dos homens, o primeiro –,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na praia ao longe por fim sepulto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dançam, nem sabem que a alma ousada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do morto ainda commanda a armada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pulso sem corpo ao leme a guiar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As naus no resto do fim do espaço:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que até ausente soube cercar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra inteira com seu abraço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Violou a Terra. Mas elles não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sabem, e dançam na solidão;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sombras disformes e descompostas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indo perder-se nos horizontes,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Galgam do valle pelas encostas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dos mudos montes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="ascensao_de_vasco_da_gama"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;ASCENSÃO DE VASCO DA GAMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Os Deuses da tormenta e os gigantes da terra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspendem de repente o odio da sua guerra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pasmam. Pelo valle onde se ascende aos céus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surge um silencio, e vae, da nevoa ondeando os véus,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro um movimento e depois um assombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ladeiam-o, ao durar, os medos, hombro a hombro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ao longe o rastro ruge em nuvens e clarões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em baixo, onde a terra é, o pastor gela, e a flauta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cahe-lhe, e em extase vê, à luz de mil trovões,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu abrir o abysmo à alma do Argonauta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10-1-1922&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;X&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="mar_portugues_poema"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;MAR PORTUGUEZ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Ó mar salgado, quanto do teu sal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São lagrimas de Portugal!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por te cruzarmos, quantas mães choraram,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantos filhos em vão resaram!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas noivas ficaram por casar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para que fosses nosso, ó mar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Valeu a pena? Tudo vale a pena&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a lama não é pequena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem quere passar além do Bojador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem que passar além da dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus ao mar o perigo e o abysmo deu,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nelle é que espelhou o céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="a_ultima_nau"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;A ULTIMA NAU&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E erguendo, como um nome, alto o pendão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Imperio,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi-se a ultima nau, ao sol aziago&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Erma, e entre choros de ancia e de presago&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mysterio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não voltou mais. A que ilha indescoberta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aportou? Voltará da sorte incerta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que teve?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus guarda o corpo e a fórma do futuro,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E breve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, quanto mais ao povo a alma falta,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais a minha alma atlantica se exalta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E entorna,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E em mim, num mar que não tem tempo ou spaço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo entre a cerração teu vulto baço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que torna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei a hora, mas sei que ha a hora,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mysterio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surges ao sol em mim, e a nevoa finda:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesma, e trazes o pendão ainda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do Imperio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;XII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="prece"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;PRECE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Senhor, a noite veio e a alma é vil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanta foi a tormenta e a vontade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Restam-nos hoje, no silencio hostil,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mar universal e a saüdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a chamma, que a vida em nós creou,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se ainda ha vida ainda não é finda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O frio morto em cinzas a occultou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão do vento pode erguel-a ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dá o sopro, a aragem – ou desgraça ou ancia –,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com que a chamma do esforço se remoça,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E outra vez conquistemos a Distancia –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mar ou outra, mas que seja nossa!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31-12-1921&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1-1-1922&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="terceira_parte"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;TERCEIRA PARTE&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_encoberto"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O ENCOBERTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;PAX IN EXCELSIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="os_simbolos"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;I. - OS SYMBOLOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;PRIMEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="d_sebastiao"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;D. SEBASTIÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sperae! Cahi no areal e na hora adversa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que Deus concede aos seus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para o intervallo em que esteja a alma immersa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sonhos que são Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que importa o areal e a morte e a desventura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se com Deus me guardei?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É O que eu me sonhei que eterno dura,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É Esse que regressarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_quinto_imperio"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O QUINTO IMPÉRIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Triste de quem vive em casa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contente com o seu lar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem que um sonho, no erguer de asa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faça até mais rubra a brasa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da lareira a abandonar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Triste de quem é feliz!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vive porque a vida dura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada na alma lhe diz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que a lição da raiz –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ter por vida a sepultura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eras sobre eras se somem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No tempo que em eras vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ser descontente é ser homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que as forças cegas se domem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela visão que a alma tem!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim, passados os quatro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempos do ser que sonhou,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra será theatro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do sai claro, que no atro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da erma noite começou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Grecia, Roma, Christandade,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Europa – os quatro se vão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para onde vae toda a edade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem vem viver a verdade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que morreu D. Sebastião?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21-2-1933&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERCEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_desejado"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O DESEJADO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde quer que, entre sombras e dizeres,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jazas, remoto, sente-se sonhando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ergue-te do fundo de não-seres&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para teu povo fado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem, Galaaz com patria, erguer de novo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já no auge da suprema prova,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A alma penitente do teu povo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À Eucharistia Nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mestre da Paz, ergue teu gladio ungido,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Excalibur do Fim, em geito tal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que sua Luz ao mundo dividido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Revele o Santo Gral!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18-1-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUARTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="as_ilhas_afortunadas"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;AS ILHAS AFORTUNADAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que voz vem no som das ondas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que não é a voz do mar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a voz de alguem que nos falla,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que, se escutamos, cala,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por ter havido escutar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E só se, meio dormindo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem saber de ouvir ouvimos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ella nos diz a esperança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A que, como uma criança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dormente, a dormir sorrimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São ilhas afortunadas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São terras sem ter logar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde o Rei mora esperando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, se vamos dispertando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cala a voz, e ha só o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26-3-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUINTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_encoberto_poema"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O ENCOBERTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que symbolo fecundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vem na aurora anciosa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Cruz Morta do Mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Vida, que é a Rosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que symbolo divino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Traz o dia já visto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Cruz, que é o Destino,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Rosa, que é o Christo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que symbolo final&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mostra o sol já disperto?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na Cruz morta e fatal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Rosa do Encoberto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21-2-1933&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11-2-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="os_avisos"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II. - OS AVISOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRIMEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="o_bandarra"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;O BANDARRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhava, anonymo e disperso,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Imperio por Deus mesmo visto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confuso como o Universo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E plebeu como Jesus Christo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi nem santo nem heroe,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Deus sagrou com Seu signal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este, cujo coração foi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não portuguez mas Portugal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28-3-1930&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="antonio_vieira"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;ANTÓNIO VIEIRA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu strella o azul e tem grandeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este, que teve a fama e à gloria tem,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imperador da lingua portuguesa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi-nos um céu tambem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No immenso espaço seu de meditar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Constellado de fórma e de visão,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surge, prenuncio claro do luar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;El-rei D. Sebastião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não, não é luar: é luz do ethereo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É um dia; e, no céu amplo de desejo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A madrugada irreal do Quinto Imperio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Doira as margens do Tejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31-7-1929&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="screvo"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;TERCEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Screvo meu livro à beira-magua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu coração não tem que ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho meus olhos quntes de agua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só tu, Senhor, me dás viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só te sentir e te pensar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus dias vacuos enche e doura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas quando quererás voltar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando é o Rei? Quando é a Hora?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando virás a ser o Christo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De a quem morreu o falso Deus,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a dispertas do mal que existo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Nova Terra e os Novos Céus?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando virás, ó Encoberto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonho das eras portuguez,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tornar-me mais que o sopro incerto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De um grande anceio que Deus fez?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah, quando quererás, voltando,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazer minha esperança amor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da nevoa e da saudade quando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando, meu Sonho e meu Senhor?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10-12-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="os_tempos"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III. - OS TEMPOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;PRIMEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="noite"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;NOITE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nau de um d’elles tinha-se perdido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mar indefinido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo pediu licença ao Rei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De, na fé e na lei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da descoberta ir em procura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do irmão no mar sem fim e a nevoa escura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tempo foi. Nem primeiro nem segundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volveu do fim profundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mar ignoto à patria por quem dera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O enigma que fizera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então o terceiro a El-Rei rogou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Licença de os buscar, e El-Rei negou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a um captivo, o ouvem a passar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os servos do solar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, quando o vêem, vêem a figura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da febre e da amargura,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com fixos olhos rasos de ancia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fitando a prohibida azul distancia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Senhor, os dois irmãos do nosso Nome –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Poder e o Renome –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ambos se foram pelo mar da edade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tua eternidade;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E com elles de nós se foi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que faz a alma poder ser de heroe,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queremos ir buscal-os, d’esta vil&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nossa prisão servil:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a busca de quem somos, na distancia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De nós; e, em febre de ancia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Deus as mãos alçamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Deus não dá licença que partamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SEGUNDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="tormenta"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;TORMENTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que jaz no abysmo sob o mar que se ergue?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós, Portugal, o poder ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que inquietação do fundo nos soergue?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desejar poder querer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto, e o mysterio de que a noite é o fausto...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas subito, onde o vento ruge,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O relampago, pharol de Deus, um hausto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brilha, e o mar scuro struge.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26-2-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;TERCEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="calma"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;CALMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que cousa é que as ondas contam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se não pode encontrar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais naus que haja no mar?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é que as ondas encontram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nunca se vê surgindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este som de o mar praiar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde é que está existindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilha proxima e remota,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nos ouvidos persiste,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para a vista não existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que nau, que armada, que frota&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode encontrar o caminho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À praia onde o mar insiste,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se à vista o mar é sòzinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haverá rasgões no espaço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que dêem para outro lado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que, um d’elles encontrado,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, onde ha só sargaço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surja uma ilha velada,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O paiz afortunado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que guarda o Rei desterrado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em sua vida encantada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15-2-1934&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;QUARTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="antemanha"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;ANTEMANHÃ&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mostrengo que está no fim do mar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Veio das trevas a procurar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A madrugada do novo dia,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do novo dia sem acabar;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E disse, «Quem é que dorme a lembrar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que desvendou o Segundo Mundo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem o Terceiro quere desvendar?»&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o som na treva de elle rodar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faz mau o somno, triste o sonhar,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rodou e foi-se o mostrengo servo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que seu senhor veio aqui buscar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que veio aqui seu senhor chamar –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chamar Aquelle que está dormindo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi outrora Senhor do Mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8-7-1933&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;QUINTO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="nevoeiro"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;NEVOEIRO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Define com perfil e ser&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este fulgor baço da terra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que é Portugal a entristecer –&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brilho sem luz e sem arder,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o que o fogo-fatuo encerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguem sabe que coisa quere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguem conhece que alma tem,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem o que é mal nem o que é bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Que ancia distante perto chora?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo é incerto e derradeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo é disperso, nada é inteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó Portugal, hoje és nevoeiro...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a Hora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10-12-1928&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="valete_fratres"&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;em&gt;Valete, Fratres&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;PS: Pronto, já cá faltava este, o épico místico-lusitano por excelência! Há quem diga que foi para elevar o nivel depois do Almada. E há quem diga que não foi por nada. Há quem diga que essa merda não tem interesse nenhum. Eu, por mim, ao ler isto e ao gostar disto, justifico-me da seguinte maneira relativamente às contradições que o poema me suscita: subscrevo a poesia, a mestria e a alma do poeta; não subscrevo a política. É mais ou menos isso e tranquiliza-me. Quanto a vós, façam como melhor vos aproveitar. Por tudo ou por nada fui buscá-lo aquele linque ali à frente, a quem agradeço o contributo nesta árdua batalha pela conquista de leitores neste país. Espalhem a palavra, como cantava o Godinho:&lt;a href="http://faroldasletras.no.sapo.pt"&gt;http://faroldasletras.no.sapo.pt&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt; &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/473026477073219210-6712196607323941193?l=grandesuperficiecultural.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/feeds/6712196607323941193/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2004/08/mensagem.html#comment-form' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/6712196607323941193'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/6712196607323941193'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2004/08/mensagem.html' title='Mensagem'/><author><name>admin</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-473026477073219210.post-8745406469216516559</id><published>2004-06-20T05:01:00.000-07:00</published><updated>2010-12-08T05:02:24.255-08:00</updated><title type='text'>Manifesto Anti-Dantas</title><content type='html'>&lt;em&gt;José de Almada Negreiros (Poeta d'Orpheu Futurista e tudo – 1915)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BASTA PUM BASTA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma geração, que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo do zero! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixo a geração! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morra o Dantas, morra! Pim! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma geração com um Dantas a Cavalo é um burro impotente! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma geração com um Dantas à proa é uma canoa em seco! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é um cigano! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é meio cigano! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesa! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é um habilidoso! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas veste-se mal! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas usa ceroulas de malha! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas especula e inocula os concubinos! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é Dantas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é Júlio! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morra o Dantas, morra! Pim! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou A Inês de Castro, ou a Leonor Teles ou o Mestre D'Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é um ciganão! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem murais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas, e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser judas! Basta ser Dantas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morra o Dantas, morra! Pim! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair... mas é preciso deitar dinheiro! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é um soneto dele-próprio! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas nu é horroroso! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas cheira mal da boca! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morra o Dantas, morra! Pim! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é o escárnio da consciência! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o Dantas é português eu quero ser espanhol. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa! O &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dantas é a meta da decadência mental! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda há quem lhe estenda a mão! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem lhe lave a roupa! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quem tenha dó do Dantas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ainda há quem duvide de que o Dantas não vale nada, e não sabe nada, e que nem é inteligente, nem decente, nem zero! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vocês não sabem quem é soror Mariana do Dantas? Eu vou lhes contar: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A princípio por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de Soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram pra português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o Bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado pouco depois o Bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o ChamiIly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Mariana que é histérica começa o chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...Vêm descendo pla dita estreitíssima escada (sic), várias Marianas todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e anda (sic) toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa. E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela vos tão fresca e maviosa da tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nós dois vultos interroga espapaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda. Quem está aí? E de candeias apagadas? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Foi o vento dizem as pobres inocentes varadas de terror... e a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é dó d'alma a ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão e sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra plo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda ha pouco vira um de cavalos a saltar pla janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pla falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo pra descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres. Depois de sérios embaraços do Bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma um pedaço d'interesse porque o bispo ora parece um polícia de investigação disfarçado em Bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um policia d'investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de um minuto o que o público já está farto de saber - que Mariana dormiu com o Noel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do Bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do Bispo no que se mostrou de um atrevimento de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr ate às grades da janela a gritar desalmadamente plo seu Noel. Grita assobia e repudia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano também cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma merdariana - aldantascufurado que tinha chiliques e exageros sexuais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estatua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do "SÉCULO" a favor dos feridos da guerra, e a praça de Camões mudada em praça do Dr. Júlio Dantas, e com festas da Cidade plos aniversários, e sabonetes em conta "Júlio Dantas" e pastas Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas... E limonadas Dantas - Magnésia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas julgais que nisto se resume a literatura portuguesa? Não! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mil vezes não! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos castelhanos pra ser a derrota do Chianca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avozinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimo excelentíssimo senhor Mello Barreto! E o Frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecilidades do Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, O Dantas do desenho! E os jornalistas do SÉCULO e da CAPITAL e do NOTÍCIAS e do PAÍS e do DIA e da NAÇÃO e da REPÚBLICA e da LUCTA e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes! E todos os artistas de Portugal que eu não gosto e os da ÁGUIA do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueredo amante do museu a AH OH os Sousa Pinto HU Hi e os burros de Cacilhas e os menus do Alfredo Guisado! E (o) raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da LUCTA a quem o Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Arte(s)! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeidas, os Camacho, os Cunha, os Carneiros, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mantua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as convicções urgentes do Homem Cristo Pai e as convicções catitas do Homem Cristo Filho!... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja Arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morra o Dantas, morra! Pim! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mais atrasado da Europa e de todo o mundo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia - se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morra o Dantas, morra! Pim!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/473026477073219210-8745406469216516559?l=grandesuperficiecultural.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/feeds/8745406469216516559/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2004/06/manifesto-anti-dantas.html#comment-form' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/8745406469216516559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/8745406469216516559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2004/06/manifesto-anti-dantas.html' title='Manifesto Anti-Dantas'/><author><name>admin</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-473026477073219210.post-4143743714319832119</id><published>2004-06-19T04:07:00.000-07:00</published><updated>2010-12-08T05:01:31.877-08:00</updated><title type='text'>Do Suicídio</title><content type='html'>&lt;em&gt;David Hume&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um benefício considerável que surge da filosofia consiste no antídoto soberano que esta fornece para a superstição e falsa religião. Todos os outros remédios para esta pestilenta doença são inúteis, ou pelo menos incertos. O simples bom senso e a experiência de vida, que são suficientes para a maior parte dos propósitos da vida, aqui revelam-se ineficazes: a história, bem como a experiência quotidiana, fornecem exemplos de homens dotados com a mais forte capacidade para negócios e afazeres que vivem escravizados pela maior superstição. Mesmo a graciosidade e a delicadeza de temperamento, que infunde um bálsamo em qualquer outra ferida, não fornece qualquer remédio para um veneno tão virulento, como se pode afirmar particularmente do belo sexo que, embora possua geralmente estas ricas dádivas da natureza, vê muitas das suas alegrias serem destruídas por este intruso inoportuno. Mas, logo que a sã filosofia se apodera da mente, a superstição é eficazmente excluída; e pode-se afirmar razoavelmente que o seu triunfo sobre este inimigo é mais completo que sobre a maior parte dos vícios e imperfeições próprios da natureza humana. O amor ou a ira, a ambição ou a avareza, têm a sua raiz no temperamento e nas afeições, coisas que a mais sã razão quase nunca é capaz de corrigir inteiramente; mas a superstição, estando baseada na falsa opinião, tem de cessar imediatamente quando a verdadeira filosofia inspira sentimentos mais justos de poderes superiores. Aqui a luta entre a doença e o remédio é mais equilibrada; e, a não ser que o segundo seja falso e enganador, nada o pode impedir de ser eficiente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria aqui supérfluo exaltar os méritos da filosofia, expondo a tendência perniciosa do vício do qual esta cura a mente humana. O homem supersticioso, diz Túlio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[1], é miserável em qualquer situação, em qualquer incidente da vida. Mesmo o próprio sono, que bane todas as outras preocupações dos infelizes mortais, fornece-lhe matéria para novos terrores enquanto examina os seus sonhos e encontra nessas visões nocturnas presságios de futuras calamidades. Posso acrescentar que, embora só a morte possa pôr fim à sua miséria, ele não se atreve a procurar esse refúgio; prolonga uma existência miserável, pois tem um receio infundado de ofender o seu criador usando o poder com o qual esse ser beneficente o dotou. As dádivas de Deus e da Natureza são-nos arrebatadas por esta inimiga cruel; e, embora esse passo nos retirasse das regiões da dor e da mágoa, as suas ameaças ainda nos acorrentam a um ser odiado, que sobretudo ela própria contribui para tornar miserável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqueles que foram reduzidos pelas calamidades da vida à necessidade de empregar este remédio fatal notam que, se a preocupação inoportuna dos seus amigos os priva daquela espécie de morte que propuseram a si próprios, raramente se aventuram a procurar qualquer outra ou conseguem reunir tanta determinação uma segunda vez, de modo a executar o seu propósito. O nosso horror à morte é tão grande que, quando esta se apresenta a um homem sob qualquer forma que não aquela com a qual ele se esforçou por reconciliar a sua imaginação, esta adquire novos terrores e supera a sua débil coragem. Mas, quando as ameaças da superstição se juntam a esta timidez natural, não é surpreendente que esta prive os homens de todo o poder sobre as suas vidas, pois mesmo muitos prazeres e deleites, aos quais somos conduzidos por uma forte propensão, são-nos arrancados por esta tirana desumana. Esforcemo-nos aqui por devolver o homem à sua liberdade nativa, examinando todos os argumentos comuns contra o suicídio e mostrando, de acordo com as opiniões de todos os filósofos antigos, que essa acção pode estar livre de qualquer imputação de culpa ou censura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se o suicídio é um crime, tem de ser uma transgressão do nosso dever em relação a Deus, aos nossos semelhantes ou a nós próprios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De modo a provar que o suicídio não é qualquer transgressão do nosso dever em relação a Deus, as seguintes considerações talvez sejam suficientes. Para governar o mundo material, o criador todo-poderoso estabeleceu leis gerais e imutáveis, pelas quais todos os corpos, do maior planeta à menor partícula de matéria, são mantidos dentro da sua esfera e função próprias. Para governar o mundo animal, ele dotou todas as criaturas vivas com poderes corporais e mentais (com sentidos, paixões, apetites, memória e a capacidade de julgar), pelos quais elas são impelidas ou reguladas no curso da vida para que estão destinadas. Cada um destes dois princípios distintos do mundo material e animal invade continuamente a esfera do outro, e cada um retarda ou apressa a operação do outro. Os poderes do homem e de todos os outros animais estão restringidos e são controlados pela natureza e qualidades dos corpos circundantes; e as modificações e acções destes corpos são incessantemente alteradas pela operação de todos os animais. O homem é detido por rios na sua passagem pela superfície da Terra; e os rios, quando são apropriadamente controlados, emprestam a sua força ao movimento das máquinas, que estão ao serviço do homem. Mas, embora as províncias dos poderes materiais e animais não se mantenham inteiramente separadas, não resulta daí qualquer desacordo ou desordem na criação; pelo contrário, a partir da mistura, união e contraste de todos os diversos poderes dos corpos inanimados e das criaturas vivas, surge essa proporção e harmonia surpreendente que fornece o argumento mais seguro a favor da sabedoria suprema. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A providência da divindade não surge imediatamente em qualquer operação, governando todas as coisas através daquelas leis gerais e imutáveis que estão estabelecidas desde o início do tempo. Todos os acontecimentos, num certo sentido, podem ser manifestações da acção do todo-poderoso; todos procedem daqueles poderes com que ele dotou as suas criaturas. A ruína de uma casa destruída pelas mãos dos homens não resulta menos da sua providência que a ruína de uma casa que cai devido ao seu próprio peso, nem as faculdades humanas resultam menos do seu trabalho que as leis do movimento e da gravitação. Quando as paixões actuam, quando a capacidade de julgar decreta, quando os membros obedecem, estamos sempre perante a operação de Deus; e sobre estes princípios animados, bem como sobre os inanimados, ele estabeleceu o governo do universo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qualquer acontecimento tem a mesma importância aos olhos desse Ser infinito, que abarca num relance as regiões mais distantes do espaço e os períodos mais remotos do tempo. Não há qualquer acontecimento, por muito importante que seja para nós, que ele tenha dispensado das leis gerais que governam o universo, ou que tenha reservado singularmente para sua acção e operação imediatas. A revolução dos estados e impérios depende do menor capricho ou paixão de um único homem; e as vidas dos homens são encurtadas ou prolongadas pelo menor acidente do ar ou da dieta, da luz solar ou da tempestade. A natureza ainda mantém o seu progresso e operação; e, se alguma vez as leis gerais são violadas por volições particulares de Deus, isso dá-se de uma maneira que escapa inteiramente à observação humana. Assim como os elementos e outras partes inanimadas da criação desenvolvem a sua acção sem considerar a situação e o interesse particulares dos homens, também os homens estão entregues aos seus próprios juízos e critérios nos vários choques da matéria, e podem utilizar qualquer faculdade com que estejam dotados para providenciar o seu conforto, felicidade ou preservação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qual é então o sentido daquele princípio segundo o qual um homem que, cansado da vida e perseguido pela dor e pela miséria, supera com bravura todos os terrores naturais da morte, e realiza a sua fuga dessa situação cruel, segundo o qual um homem, dizia, incorreu na indignação do seu criador, intrometendo-se no ofício da providência divina e perturbando a ordem do universo? Afirmaremos que o todo-poderoso reservou para si próprio, de uma maneira peculiar, a disposição das vidas dos homens, e não submeteu esse acontecimento, como todos os outros, às leis gerais que governam o universo? Isto é claramente falso: as vidas dos homens dependem das mesmas leis que as vidas de todos os outros animais; e estas estão sujeitas às leis gerais da matéria e do movimento. A queda de uma torre ou a infusão de um veneno destruirão um homem da mesma maneira que a criatura mais desprezível; uma inundação varre sem distinção qualquer coisa que fique ao alcance da sua fúria. Por isso, como as vidas dos homens estão para sempre dependentes das leis gerais da matéria e do movimento, será um crime um homem dispor da sua vida por ser sempre um crime interferir nessas leis ou perturbar a sua operação? Mas isto parece absurdo: todos os animais estão entregues à sua própria prudência e aptidão para a sua conduta no mundo, e têm toda a autoridade, até onde vai o seu poder, para alterar as operações da natureza. Sem o exercício desta autoridade, não poderiam subsistir um só momento; qualquer acção, qualquer movimento de um homem, inova a ordem de algumas partes de matéria e desvia do seu curso comum as leis gerais do movimento. Deste modo, juntando estas conclusões descobrimos que a vida humana depende das leis gerais da matéria e do movimento, e que perturbar ou alterar essas leis gerais não é uma intromissão no ofício da providência: não terá cada uma destas afirmações como consequência a livre disposição da própria vida? E não poderá o homem utilizar legitimamente esse poder com que a natureza o dotou? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para destruir a evidência desta conclusão, temos que apresentar uma razão que mostre por que este caso particular é uma excepção. Será por a vida humana ter uma importância tão grande que dispor dela é presunçoso para a prudência humana? Mas a vida de um homem não tem uma importância maior para o universo que a vida de uma ostra: e, se tiver uma importância tão grande, a verdade é que a ordem da natureza humana submeteu-a efectivamente à prudência humana e reduziu-nos a uma necessidade, em qualquer incidente, de decidir a seu respeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a disposição da vida humana estivesse tão reservada como a província peculiar do Todo-poderoso que seria uma intromissão nos seus direitos em relação aos homens estes disporem das suas vidas, seria tão criminoso agir para a preservação da vida como para a sua destruição. Se desvio uma pedra que vai cair na minha cabeça, perturbo o curso da natureza e invado a província peculiar do Todo-poderoso, dilatando a minha vida para além do período que, pelas leis gerais da matéria e do movimento, ele lhe atribuiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um cabelo, uma mosca ou um insecto é capaz de destruir este ser poderoso cuja vida é tão importante. Será absurdo supor que a prudência humana pode dispor legitimamente daquilo que depende de tais causas insignificantes?  Não seria um crime eu desviar o Nilo ou o Danúbio, se eu fosse capaz de realizar esses propósitos. Onde está então o crime de desviar algumas onças de sangue dos meus canais naturais! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginais que eu me queixo da providência, ou amaldiçoo a minha criação, por ter saído da vida e posto fim a um ser que, se continuasse a existir, tornar-me-ia miserável? Tais sentimentos estão longe de mim. Só estou convencido de uma questão de facto que vós próprios considerais possível: que a vida humana pode ser infeliz, e que a minha existência, caso se prolongasse mais, tornar-se-ia inaceitável. Mas eu agradeço à providência, tanto pelo bem de que já desfrutei como pelo poder de que estou dotado para escapar aos males que me ameaçam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[2] Só podem queixar-se da providência aqueles que tolamente imaginam não ter tal poder, e precisam de prolongar uma vida detestada, apesar de carregada de dor e de doença, de vergonha e de pobreza. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ensinais que quando algum mal me sucede, mesmo que resulte da malícia dos meus inimigos, devo resignar-me à providência, e que as acções dos homens, tal como as acções dos seres inanimados, são operações do Todo-poderoso? Assim, quando caio sobre a minha espada recebo a minha morte igualmente das mãos da divindade, como se esta tivesse resultado de um leão, de um precipício ou de uma febre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A submissão à providência que exigis em qualquer calamidade que me suceda não exclui a perícia e a diligência humanas, se possivelmente através delas puder evitar ou fugir à calamidade. E porque não poderei utilizar tanto um remédio como o outro? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a minha vida não fosse minha, seria para mim um crime colocá-la em perigo, bem como dispor dela; e não mereceria ser chamado herói um homem a quem a glória ou a amizade transportasse para os maiores perigos; e outro, que pusesse fim à sua vida por motivos iguais ou semelhantes, mereceria ser acusado de desprezível ou infame. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há qualquer ser que possua qualquer poder ou faculdade que não tenha recebido do seu criador; nem há qualquer ser que possa alguma vez, através de uma acção tão irregular, intrometer-se no plano da sua providência ou quebrar a ordem do universo. As operações de um ser são obra do seu criador, tal como a cadeia de eventos que ele invade; e, seja qual for o princípio que prevaleça, podemos concluir por essa mesma razão que esse será aquele que o criador mais favorece. Seja esse ser animado ou inanimado, racional ou irracional, a situação é sempre a mesma: o seu poder ainda deriva do criador supremo, e está abrangido do mesmo modo na ordem da sua providência. Quando o horror à dor prevalece sobre o amor à vida, quando uma acção voluntária antecipa os efeitos de causas cegas, isso só ocorre em consequência daqueles poderes e princípios que ele implantou nas suas criaturas. A providência divina permanece inviolada, situada muito para além do alcance das injúrias humanas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[3] &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É ímpio, diz a velha superstição romana, desviar os rios do seu curso ou invadir as prerrogativas da natureza. É ímpio, diz a superstição francesa, inocularmo-nos contra a varíola ou intrometermo-nos nos assuntos da providência, produzindo voluntariamente doenças e enfermidades. É ímpio, diz a moderna superstição europeia, pormos fim à nossa própria vida, e revoltarmo-nos desse modo contra o nosso criador. E porque não há-de ser ímpio, digo eu, construir casas, cultivar o solo ou navegar no oceano?  Em todas estas acções utilizamos os nosso poderes da mente e do corpo para produzir alguma inovação no curso da natureza, e em nenhuma delas fazemos mais do que isso. Por isso, todas elas são igualmente inocentes ou igualmente criminosas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas estás colocado pela providência num posto particular, como uma sentinela; e, quando o abandonas sem ser chamado, és igualmente culpado de rebelião contra o teu Soberano Todo-poderoso e incorres no seu desagrado. Pergunto: porque concluís que a providência me colocou neste posto? Pela minha parte, constato que devo o meu nascimento a uma longa cadeia de causas, das quais muitas dependeram de acções voluntárias dos homens. Mas a providência guiou todas essas causas, e nada ocorre no universo sem o seu consentimento e cooperação. Se é assim, então também a minha morte, mesmo que seja voluntária, não ocorre sem o seu consentimento; e sempre que a dor ou a mágoa ultrapassam tanto a minha paciência que me fazem ficar cansado da vida, posso concluir que sou chamado do meu posto nos termos mais claros e explícitos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi certamente a providência que me colocou neste presente momento neste quarto: mas não poderei deixá-lo quando considerar apropriado sem estar sujeito à imputação de ter abandonado o meu posto ou posição? Quando estiver morto, os princípios de que sou composto continuarão a desempenhar o seu papel no universo, e serão tão úteis na grande fábrica como o eram quando compunham esta criatura individual. A diferença para o todo não será maior que a diferença entre eu estar num quarto e estar ao ar livre. A primeira mudança tem mais importância para mim do que a outra, mas não tem mais importância para o universo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É uma espécie de blasfémia imaginar que qualquer ser criado pode perturbar a ordem do mundo ou invadir os assuntos da providência! Isso supõe que esse ser possui poderes e faculdades que não recebeu do seu criador, e que não estão subordinados ao seu governo e autoridade. Um homem pode perturbar a sociedade, sem dúvida, e incorrer dessa maneira no desagrado do todo-poderoso, mas o governo do mundo está situado muito para além do seu alcance e violência. E como se revela o desagrado do todo-poderoso em relação àquelas acções que perturbam a sociedade? Através de princípios que ele implantou na natureza humana, e que nos inspiram um sentimento de remorso se nós próprios tivermos sido culpados de tais acções, bem como o sentimento de censura e reprovação se alguma vez as observarmos noutros. Examinemos agora, de acordo com o método proposto, se o suicídio é uma acção desse tipo e constitui uma violação do nosso dever em relação ao nosso próximo e à sociedade.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem que se retira da vida não faz qualquer mal à sociedade: só deixa de fazer bem, o que, se é uma injúria, é do género menos grave. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas as nossas obrigações de fazer bem à sociedade parecem implicar algo recíproco. Recebo os benefícios da sociedade, e por isso devo promover os seus interesses; mas será que quando me retiro da sociedade posso ficar vinculado por mais tempo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, mesmo admitindo que as nossas obrigações de fazer o bem são perpétuas, elas têm certamente alguns limites; não estou obrigado a fazer um pequeno bem à sociedade à custa de um grande mal para mim próprio. Por que deverei então prolongar uma existência miserável devido a algum benefício frívolo que o público possa talvez receber de mim? Se por causa da idade e de enfermidades posso abandonar legitimamente qualquer profissão, utilizar todo o meu tempo na luta contra essas calamidades e aliviar tanto quanto possível as misérias da minha vida futura, por que não poderei acabar de uma vez com essas misérias através de uma acção que não é mais prejudicial para a sociedade? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas suponha-se que já não está no meu poder promover o interesse do público, suponha-se que sou um fardo para ele, suponha-se que a minha vida impede alguma pessoa de ser muito mais útil para o público: em tais casos, o meu abandono da vida tem de ser não só inocente, mas louvável. E a maior parte das pessoas que permanecem sob qualquer tentação de abandonar a existência estão em alguma situação desse género; aqueles que têm saúde, poder ou autoridade têm geralmente melhores razões para estar em paz com o mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem está envolvido numa conspiração a favor do interesse público, está preso sob suspeita, ameaçado com a tortura, e em virtude da sua fraqueza sabe que o segredo ser-lhe-á extorquido. Poderá alguém assim atender melhor ao interesse público do que pondo um fim rápido a uma vida miserável? Este foi o caso do famoso e bravo Strozzi de Florença. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, suponha-se que um malfeitor é condenado justamente a uma morte vergonhosa. Poder-se-á imaginar alguma razão para que ele não possa antecipar o seu castigo, e salvar-se de toda a angústia de pensar nas suas terríveis aproximações? Ele não invade mais os assuntos da providência que o magistrado que ordenou a sua execução; e a sua morte voluntária é igualmente vantajosa para a sociedade, que assim se vê livre de um membro pernicioso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem admite que a idade, a doença ou o infortúnio podem transformar a vida num fardo, e torná-la ainda pior que a aniquilação, não pode questionar que o suicídio pode muitas vezes ser consistente com o nosso interesse e com o dever que temos em relação a nós próprios. Acredito que nunca nenhum homem deitou fora a vida enquanto valia a pena mantê-la, pois tal é o nosso horror natural à morte que pequenos motivos nunca serão capazes de nos reconciliar com ela; e embora talvez a situação da saúde ou fortuna de um homem não tenham parecido exigir este remédio, podemos pelo menos estar seguros de que qualquer um que, sem razão aparente, tenha recorrido a ele, estava amaldiçoado com uma depravação ou melancolia de temperamento de tal maneira incurável que tinha de envenenar todo o prazer, e torná-lo igualmente miserável como se estivesse estado tão carregado com o mais doloroso infortúnio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se se supõe que o suicídio é um crime, só a cobardia pode impelir-nos para ele. Se não é um crime, tanto a prudência como a coragem devem levar-nos a livrar-nos de vez da existência quando esta se torna um fardo. É só dessa maneira que, então, poderemos ser úteis à sociedade, dando um exemplo que, se fosse imitado, faria qualquer um mantiver a hipótese de ter felicidade na vida e libertá-lo-ia eficazmente de todo o perigo ou miséria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;[1] De Divin. Lib. ii. 72. 150. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[2] Agamus Deo gratias, quod nemo in vita teneri potest. Séneca, Epist. 12. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[3] Tácito, Ann. lib. i. 79. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[4] Seria fácil provar que o suicídio é tão legítimo sob a revelação cristã como o era para os pagãos. Não há um único texto da sagrada escritura que o proíba. A grande e infalível regra de fé e prática que tem de controlar toda a filosofia e raciocínio humanos, deixou-nos neste caso entregues à nossa liberdade natural. De facto, a resignação à Providência é recomendada na sagrada escritura, mas implica submissão só aos males inevitáveis, não àqueles que podem ser remediados através da prudência ou da coragem. Não matarás pretende evidentemente excluir apenas o acto de matar aqueles sobre cujas vidas não temos qualquer autoridade. A prática dos magistrados, que condenam criminosos à morte apesar da letra da lei, mostra claramente que este preceito, tal como a maior parte dos preceitos da sagrada escritura, tem de ser modificado pela razão e pelo senso comum. Mesmo que este mandamento condenasse o suicídio, não teria agora qualquer autoridade, pois toda a lei de Moisés foi abolida excepto na medida em que é estabalecida pela lei da Natureza. E já nos esforçámos por provar que essa lei não proíbe o suicídio. Em todos os casos os cristãos e os pagãos estão precisamente no mesmo nível: Catão e Bruto, Árria e Portia, agiram heroicamente; aqueles que agora imitarem o seu exemplo devem receber os mesmos louvores da posteridade. O poder de cometer suicídio é visto por Plínio como uma vantagem que os homens possuem mesmo em relação à própria Divindade. «Deus non sibi potest mortem consciscere si velit, quod homini dedit optimum in tantis vitæ pœnis.»&lt;/em&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Tradução: Pedro Galvão, 2002)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pilhado da Trólei – Revista de Filosofia Moral e Política, &lt;a href="http://etica.no.sapo.pt/trolei.htm"&gt;que está aqui&lt;/a&gt;.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/473026477073219210-4143743714319832119?l=grandesuperficiecultural.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/feeds/4143743714319832119/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2004/06/do-suicidio.html#comment-form' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/4143743714319832119'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/473026477073219210/posts/default/4143743714319832119'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://grandesuperficiecultural.blogspot.com/2004/06/do-suicidio.html' title='Do Suicídio'/><author><name>admin</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
